Um frontão triangular clássico. Desenho que não se destaca dos demais. Acontece que este, ao contrário dos outros, se encontra no interior de teatro, no Teatro Tivoli a encimar o palco. Um palco despojado, com duas guitarras e um microfone.

O frontão familiar a tantas casas do sul do Estados Unidos, talvez não muito longe da Carolina do Sul, estado de onde é originário Sam Bean, nome artístico de Iron & Wine, como que a convidar-nos a ouvir as suas histórias, as nossas também, de uma diáspora de uma geografia interna e externa, de um país que à escala, assume perante os portugueses a imensidão de um continente. A meio Sam Bean, autor e quanto autor o é, durante a explicação de The Backwater Birds afirma – “Esta canção faz muito sentido, pelo menos para mim”. Sem arriscarmos muito poderemos acrescentar que faz muito sentido para ele e para a larga maioria dos presentes naquela passada noite de Domingo no primeiro dia de mais uma edição do Misty Fest. Um sentido não imediatamente evidente, quase de um carácter litúrgico que ficou bem expresso em cada um dos olhares dos espectadores que desciam a escadaria. Recuemos uma hora e meia, ou melhor, um bom par de anos.

Surpresa não é para ninguém o exímio executante, o compositor e cantor de eleição que Sam Bean é. Comparações a notáveis como Neil Young, Elliot Smith ou Nick Drake são frequentes e provas não faltam, basta recordar o seminal The Creek Drank the Cradle (2002), o subsequente Our Endless Number Days (2004) ou ainda o The Sheppard’s Dog (2007) para compreender que a excitação para ver o autor norte-americano em estreia no nosso país era mais que muita. E Sam corresponde, de passo vagaroso, pequeno aceno e palavras num português esforçado e pedido inédito não nele, nem se tivermos em consideração alguns concertos de Yo La Tengo – que músicas desejam ouvir? Pela força de vontade de uns ou pelos brônquios mais limpos de outros as duas primeiras selecionadas foram – Upward over the mountain seguida de Jesus is a Mexican Boy. O público anima-se, o sentido de pertença aumenta e todos se sentem convidados a atravessar o frontão, fazer do palco sala de estar e partilhar com os restantes os momentos que nos habituámos a ter como nossos. No entanto, na terceira Sam solta – Não sou uma jukebox. Escolhe ele e segue caminho com Trapeze Swinger. Em boa hora o faz. No entanto, esta tendência de agradar a quem pensa que um concerto deve corresponder a uma narrativa fechada, a uma vontade do autor em seguir uma ideia construída mais do que uma resposta a músicas pedidas, durou somente um tema. Solicito Sam responde aos pedidos mais desejados – ouvem-se Me and Lazarus, Tree By the River e ainda uma versão dos de New Order – Love Vigilantes. Pelo meio uma carícia dedicada a cada uma das guitarras, e o quanto estas agradecem serem tocadas com dedicação e afinco, momentos inesquecíveis à capela, de diálogo entre vozes tendo o mesmo interlocutor, haverá só um Sam?

Flightells Bird, American Mouth encerra a noite num único e curtíssimo encore. A vontade? Continuar ali. Ser pequeno pássaro, quase invisível, escutar aquela voz hipnotizante, escrutinar cada frase. Sam tem tudo para nos contar.

Texto – João Castro
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – UGURU