Estação de Reguengo – apanhar o autocarro e rumar ao Parque de Merendas. Coisa simples, não fosse o serviço ter terminado antes da hora. Um dos escribas começa a pensar à McGyver. Ora bem, paga-se dois euros a um bem-aventurado local que tresanda a cerveja e voi-lá boleia para o recinto. Nada de mal, estas estórias são a marca de um Festival e do Reverence Valada em particular. Nunca nos moveu um sentido de pontualidade nem muito menos de organização extrema. Chegámos ao porto que sempre ansiámos e ali à beira Tejo nunca saberemos se encontrámos a fada Sininho ou não. Há estórias que se podem partilhar, outras convém que não. Decoro? Nenhum. A vontade em prolongar o efeito metamorfósico que tanta dose de música e ambiente único podem criar.

Era uma vez, início de tanto conto. Era uma vez, quantas vezes não nos habituámos a ouvir esta expressão. E o Reverence teve início, pelo menos para nós, com o concerto de uma banda que poderia muito bem começar a sua história com “Era uma vez, corria o ano de 2015…”. Alexandre Sousa, João Figueiras, Miguel Figueiredo e Joana Batista são os protagonistas desta história que de real tem muito, mas de irreal a dose também é forte. Galgo de nome e Galgo na urgência. Ocupam o Palco Rio como miúdos que descobrem os primeiros videojogos. O desafio não é passar de nível, não é chegar ao final com mais pontuação que o adversário, antes descobrir o truque mirabolante, a parte da cara em que o protagonista se esbardalha ao comprido e que serve para futuras risadas incontroláveis. A abordagem é aparentemente simples e clássica – bateria, primeiro as senhoras não é verdade?, guitarras, voz e baixo. Do classicismo da estrutura à irreverência da construção dos temas. São rock, mas não clássico, são world, sem necessidade de batuque, são pop sem letras de eloquência zero, e são putos, muito putos. Esta irreverência juvenil calha e casa bem com o final de tarde escaldante. Perdoa-se um ou outro desacerto e excessivo deslumbramento na comunicação com o público e uma coisa é certa – há que intensificar o jogging matinal, pois estes Galgos são rápidos e têm o futuro pela frente.


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Keep Razors Sharp, outras das bandas nacionais destacadas para o primeiro dia, e volvido um ano após a sua actuação no agora palco Praia, voltaram a Valada com um estatuto superior que o seu trabalho na estrada lhes concedeu. Notou-se, efectivamente, uma maior química entre os membros deste “super-grupo” e um refinar da sua aproximação ao rock psicadélico. Sem serem deslumbrantes, as suas canções são boas mas não passam disso, assinaram um bom concerto, pese apenas a confusão de feedbacks que roubou algum brilho a algumas partes da sua actuação, e terminaram com uma cacofonia intensa. Esperemos agora por novo material com as lâminas mais afiadas.


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Da legião estrangeira, e sem qualquer conotação bélica, destaque para Jeff the Brotherhood e The Vickers. Os primeiros, numa noite empestada pelos doces aromas do psych, fizeram sentir aquele acre que o rock deslavado traz. Os Jeff the Brotherhood foram provavelmente a mais idiossincrática proposta do dia (não era difícil), situando-se algures entre o miserabilismo dos Nirvana e as sensibilidades indie rock dos Weezer (antes do colapso, claro), juntando a sua porção de psicadelismo muito próprio e uma atitude meio white trash, meio despreocupada. “Livres” desde que abandonaram a Warner Music e com o mais recente Wasted on the Dream debaixo do braço, os irmãos Jake e Jamin Orrall estrearam se em Portugal, directamente de Nashville, para um concerto divertido, em que para cada riffzorro porcalhão houve um momento de exploração mais introspectiva. Whatever I Want, Hey Friend (que nos lembrou de um Rivers Cuomo ainda mais parvo), Black Cherry Pie (só faltou o Ian Anderson e sua flauta) e a Cobainiana Totally Confused foram alguns dos temas que levaram os presentes no palco Rio a rir-se e abanar a cabeça em simultâneo, uma combinação difícil mas possível de alcançar.


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Os florentinos de fino recorte, The Vickers de seu nome, serão com toda a certeza o primo italiano de George Harrison. Andrea Mastropietro, guitarra e voz, e que voz e sobretudo que presença em palco, Francesco Marchi, guitarra e voz, Federico Sereni, baixo e voz e Marco Biagiotti, bateria e voz, sim aqui todos cantam, são capazes de tecer um entremeado tão desconcertantemente minucioso e de cruzar linguagens tão aparentemente díspares como pop, psicadelismo e trance. Não foi a pirâmide próxima do universo maçónica, grafada no último álbum da banda – Ghosts, que teve a capacidade de nos atrair constantemente para mais próximo do palco e fizesse com que as idas à zona da restauração fossem consideravelmente diminuindo. Antes o hipnotismo psicadélico, não confundir com aborrecimento discursivo se faz favor, que vem sendo apanágio de tantas bandas que vagueiam por este estilo, e sobretudo a leveza pop conferida por uma massa instrumental coesa e inteligente nas opções que tomam em cada tema. Não por acaso, apresentaram a cover de Love You To dos The Beatles e mencionam o White Album como um dos mais marcantes.


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Destaque ainda para Chicos de Nazca que andarão por digressão no nosso país nos próximos dias e que serviram de longínqua e aprazível banda sonora de tintes psicadélicos, em direcção ao alojamento. Só entramos no Festival quando se deixa a mochila. E sobretudo destaque para Kaleidoscope & Lisbon Psych Fest, projecto do bem conhecido Senhor Sue, A boy named Sue, acompanhado desta feita pela sua fada madrinha, sobrinha ou simplesmente gatinha que com um rodopiar de dedo dava a indicação para a próxima música.


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Há dias que começam com locals e terminam com princesinhas. É o primeiro dia do Reverence e não defraudou.

Veja aqui as galerias completas de fotografia dos concertos:

DIA 27

– Ambiente – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-ambiente/
– Chicos de Nazca – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-chicos-de-nazca/
– Galgo – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-galgo/
– Jeff The Brotherhood – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-jeff-the-brotherhood/
– Keep Razors Sharp – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-keep-razors-sharp/
– Purple Heart Parade – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-purple-heart-parade/
– The Vickers – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-27-the-vickers/

Dia 28

– Alcest – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-alcest/
– Ambiente – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-ambiente/
– Ancient River – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-ancient-river/
– Bizarra Locomotiva – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-bizarra-locomotiva/
– Black Rainbows – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-black-rainbows/
– Cheatahs – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-cheatahs/
– De Wolf – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-de-wolf/
– Electric Eye – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-electric-eye/
– Jon Spencer Blues Explosion – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-jon-spencer-blues-explosion/
– Los Waves – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-los-waves/
– Process of Guilt – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-process-of-guilt/
– Sleep – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-sleep/
– Ufomammut – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-28-ufomammut/

Dia 29

– 10.000 Russos – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-10-000-russos/
– Ambiente – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-ambiente/
– Amon Duull II – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-amon-duull-ii/
– Calibro 35 – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-calibro-35/
– Chicos de Nazca – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-chicos-de-nazca/
– Electric Moon – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-electric-moon/
– Fast Eddie Nelson – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-fast-eddie-nelson/
– Joel Gion & Guests – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-joel-gion-guests/
– Lâmina – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-lamina/
– Magic Castles – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-magic-castles/
– Miranda Lee Richards – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-miranda-lee-richards/
– One Unique Signal – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-one-unique-signal/
– Samsara Blues Experiment – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-samsara-blues-experiment/
– Sean Rilley & The Slowriders – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-sean-rilley-the-slowriders/
– Spectres – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-spectres/
– The Act-Ups – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-the-act-ups/
– The Horrors – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-the-horrors/
– The Jackshits – https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-the-jackshits/

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A equipa Música em DX que esteve no Reverence Valada’15 ficou confortavelmente instalada no espaço glamping Sleep’em’All, a solução ideal para descansar após muitas horas de música. Pode ver fotos deste espaço em https://www.musicaemdx.pt/2015/09/03/reverence-valada15-dia-29-espaco-sleepemall/

 

Texto – António Moura dos Santos e João Castro
Fotografia – Ana Pereira e Luis Sousa