Dois anos após a primeira edição, o Santa Summer Sounds voltou a erguer-se das areias de Santa Cruz, Torres Vedras para dar música aos adeptos do rock, reggae e hip-hop.

Com uma programação centrada nas bandas e músicos nacionais e repartida entre as noites de 14 e 15 de agosto, o festival compôs um cartaz que levou o Música em DX a estar presente no primeiro dia de festival, e a usar a A8 para se dirigir a um dos destinos preferidos dos surfistas, agora para apanhar umas ondas de música.

Entre uma primeira noite dedicada ao rock – sobretudo na vertente punk mas também com um momento stoner – e uma segunda repartida entre o reggae e o hip-hop, onde os cabeça de cartaz foram Sam the Kid & Mundo Segundo, o festival dava bons motivos a quem quisesse terminar em grande um dia de praia. Quanto a nós, pudemos testemunhar o que se passou na primeira noite.

Bem organizado a nível logístico, o Santa Summer Sounds contou com um recinto erguido entre pinheiros bravos batidos pelos ventos marítimos, dentro do qual se encontravam providenciadas todas as condições necessárias a umas boas horas de permanência. Um palco principal e uma tenda eletrónica garantiam tipos diferentes de entretenimento e foi obviamente no primeiro que concentrámos as atenções ao longo da noite.

LAZY GENERATION

Por volta das 20:45, com o sol ainda a fazer as últimas despedidas, foram abertas as hostilidades. A honra coube aos Lazy Generation, a banda vencedora do concurso que a organização do festival promoveu antecipadamente. Mas com essa honra, a que pareceu adequada a vestimenta uniforme dos membros da banda – camisa branca e gravata -, veio a tarefa um pouco ingrata de enfrentar um recinto ainda escassamente povoado. Perante esse cenário, os cinco rapazes de Lisboa não baixaram os braços e demonstraram profissionalismo ao atuarem como se tivessem uma multidão à sua frente. Afonso Gageiro, o frontman, nunca deixou de dirigir-se ao público presente e incitar à sua participação. Musicalmente, o punk de pendor comercial que os Lazy Generation apresentaram ao longo de sete músicas bem executadas, impulsionadas pelo impecável sentido rítmico de Rodrigo Mendonça, o baterista, não foi propriamente inovador ao nível da conceção, mas a energia da atuação e a coesão do grupo compensou uma certa formatação.

Entre temas cantados em inglês que falam de inconformismo e do valor de uma geração, houve espaço para a primeira incursão da banda na escrita portuguesa. No cômputo geral, os Lazy Generation cumpriram o que se lhes pedia: proporcionar um bom arranque para uma noite de emoções rockeiras.

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THE QUARTET OF WOAH!

Subiram depois ao palco os The Quartet of Woah!, que traziam na bagagem uma hora de um som sujo, pujante e insistente, glosado a espaços pela voz grungie de Gonçalo Kotowicz (guitarra) e, com menos frequência, pela de Rui Guerra (teclados).

Ao longo das 12 músicas que compuseram o set, o público, que era ainda pouco no início, foi crescendo em número à medida que a muralha sonora da banda dançava – nem sempre a quatro tempos (Slim Shot Sam, por exemplo) – na noite. Há algo de catárquico no som desta banda que é reconfortante. A par de ecos de décadas passadas, que trazem à memória Led Zeppelin e Pink Floyd, quando não inspirações mais específicas como Manic Depression, de Jimi Hendrix (Path of Our Commitment), a banda tem num certo despojamento com que aborda a execução dos temas um trunfo para um resultado consistente. De resto, é do poder instrumental, e sobretudo do riff, que a música dos Quartet of Woah! vive.

Mas a vertente stoner do som é claramente a casa onde os músicos acabam sempre por voltar, mesmo nos temas com arranque mais baladeiro, para prazer evidente de Kotowicz, que demonstra geralmente com exuberância de movimentos o gozo que está a sentir. Uma atuação sólida da banda, ligeiramente saturante na reta final, constituiu já um momento forte nesta primeira noite do festival.

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ANARCHICKS

Chegou depois a vez de outro quarteto pisar o palco principal. As Anarchicks iniciaram a sua prestação de forma um pouco morna mas rapidamente vieram a si com um vigoroso Take it or Leave It, em que começaram a mostrar a sua garra.

Duas coisas parecem evidentes nas Anarchicks: divertem-se em palco e sabem mobilizar a atenção do público. É graças a esta segunda característica, que muitos músicos gostariam de ter mas poucos têm, que estas meninas controem uma moldura para o seu espetáculo; e é recorrendo à primeira que enchem esta moldura com música, que pode ser mais ou menos inspirada mas que é quase sempre entregue com energia e competência.

Passando por vários temas dos fonogramas já editados e por um clássico dos Fab Four, Helter Skelter, as Chicks foram subindo de intensidade ao longo do concerto e atingiram o melhor momento no último tema, My Way, em que estiveram muito mais soltas. Pena que tivessem de ficar por aí, mas ainda houve tempo para um encore, em que voltaram ao tema dos Beatles, visivelmente a malha que mais gozo lhes deu tocar.

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TARA PERDIDA

A impaciência que se sentia à medida que se acompanhavam os preparativos no palco, bem como o entoar de canções que se ouvia aqui e ali, não deixavam margem para dúvidas: os Tara Perdida eram os mais esperados da noite. E não podia deixar de ser assim pois estes veteranos do punk hardcore nacional, com uma formação mais uma vez reformulada, eram os cabeças de cartaz e prometiam dar pretexto para moshes e poeira no ar.

E não desiludiram. Desde os primeiros power chords de Um Dia de Cada Vez que a banda embalou para uma exibição irresistível, bem liderada por um Tiago Afonso já plenamente entrosado. Os temas do último álbum (Luto, 2015) foram-se sucedendo, intervalados por outros mais “antigos” como Sentimento Ingénuo, Pernas P´ró Ar ou o sempre esperado Batata Frita, esta com as vocais a cargo de Ruka.

A relação recíproca de fidelidade que a banda tem com a sua legião de seguidores foi evidente ao longo do concerto, com o público a acompanhar as letras, a antever os momentos de maior intensidade e a fazer a festa.
Nos momentos finais da atuação, a melancólica Lisboa adequava-se bem ao sentimento de muitos dos que pouco depois haviam de fazer-se à estrada para regressar à capital: “a vontade de quem quer ficar” e “as memórias de quem quer voltar”. Talvez para o ano?

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Veja aqui também outras fotos do dia em https://www.musicaemdx.pt/2015/08/19/santa-summer-sounds-2015-dia-14-ambiente/

Texto – Pedro Raimundo
Fotografia – Luis Sousa