Tido como um dos dias mais importantes da nossa história, calhou este ano o 25 de Abril receber também uma das mais importantes e históricas bandas de Stoner Metal. Mais do que uma celebração da liberdade que o povo tem em despender o seu dinheiro em música barulhenta, a vinda dos Acid King marcou a sua estreia absoluta em Portugal e tal acontecimento foi motivo para um grupo selecto (mas diga-se, esclarecido) de pessoas enfrentar a chuva e enfiar-se numa sala com o propósito de ouvir música distorcida para lá do aceitável para a maioria da população.

Começando mesmo à hora marcada, os Vaee Solis (nome que a banda revelou em entrevista querer dizer “Sol Oculto”) subiram ao palco para escurecer o RCA com o seu negrume, uma fecundação maldita entre o Sludge/Doom e o Black Metal: Doom da parte do pai, bem presente no compasso glacial e no peso apoiado por feedback tão abusado que fez tremer a sala e tinir os ouvidos. Já o Black Metal vem da mãe, geneticamente carregado pelas melodias gélidas reminiscentes do género, pela toada lírica neo-pagã e pelos sofridos e tresloucados guinchos de Sofia. A vocalista deu uma demonstração de poder, acompanhada por uma banda experienciada em projectos como Don’t Disturb My Cicles, Goatfukk e A Tree of Signs. Foi, portanto sem surpresas que o conjunto demonstrou enorme coesão durante quase uma hora de violência incomensurável, findada com Cosmocrat, malhão de percussão algo reminiscente dos Neurosis e que assinalou o fim com a autoridade de quem não está para merdas.

[Fotos do concerto de Vaee Solis]

Falando de surpresas, não deixou de ser curioso ver Vasco Duarte a encabeçar um grupo de rock de inspiração oculta, os Lâmina, anos depois de, neste mesmo dia, ter desfilado pela Avenida da Liberdade interpretando a sua conhecida personagem “Falâncio” dos Homens da Luta. Contudo, o humor acaba aqui. Não foi de “Quiri-quiris” (ou de “Jolis”, já que o ilustre Filipe Homem Fonseca também é membro da banda) que se fez a noite, antes de samples de filmes de terror e Rock a puxar para o Stoner e para o Doom. Ainda sem um lançamento oficial cá fora, o projecto, apesar dos seus membros terem outras ocupações, deu provas de ser uma banda no verdadeiro sentido do termo. Cold Blood e Big Black Angel deram o mote para uma prestação energética que, ora puxou pela costela acelerada mais Rock and Roll, ora abrandou as coisas para punir os presentes com riffs bem pesadões. Destaque ainda para a versão da eterna Black Sabbath, aposta segura que caiu bem no goto do público.

[Fotos do concerto de Lâmina]

Já se falou por estes lados que o Psych está na moda em Portugal. Basta olhar para o restante calendário e verificar que ainda vamos ser agraciados com a presença dos Pentagram, Sleep, Electric Wizard, Earth por estas bandas para comprová-lo. Menos conhecidos que os nomes mencionados mas não menos essenciais, os Acid King vieram pela primeira vez a Portugal na senda do seu primeiro lançamento ao fim de 10 anos de hiato e em boa hora o fizeram. Liderado por Lori S., o trio mostrou que a idade não é um posto e proporcionou uma viagem de pouco mais de uma hora pelos trilhos enevoados das Busse Woods. A fórmula é tão simples e tão eficaz que irrita: Joey Osbourne a fazer mil fills de bateria sem nunca perder o ritmo groovy, Mark Lamb a contribuir para a densa massa sonora (se bem que o seu baixo podia estar mais audível) e Lori, desdobrada entre os seus nebulosos riffs e arrastados solos e o seu canto de sereia grega que paira sobre essa neblina sonora.

A corrente sorumbática que “Red River”, do mais recente Middle of Nowhere, Center of Everywhere, inaugurou, mostrou como os Acid King ainda gostam de levar o seu tempo, e fazem-no de forma exímia pois não nos damos pelo mesmo a passar. O público só despertou com assobios e palmas do enleante transe aos primeiros acordes de “2 Wheel Nation”, precedido de outro grande tema do Stoner, “Electric Machine”. Para o fim, num sempre dispensável encore, sobraram “Laser Headlights e outro clássico, Sunshine and Sorrow. Foi um fim apropriado: cantou a Lori que “Haze leads the way”.

[Fotos do concerto de Acid King]

Num 2015 que promete tanta incerteza quanto fumarada psicadélica, escolha o leitor o significado que lhe faça mais sentido.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Valentina Ernö (Silvana Delgado)
Promotor – Goodlife HP | Amazing Events