Há concertos que se ouvem. Há outros que se vivem. E depois existem aqueles em que, durante algumas horas, deixamos simplesmente de sentir a necessidade de fazer qualquer uma dessas coisas.
Há concertos que nos fazem esquecer o mundo. E há outros que nos fazem lembrar porque gostamos tanto de estar nele.
Na noite passada, 17 de setembro, o Sagres Campo Pequeno encheu-se por completo para receber os Sigur Rós e a sua Orchestral Tour. Às 21h10, perante uma sala esgotada, a banda islandesa subiu ao palco acompanhada pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e pelo Coro Ricercare, para uma viagem dividida em dois atos e que, em muitos momentos, pareceu existir fora do tempo.
Talvez porque, perante a música dos Sigur Rós, o tempo adquira outra dimensão. Deixa de ser aquilo que nos empurra para o momento seguinte e transforma-se apenas no instante em que estamos.
Aqui. Agora.
Ato I — O tempo suspenso
Blóðberg abre a viagem e, desde os primeiros acordes, torna-se evidente que esta não seria apenas mais uma noite de música.
Ekki múkk, Fljótavík e 8 conduzem-nos lentamente para esse território tão próprio dos Sigur Rós, onde as palavras parecem deixar de ser necessárias e onde cada nota parece ter espaço suficiente para respirar.
Segue-se Von, numa versão longa que permite à música crescer lentamente, quase como uma paisagem que se revela à nossa frente sem nunca nos mostrar completamente onde termina.
Andvari e Starálfur aprofundam essa sensação de suspensão, antes de Dauðalogn nos conduzir ainda mais fundo nessa viagem interior.
E então chega Varðeldur.
Com a presença de uma solista feminina, o tema ganha uma delicadeza particularmente comovente e encerra o primeiro ato num daqueles momentos em que parece que tudo se torna mais lento. Como se a música pudesse, por breves instantes, parar o relógio.
Não é apenas música.
É espaço. É luz. É memória.
É aquela estranha sensação de reconhecer algo que talvez nunca tenhamos vivido.
E então, o silêncio.
Um intervalo de vinte minutos separa os dois atos. Vinte minutos para regressarmos, por instantes, ao mundo real. Para falarmos, respirarmos, olharmos uns para os outros e percebermos que ainda estamos ali.
Mas também vinte minutos para percebermos que, quando a música regressar, provavelmente não vamos querer voltar a sair daquele lugar.
Ato II — Quando a música respira
O segundo ato começa com Untitled #1 – Vaka, seguindo-se Untitled #3 – Samskeyti. E é como se a sala voltasse lentamente a fechar-se sobre si própria, deixando lá fora o ruído da cidade e abrindo espaço para uma outra forma de escutar.
Ylur, Skel, Untitled #5 – Álafoss e Sé lest prolongam essa viagem delicada, feita de silêncios, de crescendos e de uma beleza que nunca parece precisar de se impor.
Até que chega Ára bátur.
Com o Coro Ricercare a juntar-se à música, a dimensão daquilo que acontece em palco cresce de forma quase inevitável. A orquestra, o coro e a banda parecem convergir para um único instante. A voz de Jónsi ergue-se sobre uma massa sonora que ocupa todo o espaço do Sagres Campo Pequeno.
É um daqueles momentos em que a música deixa de ser apenas aquilo que ouvimos e passa a ser aquilo que sentimos no corpo.
Depois, Hoppípolla.
Também com o coro, mas com uma emoção diferente. A solenidade dá lugar a uma espécie de felicidade pura. Aquela melodia que tantos reconhecem regressa agora envolvida por uma dimensão orquestral que lhe acrescenta ainda mais emoção.
Há nela uma inocência quase infantil. Uma vontade de correr, de saltar, de acreditar. Uma pequena celebração da vida.
Talvez seja impossível não sorrir.
Avalon encerra a viagem.
E quando a última nota desaparece, fica o silêncio.
Um silêncio breve.
Porque aquilo que vem depois é uma das mais bonitas confirmações de que uma noite assim tinha acontecido.
O público do Sagres Campo Pequeno levanta-se e aplaude.
Não por alguns segundos. Nem por um simples gesto de cortesia.
Durante largos minutos, a sala devolve aos Sigur Rós, à Orquestra Sinfonietta de Lisboa e ao Coro Ricercare aquilo que recebeu durante aquela noite: emoção.
Uma longa ovação, sentida, demorada, quase como se ninguém quisesse ser o primeiro a aceitar que tinha chegado o fim.
E talvez seja essa a melhor forma de terminar uma noite dos Sigur Rós.
Porque se quisermos realmente disfrutar o agora, talvez não seja preciso procurar fórmulas complicadas.
Basta disponibilizarmo-nos para ouvir.
Ouvir verdadeiramente.
Deixar que a música ocupe o espaço, que a orquestra respire connosco, que o coro eleve cada momento, que a voz atravesse a sala e que, por uma noite, Lisboa fique um pouco mais perto da Islândia.
Durante pouco mais de duas horas, o tempo deixou de ser importante.
Não houve passado nem futuro.
Houve apenas música.
Houve apenas aquele momento.
Houve apenas o agora.
E talvez seja esse o maior presente que os Sigur Rós nos poderiam deixar.
Há noites em que não precisamos de fotografar o tempo.
Basta estarmos presentes para o testemunhar.





















