Costumo dizer que a rádio é a principal fonte onde um melómano pode beber. Com ela crescemos, aprendemos e abrimos a mente a universos que poderão estar fora da nossa zona de conforto mas que nos preenchem de alguma forma, de igual modo.
Tiago Castro, Acid Acid, decidiu fazer o seu terceiro disco de originais em homenagem à rádio. Ao seu fascínio por ela, aquilo que fez e faz nela e a todos os que nela bebem diariamente.
As ligações que criamos com a música e na música são difíceis de descrever. Como toda a arte, o sentir é primordial e há muito que não se consegue dizer ou escrever, apenas sentir.
O meu primeiro contacto com o Tiago foi com a Floresta Encantada. Enquanto amante de psicadelismo e todos os seus derivados, foi amor à primeira audição, depois a companhia pelas manhãs na radar, depois o primeiro concerto que vi no Lisbon Psych Fest, a passagem para a sbsr, os concertos de Acid Acid marcados no Sabotage e não só, as conversas matinais em estúdio sobre a programação do Sabotage, a amizade, as entrevistas, a camaradagem e não preciso de me alongar mais para perceberem que o que me liga a este ser puro e genuíno veio da música. A que ele partilha e a que faz. Sendo que a que faz é um espelho do seu universo planetário e das viagens entre bosques mágicos cheios de sábios xamãs, tal como deste amor à música que cria ligações.
The Radio Under The Stars é um disco onde se continua a sentir o cosmos e a beber poções mágicas, cheirando, de imediato, a essência de Acic Acid, mas eleva-nos a um patamar mais cintilante. Não só com o brilho das estrelas que é quase palpável, como pela viagem emotiva que fazemos com ele.
Não se esqueçam de fechar os olhos!
É um disco bastante poético e romântico (aquele romantismo de quem ainda tem esperança nas coisas puras e autênticas) e estruturado de forma inteligente e emocionalmente clara. Conseguimos fazer viagens de vários tipos ao mesmo tempo que sentimos a conexão transcendente com a rádio.

No lado A, sentimos na pele cada título atribuído às etapas do encantamento: a descoberta, o fascínio, o sonho, a viagem sob as estrelas e as ondas sonoras que pairam na via láctea. Passamos depois, no lado B, para o eletromagnetismo, uma tempestade onde não nos importamos de estar sozinhos, a frequência radiofónica, a viagem sob as estrelas na companhia da rádio e, por fim, o regresso à realidade.
Podem pensar que não, mas se ouvirem com cuidado e a devida atenção, vão passar por cada estágio aqui descrito e perceber a beleza desta poesia.
Afinal todos nós já sentimos isto com músicas, com a rádio, com concertos e com tudo o que nos importe aos sentidos.
The Radio Under The Stars começa de forma majestosa e termina com um esplendor puro meio catártico. Ao longo do disco e numa parte da viagem, sentimos que estamos perante um Deus da música que paira numa aura de luz fulgurante e, nesse momento, sentimos que é ali que pertencemos, no meio da música, com uma estrada desenhada pela rádio e com a experiência de um sonho encantado onde o cosmos se interliga com o fascínio ofuscante de uma intensidade que tanto nos tira o ar como nos tranquiliza o coração.
Este disco é uma ode à rádio e à música. Não podendo deixar de citar o Rei Lagarto ao dizer que a música é a nossa única amiga. Não é mas, na maioria dos momentos é, e este disco é a prova disso.
The Radio Under The Stars foi gravado no Estúdio Spring Toast e contou com produção e sound design de Rui Antunes, que já tinha produzido o álbum anterior de ACID ACID, JODOROWSKY, de 2020. Há contribuições dos músicos Helena Fagundes (bateria) e André Hencleeday (hammond, synths, percussões). A capa é assinada pela Vertigo Eyes Collage de Carlos Ferreira, com uma série de colagens analógicas. O grafismo é da autoria de Filipa Ferreira.
Podem sentir esta experiência ao vivo nestes locais:
25 Julho – Galeria Zé dos Bois, Lisboa – 1ª Parte com Afonso Sêrro
06 Agosto – Bons Sons, Cem Soldos
E adquirir o disco e/ou fazer a viagem aqui.



