Concertos Reportagens

Iron Maiden – o triunfo da Dama de Ferro no Estádio da Luz

Talvez já tenha escrito isto: não há nada tão singularmente único como assistir a um concerto dos Iron Maiden.

E isto dito não por um fã de Heavy Metal, algo que claramente não sou de forma geral; aprecio bom rock somente e, tenha ou não este uma vertente heavy, deve transmitir algo. Geralmente, no caso de boas bandas deste género, uma reação emocional de adrenalina é o mais comum, e claramente esta banda tem algo que sempre me agradou: um sentido explosivo do melodramático, prestações ao vivo teatrais, um excelente cantor e uma série de álbuns clássicos. A bem da verdade, esta tour aborda precisamente o período de ouro da banda, de 1980 a 1992, e tematicamente, embora o alinhamento prometesse ser muito semelhante ou praticamente idêntico ao do concerto dado na MEO Arena há sensivelmente um ano, a oportunidade de assistir a esta produção num estádio perante um público ainda mais robusto em números é uma aposta ganha pela promotora deste concerto.

Mas antes que os Maiden chegassem ao palco, como sempre, trazem convidados de peso, neste caso os também veteranos Anthrax, que já tinha visto há décadas sem grande entusiasmo. Concerto difícil de definir para mim; simplesmente nunca nutri grande simpatia pela música desta banda norte-americana. Respeito o longo percurso e historial da banda e lembro-me de colegas de liceu absolutamente fanáticos pela música dos Anthrax – talvez aqui estivessem presentes neste mar de gente –, mas para mim sempre foram musicalmente e ritmicamente competentes, demonstrando até uma invulgar competência nesses domínios, mas estranhamente irritantes nas músicas que compõem. Até mesmo uma canção de Joe Jackson, ícone punk ou new wave dos anos 70-80, “Got The Time”, que viria a ser tocada logo após “Among The Living”, soa irritante aos meus ouvidos, portanto não sou a pessoa ideal para, com toda a justiça, escrever sobre esta atuação. Dada essa nota, o facto é que foram capazes de criar algum “mosh” nas primeiras filas como manda a tradição. Escuso-me a mais comentários: são simpáticos, têm alegria e energia no que fazem e até existiu um lapso inusitado, pelo que percebi, por parte do vocalista Joey Belladonna relativo ao país onde estava a atuar, pelo qual se desculpou: “My mistake, we’re in Portugal”. As minhas desculpas aos fãs da banda que se devem ter divertido e apreciado o concerto; simplesmente não sou um deles e esta atuação só reforçou isso.

  • 20260707 - Anthrax @ Estádio da Luz (Lisboa)
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A cinco minutos das 21 horas surge pelo PA a tradicional “Doctor Doctor” dos UFO a anunciar o início do concerto, seguida de “Ides of March” já com o ecrã de fundo do palco a emitir as imagens introdutórias alusivas ao segmento temporal das 3 canções que se seguiriam; a banda entra em palco fulgurante e de seguida disparam 3 canções do álbum ´Killers`: “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild”, “Killers”, seguidas depois por “Phantom of the Opera” do álbum ´Iron Maiden`, todas canções da era Paul Di’Anno, primeiro vocalista da banda, entregues como é habitual com o imenso talento vocal de Bruce Dickinson que, nestes primeiros minutos de atuação e vou agora fazer uso da piada que já decorria nas redes sociais, já teria corrido neste palco mais do que certos jogadores da seleção nacional em todo o mundial de futebol. Para quem esteve como eu há um ano na MEO Arena sabia precisamente que, fora uma canção, o alinhamento seria virtualmente idêntico ao tocado há um ano; a grande diferença que senti é que aqui o som, embora não perfeito, esteve bem melhor e a banda toda no geral está mais habituada ao novo baterista Simon Dawson ou então ao contrário; não me interpretem mal, ainda sinto a falta de Nicko McBrain, mas Simon Dawson neste concerto pareceu-me mais solto e à vontade nas manobras nos timbalões de bateria que eram uma das imagens de marca de McBrain e é isso mesmo que o repertório dos Maiden precisa. No geral, sonoramente e porque este setlist já leva mais rodagem na estrada, a progressão sentiu-se. A seguir a “The Number of the Beast” seguiu-se a novidade no alinhamento “Infinite Dreams” do disco ´Seventh Son of a Seventh Son`; a canção, que não tocavam ao vivo desde 1988, veio substituir “The Clairvoyant” no alinhamento; boa escolha, mas na realidade, e para além disso, relativamente ao concerto anterior em Portugal o que aqui vimos foi uma repetição com melhor som num ambiente efusivo em estádio semilotado com o bónus que é uma performance dos Iron Maiden em grande forma; claro que a voz de Dickinson já não é exatamente a mesma que era nos anos 80, mas conserva o vigor e o pulmão junto com o amadurecimento próprio do passar dos anos e, inacreditavelmente, um grave problema de saúde ultrapassado há alguns anos, um prodígio da natureza; não há aqui manobras de baixarem o tom original das músicas como outras instituições do Heavy Metal ou hard rock fizeram, tudo é tocado no tom original e canções como “Powerslave”, com ou sem backdrops monumentais de vídeo, continuam tão majestosas como antes; o trio de guitarras de Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers é uma coisa épica e verdadeiramente funcional; Steve Harris, o baixista e timoneiro desta verdadeira instituição, parece preparado para tocar durante muitos mais anos até cair para o lado.

Foi verdadeiramente impressionante a atuação da banda que, depois de 14 canções, de onde destaco, claro, “Hallowed Be Thy Name” e “Seventh Son of a Seventh Son”, verdadeiramente espetaculares neste ambiente de estádio, e as obrigatórias “Run to the Hills” ou “The Trooper”, teria de bom grado trocado “Rime of the Ancient Mariner” por algo como “Flight of Icarus” ou “Stranger in a Strange Land”, mas isto sou eu. Para um concerto de estádio já tínhamos vários épicos longos, mas… de energia renovada, no encore tivemos “Aces High”, a obrigatória “Fear of the Dark” — esta canção, sim, num estádio, é verdadeiramente arrebatadora. A terminar, “Wasted Years”. Já eu abandonava o Estádio da Luz a pensar: como vou descrever este concerto que, no essencial, foi igual ao de há um ano, só que melhor ainda? Digamos assim, esta noite é melhor descrita como aquilo que penso há bastante tempo: os Iron Maiden ultrapassaram géneros e descrições; a música desta banda pode simultaneamente tocar tanto os amantes do fado, como da britpop ou de outro género qualquer, não é exclusiva dos amantes do heavy metal. É por isso que, enquanto se dispuserem  a dar concertos, provavelmente lá estarei para vê-los outra vez.

  • 20260707 - Iron Maiden @ Estádio da Luz (Lisboa)
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