Rumando ao RCA Club para ver Corpus Delicti, ocasionalmente penso nos estranhos tempos que vivemos; são poucos os concertos com este mistério, sem saber exatamente o que esperar. No plano geral da agenda de concertos em Portugal, só grandes nomes estabelecidos com algum cariz rock indicam alguma previsibilidade, seja em grandes produções de estádio ou festivais. Do outro lado do espectro, considero que os amantes das sonoridades mais alternativas têm poucas opções. Com isso em mente: foi com imensa curiosidade, embora não muito entusiasmo — uma estranha dicotomia, uma sensação de que este era um concerto sobre o qual, por alguma razão, valeria a pena escrever, valeria a pena assistir, um apelo invisível, chamemos-lhe assim, a estar presente e vivenciar a oportunidade de ver esta banda ao vivo. Os Corpus Delicti, embora eu seja um apreciador de sonoridades com baixo marcado ao estilo de The Cure e guitarras atmosféricas em tons maioritariamente menores, nunca estiveram no prato principal da minha mórbida refeição gótica. Talvez até por alguma desatenção devido ao facto de que, na primeira fase da vida da banda, nos anos 90, o género gothic rock sofreu uma desatenção ao nível de orçamentos de editoras e da imprensa, diga-se também, e nos primeiros 5 anos de vida da banda o seu sucesso comercial mundial foi reduzido ao estatuto de culto; e todos sabemos que dançar com entusiasmo um qualquer hit underground nesses anos numa qualquer festa gótica não significava sucesso suficiente para uma banda se manter em atividade. As coisas pioraram nos anos 2000 com o advento da internet e a substituição do mercado de formatos físicos por uma globalização do digital; contudo, também nos dias de hoje já existem, devido ao avanço da Internet e do digital, meios para que bandas assim retornem e, graças a essas canções de culto há muitos anos gravadas, possam, e ainda bem, demonstrar que continuam a ser uma força criativa, gravar novos discos e trazerem os seus concertos a essas almas penadas que há anos atrás dançavam os seus hits underground.
Embora não pela primeira vez em Portugal, mas sim pela primeira vez em Lisboa, como o vocalista Sébastien se corrigiu a ele próprio em palco, o público presente no RCA Club estava bem receptivo à prestação super competente do quarteto francês; o som estava bom e a banda, com uma prestação exemplar acompanhada de sorrisos largos, estava feliz por ter aqui, nesta noite, mais um concerto de sucesso numa cidade que nunca havia visitado nas suas digressões.
Ver os Corpus Delicti ao vivo foi, refletindo agora, uma experiência sensorial muito boa. Aos primeiros acordes de “Crash”, novidade do mais recente disco “Liminal”, vemos que o drama está lá todo: a bateria com os pratos e os timbalões a marcar o ritmo, o baixo marcado, as guitarras atmosféricas e a voz de Sébastien, frontman com uma voz característica e intocada pelo passar dos anos, estabeleceram o tom para o concerto que se desenrolaria ao longo de hora e meia. Não houve melhores canções do que outras; as canções mais antigas, como “Dusk of Hallows”, combinam perfeitamente com as mais recentes, como “Room 36” do mais recente disco “Liminal”. Foi uma estrutura muito equilibrada do princípio ao fim, entre novas canções e canções antigas; a homogeneidade sonora ao vivo é total. Não tive particularmente nenhuma canção que se demarcasse como favorita neste concerto, embora reconheça que, obviamente, mais para o fim do concerto, quando aparece “Saraband”, talvez seja o tema que têm sempre de tocar. Apercebo-me, ao escrever estas linhas e, ao mesmo tempo, ao revisitar a discografia antiga e a mais recente e moderna da banda, da razão por que efetivamente gostei bastante deste concerto. É a identidade sonora da banda que é uniforme, despretensiosa, honesta e direta ao que interessa; passados estes anos desde os anos 90, continuam a fazer o que sempre quiseram, música de que gostam, nada mudou. Tal é patente, por exemplo, no tema “This Sensation”, com aquele final simples e lindíssimo. A partir do momento em que se tem competência para isso, nada mais é preciso. “Dust and Fire”, tema épico, foi tocado enquanto vim ao exterior fumar um cigarro; para mal dos meus pecados, infelizmente ou felizmente já não estamos nos anos 90, em que as pessoas se podiam intoxicar à vontade com nicotina e fumo dentro de qualquer sala de espetáculos. A nostalgia invade-me neste momento, mas o que resta dizer? um concerto de que não esperava gostar tanto como gostei; banda em topo de forma, repetia a experiência sem qualquer reticência de novo. Saíram vencedores, pois as minhas mórbidas refeições góticas vão passar a incluir Corpus Delicti como prato principal com alguma regularidade.































































