Concertos Reportagens

Tame Impala, quando o Meo Arena se transforma em pista de dança

Por vezes sentimos que algo pode não resultar, que talvez seja diferente do que já vimos e que possamos não nos identificar com isso.
Sonhamos, às vezes, com os nossos ídolos moldados à ideia que temos deles e queremos que continuem a construir coisas que nos possam tocar, como quando os ouvimos e conhecemos.
Eventualmente, há que lutar contra pedaços de nós e tentar! tentar sempre até termos certezas. 

As únicas certezas que eu tinha era que não gostava do rumo dos novos discos de Tame Impala (The Slow Rush e Deadbeat) e que, apesar de não ser uma banda com uma longa carreira, o Innerspeaker entrou directo para a lista de discos da vida, acabando por ter um impacto grande em mim e nos meus ouvidos.
Por isso, estava com um sabor agri doce por ir a este concerto, tinha medo do que viria a acontecer. Mas o medo enfrenta-se e o que aconteceu foi uma noite surpreendente e inesquecível! 

Três anos seguidos de Tame Impala em festival (2014, 2015 e 2016) e outro em 2022, foram demasiadas vezes que os vi ao ar livre, sendo já merecido um regresso em nome próprio numa sala de espetáculos, no caso, o Meo Arena. E tão bem que ficam dentro de uma sala! 

Era domingo de páscoa, mas a missa deu-se no Meo Arena, num fim de tarde ensolarado e quente que nos remeteu tanto para o Lux, como para o Incógnito e, até, para alguma tenda do Boom. Mas pouco importava onde estávamos, os Tame Impala entraram e as pessoas que estavam sentadas levantaram-se em perfeita comunhão e dançámos todos com as almas de mão dada durante 2h20. 

Antes disso, abriram as hostes os londrinos RIP Magic, com meia hora de música electrónica com uma forte vertente de rock e experimentalismo que, tanto soava a um synth rock como a uns NIN versão aprendiz. 

© Tiago Cortez / Everything Is New

Lembram-se do momento em que que os The Smashing Pumpkins subiram ao palco do Optimus Alive’06 e mal o Billy Corgan começa a entoar de braços abertos “Today is the greatest day I’ve ever known” começa a chover? Os Tame Impala deram-me a magia de um momento idêntico ao entrar em palco e começar a cantar a “Apocalypse Dreams”. Na verdade, o que se sucedera após isso foi uma sequência de sonhos embrulhados em sons não apocalípticos mas bastante intensos. O palco era redondo e com contornos de sintetizadores de vários tamanhos e feitios.
Aos 4 que costumam acompanhar Kevin Parker, juntou-se mais um elemento, perfazendo o total de 6. Mas o palco não era só composto por sintetizadores. Havia cordas, bateria, percussão e teclas e toda uma panóplia de luzes, lasers, efeitos, rendilhados de cor, distorção de imagens e um ambiente bastante caleidoscópico.
Mas não é assim que conhecemos os Tame Impala? Psicadelismo moderno com um banho de electrónica.

O alinhamento foi bastante equilibrado e consistente. Apesar do foco na electrónica e no último disco que lançaram DeadBeat, tendo partilhado 9 faixas do mesmo, passaram por 2 faixas do Slow Rush, 8 faixas do Currents deixando espaço para o Lonerism e o Innerspeaker.
Uma pequena interrupção para assistência a alguém que se sentiu mal antes da “Breathe Deeper”, mostrando o lado humano que tão bem caracteriza Parker. Os batimentos cardíacos continuaram constantes até Kevin Parker sair do palco (com a banda a continuar a tocar) com uma câmara atrás de si, ir fazer xixi, lavar as mãos, ajeitar o cabelo e dirigir-se a um palco central com uma série de candeeiros, onde iríamos viver um momento ao estilo rave, com ele deitado a cantar, ou a mexer nos seus botões, parecendo que estava a vivenciar uma verdadeira trip do outro lado do mundo enquanto os nossos corações aceleravam firmemente.
De regresso ao palco principal, dá-se início ao beat da “Let it Happen” e o público fica eufórico. Perdi a conta às vezes em que dancei esta música no Incógnito e aquelas em que gritava a letra de olhos fechados. Não é a minha preferida deles, mas leva, genuinamente, qualquer dançante ao rubro.
Ainda do Currents, “Nags” de seguida, para depois nos oferecer um regresso aquele disco que está na minha lista de discos da vida, com “Alter-Ego” numa versão mais electrónica mas não menos boa.
Os ânimos acalmam um pouco no final do concerto com Parker sentado à beira do palco a cantar “Yes I’m Changing” acompanhado de um mar de luzes vindas do público e mais um par de músicas do Currents. 

O encore compôs-se de 3 músicas, terminado em modo rave novamente, com a energia da “End of The Summer”. Realmente foi uma bela forma de terminar, não tivesse mesmo acabado o verão pascal nesse dia e no dia a seguir ter voltado o inverno! 

Parker distribuiu elogios a Portugal e aos portugueses despedindo-se afirmando que foi tudo muito mágico e que estamos no seu coração, assina uma t-shirt a um rapaz do público e termina dizendo que a sua vida é uma loucura e que sempre que as pessoas cantam as suas canções se sente muito agradecido.
Nós também sentimos, por estas 2h20 de pura dança, fosse em modo psych, em modo rave ou em modo disco.

O público, muito jovem na sua maioria, esboçava sorrisos e uma leveza única e brilhante, revelando que valeu a espera por estes senhores em nome próprio, tal como valeu cada cêntimo do preço dos bilhetes.  Que não tarde um regresso a uma sala de Portugal! 

© Tiago Cortez / Everything Is New