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Krushers of the World European Tour 2026: Kreator encabeçam noite com Carcass, Exodus e NAILS no MEO Arena

Debaixo de chuva intensa e persistente, acompanhada por um frio expectável, poderia parecer que a primeira data de uma digressão europeia não desse o pontapé de saída perfeito independentemente da cidade de partida, pois, numa época em que existe mais oferta do que procura de música, o futuro comercial desta é incerto. No entanto, a procura por música cresceu, porque claro que cresceu — quando a população mundial cresce, toda e qualquer procura cresce com ela. É preciso atentar a números. Só este ano, foram lançadas mais de 100 000 músicas por dia em todas as plataformas de streaming. Se fizermos uma pausa para tentar encapsular este número num período temporal, seriam necessários, em média, sete meses a ouvir música durante 24 horas por dia para conseguir “acompanhar” essa produção diária.

Claro que estamos a simplificar demasiado, pois não só não nos interessa ouvir tudo, como ainda temos tudo o mais com que nos importar em relação à nossa vida. Ainda assim, e se quisermos incidir apenas no heavy metal, e de forma muito conservadora, são lançadas, pelo menos, 1000 músicas por dia nessas plataformas. Em média, necessitaríamos de 4500 minutos para ouvir essas músicas. Ininterrupta e diariamente. Traduzido, por cada um dia de novas músicas de heavy metal lançadas nas plataformas de streaming, necessitaríamos de três dias para as ouvir, o que é literalmente impossível. Pior do que isso é que, embora seja cada vez mais fácil lançar música, coisa que qualquer novato faz em casa com um computador e os programas certos, é cada vez mais difícil ser ouvido. Isto no éter, portanto. Ao vivo, as coisas mudam drasticamente.

Cada vez mais, os concertos e festivais continuam a bater recordes de receitas, o que indica que a procura é crescente. No entanto, falamos de eventos e de artistas bastante específicos, de nomes cuja importância seja indissociável de momentos que marcaram a música de uma forma ou de outra. Isto é o exemplo perfeito para explicar a romaria de milhares de fãs que se deslocaram à MEO Arena para ver a primeira data da digressão europeia Krushers of the World Euroean Tour 2026, um cartaz de luxo com três das bandas mais importantes de sempre no seu devido estilo e geografia. Claro que, com NAILS a abrir as hostilidades, qualquer fã de metal extremo sentir-se-ia quase obrigado a comparecer. No entanto, esse mesmo público já teve oportunidade de ver essas mesmas três bandas principais incontáveis vezes em Portugal. Só os cabeças de cartaz Kreator já nos visitaram 15(!) vezes. A repetição faz parte da condição humana, é um pulsar a que recorremos constante e inconscientemente porque nos causa conforto, logo, se em vez de 15 os alemães cá tivessem actuado 50 vezes, a afluência seria praticamente igual. Que é como quem diz uma MEO Arena praticamente esgotada.

Os NAILS entraram em palco com algum atraso e sem pedirem licença. Com uma formação nova com excepção de Todd Jones, o eterno sr. NAILS, os californianos lançaram-se directamente ao pescoço com “Suffering Soul”. Em vez de aquecer o público, Todd e companhia preferiram lançar dardo atrás de dardo de gelo sujo e repleto de detritos. “Lacking the Ability to Process Empathy” e “Conform” foram executadas em rápida sucessão, sem pausas, e é nestes instantes que valorizamos o som cru e espesso da banda. Não sabemos bem se lhes chamamos punk, se hardcore, se grindcore, se death metal. Não sabemos, de facto. O termo “terror punk” soa-nos bem, ainda que ignoremos se já foi cunhado por alguém. O público ainda se encontrava meio a leste, meio a estibordo: enquanto uns aproveitavam para beber e conversar, outros observavam o concerto. Mas também houve quem desse um pé de dança ao som dos NAILS; maioritariamente, público mais novo.

Com “Scum Will Rise” os norte-americanos fizeram virar mais cabeças na sua direcção, mas aquando de “God’s Cold Hands” a banda sofreu problemas técnicos com o PA. A energia era tanta que, não fosse o público a assinalar a falha e a tentar chamar a atenção da banda, esta só mais tarde se aperceberia. Se até ali pouca interacção verbal tinha havido com o público, a banda redimiu-se agradecendo aos fãs portugueses pela camaradagem. O pior do concerto, porém, não foi esse, mas, sim, os miseráveis 30 minutos que a banda tocou. Soube a pouco e o público queixou-se disso. Os NAILS cativam exactamente porque esbanjam agressividade orgânica, sem artifícios — são 4 gajos, os seus instrumentos e uma psicose qualquer que faz com que pareçam lobos raivosos. Desejamos-lhes muita saudinha, apenas não mental.

  • 20260320 - Nails @ Sala Tejo
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Com o público já enregelado, foi a vez dos Exodus subirem ao palco com a típica recepção entusiástica. Uma das particularidades da actuação foi Rob Dukes, o substituto do lendário Steve Souza. Ainda que Dukes já tivesse sido membro dos Exodus, substituir um dos vocalistas mais lendários da história do metal não é nota de rodapé, e isso sentiu-se. Dukes não foi péssimo, até porque seria injusto tecer comparações entre ele e Zetro, mas não foi, de facto, o vocalista mais espantoso dos Exodus. Em boa verdade, talvez seja o menos espantoso, mas o espectáculo não pode parar e recaiu em Dukes a escolha de Gary Holt (que também está de regresso a tempo inteiro aos Exodus) e restante banda, o que é algo que merece ser respeitado.

Um dos principais motivos pelos quais vale a pena assistir à primeira data de uma digressão é podermos apreciar ao vivo, pela primeira vez, como funciona a dinâmica de uma banda quando são introduzidos temas novos no set habitual. Foi o caso da inicial “3111”, que ditou o andamento da actuação como “rápido”. Afinal, os Exodus tinham pouco mais de 45 minutos para demonstrarem o novo disco ao vivo, coisa que fizeram sem dificuldade, mas também sem grande emoção. Pela oitava vez em Portugal, o público sabe de cor os temas clássicos que a banda toca sempre. “A Lesson in Violence” e a final “Strike of the Beast” animaram um pouco mais uma actuação morna, sem sal, que se comeu por não haver mais nada. Não queremos ser injustos, até porque os Exodus merecem mais, mas, das várias vezes que os vimos (e já os vimos com Zetro, Baloff e agora Dukes), esta foi certamente a mais fraca.

  • 20260320 - Exodus @ Sala Tejo
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  • 20260320 - Exodus @ Sala Tejo
  • 20260320 - Exodus @ Sala Tejo
  • 20260320 - Exodus @ Sala Tejo

A sofisticação lá acabou por pisar o palco quando os Carcass, que também já nos visitaram nove vezes, deram os primeiros sinais de brutalidade e precisão técnica com os primeiros acordes de “The Living Dead at the Manchester Morgue”. “Buried Dreams”, um dos temas maiores dos fab four, foi o mote de partida para a actuação  mais agressiva da noite, seguida da clássica “Incarnated Solvent Abuse”, do visceral “Necroticism – Descanting the Insalubrious”, e “No Love Lost”, que serve para marcar uma mudança de tempo já habitual e que evidencia a plena maturidade da banda. A camisa branca de Jeff Walker fez-nos pensar o que é teria sido do metal extremo em geral se este gajo tivesse optado por um trabalho num escritório das 9 às 17?. Felizmente, nunca saberemos.

Embora o público estivesse menos activo do que durante o concerto dos Exodus, foi clara a quantidade de gente que estava a apreciar o desempenho e a postura dos scousers. “Carnal Forge” e “Genital Grinder” serviram como ligação entre as diferentes fases da carreira da banda, mas é claro que os clássicos “Exhume to Consume” e “Corporal Jigsore Quandary” reforçaram a primitividade e a complexidade, respectivamente, de uma banda que deu o pontapé de saída em 4 géneros distintos. O encerramento com “Heartwork” é prova de que em equipa vencedora não se mexe. Dizer o quê? Jeff Walker e Bill Steer não só não se comprometem, como sabem o que fazer para levantar a bandeira dos Carcass de cabeça bem erguida. Os ingleses sempre primaram por uma postura de imenso respeito pela banda, tanto que chegaram a acabar para não macular o nome dela, logo, sabemos que qualquer concerto será sempre especial.

  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
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  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
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  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
  • 20260320 - Carcass @ Sala Tejo
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A responsabilidade de encerrar a III.ª Guerra Mundial ficou nas mãos dos kaisers Kreator. Como com os Exodus, os alemães estrearam mundialmente “Seven Serpents” com uma presença imponente, dominando completamente o palco. É claro que certas bandas devem ser ouvidas e aplaudidas, mas, no caso dos alemães, há ali qualquer coisa mais. Há um baterista como Ventor, que tem o seu estilo de tocar muito próprio e aberturas como as de “Blind Faith” ou “Terrible Certainty”, assim como há a voz e os riffs inconfundíveis de Mille Petrozza, o sr. Kreator, o sr. Thrash alemão. A chegada de Frederic Leclerq em substituição de Christian Giesler também deu que falar pelos motivos óbvios e, claro, há a aura imortal de malhas como “Extreme Agression”, “Coma of Souls” e “Renewal”, “Terrorzone”, entre dezenas de outras.

“Hail to the Hordes” e “Enemy of God” foram recebidas com enorme entusiasmo, com o público a acompanhar cada refrão, principalmente na segunda. Cremos que o público se guardou para a lição dos alemães, pois depressa vieram os circle pits e a wall of death. “People of the Lie” reafirmou o estatuto de clássico da banda com um thrash metal mais directo e incisivo, bem como com um público português que chegou a abafar a banda de cada vez que repetiu o refrão. Essa música foi o rastilho para “Betrayer”, outro standard, seguido da novidade “Krushers of the World”, basicamente o hino da digressão. Na fase final, a banda ligou o gerador auxiliar e descarregou todas as suas munições com “Phantom Antichrist”, “Endless Pain”, “Violent Revolution” e “Pleasure to Kill”. Nem nos apercebemos da ausência de “Tormentor”, o único resquício de death/black metal em que os alemães sempre insistiram honrar desde os primeiros tempos.

  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
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  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
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  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo
  • 20260320 - Kreator @ Sala Tejo

Mais do que apenas quatro atuações, a primeira data da Krushers of the World European Tour 2026 foi uma celebração do metal em várias das suas vertentes com o bónus de ouvir as músicas novas em primeira-mão. Além disso, cada banda trouxe algo de distinto: a agressividade primária dos NAILS, a tradição dos Exodus, a complexidade e o gutural mais explícito dos Carcass e a grandiosidade dos Kreator. Sim, já as vimos incontáveis vezes e, sim, não nos fartamos, até porque sabemos que o resultado será sempre superior. Regressando ao início, a repetição é uma zona de conforto que não podemos criticar, principalmente quando, muitas vezes, nós próprios optamos por nos manter dentro dela. Ainda que sem conforto atmosférico, nesta noite, o metal não só resistiu às intempéries exteriores, como prosperou com elas no interior da MEO Arena.