Estávamos no início dos anos 1990, com o grunge de Seattle a protagonizar a cena musical e com as bandas da margem a sul do Tejo a emergirem do mais puro rock’n’roll. Os ritmos sonoros dos Primitive Reason foram, na altura, uma espécie de contracorrente do que subia aos palcos das escassas salas de concertos existentes. Em 1993, Guillermo de Llera (baixo e voz), Jorge Felizardo (bateria) e Brian Jackson (voz principal), juntaram as suas diferentes proveniências geográficas (Espanha, Portugal e Inglaterra) e começaram a compor umas ‘cenas’ que não as conseguiam encaixar em nenhum dos estilos mais convencionais da época. A mescla de ritmos numa mesma composição, baralhou um pouco as cabeças da malta que estava na indústria discográfica, e por essa razão, as portas das editoras não se escancararam facilmente para a edição daquele que iria ser um dos melhores álbuns década e uma das músicas mais ouvidas de sempre “Seven Fingered Friend”.
Depois do lançamento do primeiro álbum, ‘Alternative Prison’ em 1996 (pela editora União Lisboa, que também editou na época discos dos Madredeus e dos Resistência) a miscelânea de ritmos, como sky, rap, punk, reggae e hardcore, fizeram as graças do público que se ia adensando em cada atuação. Os festivais de verão integraram a agenda, e (ainda) sem grandes compromissos profissionais foram cativando audiências fora de Portugal, como Espanha e EUA.
Ainda durante a primeira década do século XXI (anos 2000), os Primitive Reason continuaram a dar cartas, em 2003 foram nomeados para Melhor Banda Portuguesa nos MTV Music Awards, com o álbum “Firescroll”.
Apesar das muitas entradas e saídas de diferentes músicos a banda foi aparecendo em palco, tendo lançando o sexto e último álbum em 2013, “Power to the People”. Em 2019 a formação original reuniu-se num único concerto em Cascais e depois dessa data, pouco ou nada soubemos dos Primitive Reason.
E eis que em 2026 decidem celebrar os trinta anos do seu primeiro e, para muitos, o seu melhor álbum ‘Alternative Prison’. Se a ideia desta comemoração era também a de juntar várias gerações, este foi um feito conseguido. A geração dos ‘entas’ estava lá toda e muitos fizeram-se acompanhar pela geração Z (os filhos portanto).
Passava pouco das 22h quando a imagem gráfica da tenda de circo foi projetada no palco do Lisboa ao Vivo, envolvendo os cinco fundadores da banda, Brian Jackson, Guillermo de Llera e Jorge Felizardo, Mark Cain e Abel Beja. Na sobriedade das vestes pretas e no charme que a idade lhes trouxe, deliciaram as centenas de pessoas que esgotaram a sala da Marechal Gomes da Costa. Quase duas horas numa rotura explosiva, onde o mosh se tornou um cenário permanente em praticamente todos os temas.
Logo no arranque suave de ‘Bobo Grey’, onde o saxofone (Mark Cain) se posiciona em quase toda a música, já se sentia um público primitivo, sedento dos ritmos enérgicos e contagiantes dos Primitive Reason. Enquanto as luzes intercalavam entre o vermelho e o verde projetados no circo, já a voz grave e limpa de Guillermo De Llera marcava o ritmo de ‘The Mind (Nature and Nurture)’ e as nossas pernas já fletiam sozinhas a acompanhar a bateria (Jorge Felizardo) e a guitarra (Abel Beja).
“Como é que está tudo aí pessoal?” Mas já nem houve tempo para responder, ‘So you Say’, numa música falada na aceleração de rapper, a incentivar uma chuva de cerveja que jorrava dos copos que não resistiram aos muitos saltos de uma amálgama de gente em êxtase. ‘Obsession’, num hardcore a romper as cordas vocais de Brian Jackson, num sobe e desce de ritmos a fazer o gosto do mosh que a esta altura já se intensificava e alargava o círculo central. A diversidade de ritmos é a pérola angular desta banda, em que no mesmo tema a voz de Brian é apurada e quase que aveludada, e no minuto seguinte se torna metálica e potente. A esta altura já Abel Beja estava em tronco nu, pois o calor dos corpos vibrantes já se fazia sentir em todo a sala.
‘Kill the KKK’, ‘Yellow Submarine’ dos Beatles com arranjos tão apropriados ao ritmo ímpar dos Primitive Reason que podia bem passar por um original seu. Já a caminhar para o fim com dois de rajada para tirar o folego e dançar como se não houvesse amanhã, ‘Hipócrita’ (um dos temas mais conheidos da banda) e ‘Devil in June’. Uma breve pausa seguida de quase mais uma mão cheia de temas (encore), onde o hit ‘Seven Fingered Friend’ arrebentou com o resto da energia que ainda sobrava no público. Mesmo já no final o baterista largou as baquetas e juntou-se ao mosh.
Tem se verificado com maior frequência nos últimos anos, o regresso quase inesperado de bandas que praticamente já se extinguiram ou deixaram de se ouvir falar. Os concertos destas comemorações nem sempre correspondem às nossas expectativas, mas os Primitive Reason excederam-nas todas e isso refletiu-se no rosto das pessoas que iam saindo da sala em suor de felicidade.
Dar nota ainda que, como bandas convidadas dos Primitive Reason, atuaram na primeira parte os portugueses Bad Tomato (punk) e os Hetta (hardcore).
BAD TOMATO
HETTA























































































































































































