Na noite em que os The Divine Comedy regressaram à Aula Magna, o ambiente não era o de um concerto tradicional, mas mais próximo de uma reunião de amigos — daquelas noites em que alguém pega numa guitarra, começa a cantar e, de repente, todos percebem que estão a viver um momento especial e agradável. Neste caso, porém, o amigo em questão foi Neil Hannon e a sala estava completamente esgotada pelos seus amigos. No exterior, já no final do concerto, falámos com Mark e Fionna, um casal de fãs anglófonos que anda a acompanhar os The Divine Comedy por toda a Europa. «Chegámos hoje a Lisboa e já estamos de regresso ao aeroporto para os ir ver a França!”» — anunciou uma sorridente Fionna, felicíssima com o concerto a que acabara de assistir. Mark não partilhava da euforia da sua companheira, contudo. «O começo do concerto apostou no novo disco e isso não foi muito agradável, foi demasiado melancólico e soturno, mas mais ou menos a meio vieram os hits e, daí em diante, foi um óptimo concerto.» — referiu.
Não vimos uma única pessoa que nos parecesse estar na “casa dos 30”, o que indica claramente o público-alvo dos norte-irlandeses. Embora a carreira dos The Divine Comedy fosse firmada nos anos 1990, o coletivo liderado por Hannon (mentor do grupo desde o primeiro dia e único membro original) não se furta a escrever sobre assuntos modernos, como verificámos a partir de “Mar-a-Lago by the Sea”, um pontapé nas canelas de alguns, mas, também, um grito de coragem na visão de outros. Os primeiros versos fizeram-nos perceber que o público lisboeta não estava ali apenas por curiosidade, mas por devoção. A cada música ao longo do concerto, houve muitos aplausos entusiasmados e, em determinada altura, uma sala inteira levantada a cantar, dançar, bater palmas e, em suma, a divertir-se. Porque foi para isto que elas vieram! A partir daí, o concerto desenrolou-se como um encontro de velhos conhecidos. “Our Mutual Friend” trouxe uma mudança subtil de humor e um tom ainda mais personalizado. Hannon sempre teve essa qualidade rara — parece estar sempre a cantar para cada pessoa na sala, individualmente, mesmo quando tem dezenas imediatamente à frente.
“I Want You” e “Bad Ambassador” acrescentaram alguma energia a um alinhamento inicialmente lento. A banda estava afinadíssima, pese o facto de o “maestro” estar constantemente a consumir líquidos que, dizemos nós sem querermos ser más-línguas, eram tudo menos água ou sumo. O público respondeu de imediato a ambas e foi curioso verificar em diversos momentos ao longo da actuação que houve pessoas a levantar-se espontaneamente das cadeiras — algo relativamente alienígena na Aula Magna — e começaram a dançar onde quer que pudessem. Não só isso como quase que os aplausos se tornaram parte da instrumentação — foram mais comuns no final de cada música, claro, mas houve aplausos em diversos momentos distintos de diversas canções e isto é prova inequívoca de fidelidade. Pela altura de “I Like”, a sala já estava completamente rendida. Um dos maiores factores desse sucesso foi a interacção de Hannon com o público, que não só foi constante como, também, muito sincera. Uma fã mais afoita, mesmo à sua frente, chegou a unir a sua mão à do cantor e, durante alguns segundos, ali estiveram, de mãos dadas, balouçantes, para acabarem o movimento a apontarem um para o outro. Mais tarde, o britânico perguntou à mesma fã como se dizia “Sit down!” em português, o que revelou ser mais um bom momento de cumplicidade entre banda e público.
Hannon e a fã trocaram palavras rápidas que arrancaram gargalhadas à audiência e seguiu-se “The Heart Is a Lonely Hunter”, que ofereceu um dos primeiros momentos verdadeiramente nostálgicos da noite. A interpretação foi sentida e elegante, o que levou a plateia a responder com um silêncio raro e um aplauso demorado em forma de agradecimento. “Other People” e “Absent Friends” ajudaram a enfatizar o tema anterior. Depois de o “amigo” deixar a guitarra, parecia agora dedicar-se a contar histórias ao resto do grupo, sempre entre copos e mais copos numa noite muito longa. Afinal, o que é uma reunião de velhos amigos se não isto? Acrescentemos o facto de que a última vez que este encontro se deu foi há 4 anos e entendemos bem a expectativa de parte a parte. Nesse instante, os metais e as cordas de “Becoming More Like Alfie” mandaram choques eléctricos aos presentes, como que a convidar o tempo a regressar à década de 90 do século passado, não fosse esse tema um dos hinos da nossa Geração X… perdão, da nossa “Generation Sex”, reminiscente da última década de 70 e um dos momentos mais importantes de “Fin De Siècle”, talvez o último disco realmente marcante do colectivo, ou talvez o mais importante da sua vasta discografia.
Quando começaram os primeiros acordes do clássico dos clássicos “National Express”, também ele de “Fin De Siècle” e que encerrou o alinhamento principal antes do encore, a sala voltou a levantar-se em massa. Ficar sentado seria sinal de desrespeito ou puro desconhecimento da música e da banda em causa. “Take the National express, when your life is a mess” encheu as bocas dos presentes, que regressaram ainda mais fortes ao inimitável refrão “papapapaparapapa, papapapaparapapa, papapapaparapapa, papapapaparapapa”. Nesse momento, olhámos ao nosso redor e vimos 360 graus de pessoas em pé, rendidas ao que foi, muito provavelmente, o melhor concerto que viram este ano. E, provavelmente, ao melhor que nós vimos este ano também. No encore, os presentes já sabiam bem as músicas que ainda faltava tocar: “Songs of Love”, “Invisible Thread” e “Tonight We Fly”. Para não variar, Hannon e companhia despediram-se efusivamente e, esperamos nós, a noite tinha acabado de começar para a grande maioria do público, mesmo sendo domingo à noite.
A melhor forma de descrever este concerto dos The Divine Comedy não passa por um espectáculo grandioso ou uma produção extravagante — muito pelo contrário, foi um dos concertos mais simples e despidos de artificialismo que vimos nos últimos anos —, mas, sim, como o já referido encontro raro entre pessoas que gostam genuinamente umas das outras e das mesmas canções. Quando o público começou a sair, ouvimos pessoas a ecoar baixinho trechos de algumas das músicas que ouviram neste evento. Muito provavelmente, momentos especiais distintos para cada uma delas. A música foi quem mais ganhou com este encontro feliz e Neil Hannon foi o tal amigo talentoso que dá uns toques na guitarra e transforma uma noite normal numa memória de longa duração. Ainda estamos para perceber como é que duas horas passam assim, tão rapidamente.































































