Ainda a convalescer da pluviosidade que bombardeou Portugal nas 3 semanas que antecederam o espetáculo, a sala principal da Casa da Música encheu bastante cedo para receber Diamanda Galás. A heterogeneidade presente no foyer e no bar da Casa da Música, que contava com músicos, escritores, alguns curiosos, outros fãs devotos de longa data e gente mais nova que talvez só conhecesse a artista de nome, servia, de certo modo, de cartão de apresentação para os mais incautos. Depois, os tribalismos também se faziam sentir, do gótico ao metaleiro, do melómano ao fã da música experimental, passando sempre pelo jazz man do conservatório, e, claro, pelo ouvinte casual que decidiu ir conhecer ao vivo o trabalho da norte-americana. Pela sexta vez em Portugal, talvez a última, sentimos no ar uma expectativa clara. Galás não só não reúne consensos, como não facilita — antes de mais, é importante ouvi-la atentamente, caso contrário, nunca se perceberá, pois ficará a faltar a parte mais importante da exibição. Há o piano, claro, mas esse tem muito menos importância do que a voz da compositora. Por outras palavras, quem se apresentou na Casa da Música sabia que não iria para ouvir alguém tocar Bach.

Uns minutos após as 21, já com luzes apagadas, o silêncio, imediato e efémero, foi repentinamente quebrado pela entrada da artista em palco. Não houve introduções nem discursos. Galás entrou, cumprimentou discretamente o público que a aplaudiu efusivamente e sentou-se ao piano. Com a naturalidade e experiência de quem sabe exatamente o que vem fazer, deu início a “El Cómplice”. A primeira impressão foi a qualidade do som. A acústica da sala Suggia confirmou a reputação da Casa da Música: equilíbrio, nitidez, profundidade. A voz projetava-se com clareza impressionante, embora tão afiada que parecia que queria cortar o vácuo. Logicamente, não houve espaço para distorção ou amplificação — o piano, muito robusto, foi quanto chegasse para o que se seguiu. Um concerto de Diamanda Galás respira dinâmica, como provaram as variações súbitas de intensidade e as mudanças muito bruscas de registo. O público percebeu isso desde cedo e manteve-se concentrado. Coisa rara, nesta sala. A interpretação contida e carregada de intenção e emoção fizeram-nos equacionar que todo o trabalho que vemos por trás de uma apresentação ao vivo de Galás é extenso e profundo. Em vez de dramatização excessiva, houve precisão. Foi um início forte, mas não explosivo, que acabou por funcionar como uma introdução ao tom da noite.
Em “Pictures From Life’s Other Side”, um original de Hank Williams, Galás afastou-se da tradição periférica country e apresentou uma leitura mais lenta e introspetiva. O que na versão original é melancolia rural transformou-se numa reflexão quase existencial, como se o gótico americano tivesse chegado e se tivesse sentado no chão para assistir ao concerto, esgotada que estava a sala. A articulação das palavras, clara, quase didática, como se a artista quisesse garantir que as entenderíamos integralmente, esteve presente. A interpretação foi crescendo em intensidade e a sala respondeu com um silêncio fúnebre. No final, o aplauso foi prolongado, mas sem exagero (algo que se verificou no final, como sempre). Depois de “Nausée”, seguiu-se “I’m a Coward”. Se não é mentira que o tema original é quase uma confissão, a soprano imprimiu uma natureza mais crítica à interpretação. A determinada altura ou de um, ou de outro tema presenciámos o que foi, para nós, o momento maior da noite, uma coisa rara por o interveniente ser mais o piano do que a pianista — de forma muito delicada, vimos, primeiro, uma aranha deslizar as suas 5 esguias patas em direcção aos acidentes, aos bemóis e sustenidos do teclado, seguida de outra aranha de igual porte, que acompanhou a primeira em staccattos folclóricos, curtos e obsessivos, a lembrar música klezmer, e foi nesse instante e com esses jogo de mãos que sentimos a presença de Shostakovich na sala. A cantora admitiu, várias vezes ao longo dos anos, a influência do genocídio na sua obra; este instante do que nos pareceu uma alusão à danse macabre do compositor russo foi o coroar das 3 datas que a musa interpretou em Portugal no mês passado.

A evidente experiência de palco da artista notou-se em determinados pormenores. Cada gesto era mínimo, mas eficaz, sem movimentos desnecessários, sempre com a expressividade concentrada na voz da cantora. Ao longo do concerto, Galás entrou calada e saiu muda, mas deu uma palestra com a sua música. A ausência de distrações permitiu que a nossa atenção se mantivesse focada no essencial, na interpretação e no som. Como referimos acima, a Casa da Música mostrou-se o espaço ideal para esse formato; julgamos que nenhum outro reúna as condições sonoras e as estéticas para complementar as primeiras. A reverberação natural da sala elevou em particular os momentos mais suaves, em que a voz quase parecia suspensa no ar antes de se dissipar, com lugar a alguns ecos, embora raros e quase inaudíveis. Gostaríamos de poder dizer que o outro grande momento da noite foi a alternância fluida entre os graves e os agudos de Galás, mas isso é a assinatura dela, logo, achámos que essa alternância foi apenas natural. A técnica vocal continua impressionante e sabemos perfeitamente que nenhum artista experimental no mundo tem uma coloratura tão dinâmica (e por vezes aflitiva para os ouvidos) como a de Diamanda. Em passagens mais dramáticas, ouvimos aspereza controlada, embora nem sempre afinada esta noite, mas que, ainda assim, foi plenamente positiva e contribuiu para a sensação de coerência geral do concerto.

O alinhamento foi construído de forma progressiva e só alternou nalguns temas em relação aos concertos em Lisboa e Braga. No encore, a artista regressou ao palco após um aplauso prolongado. “Let My People Go” e “Gloomy Sunday” foram os temas escolhidos para terminar aquilo que sentimos que foi uma noite e uma actuação bastante curtas. O resumo do espetáculo assenta em dois alicerces primários: qualidade sonora e coerência artística. Não foi um espetáculo de efeitos visuais nem de concessões fáceis, não estivéssemos a falar de Diamanda Galás, mas que incidiu na interpretação, nos temas escolhidos (que revelaram uma compreensão profunda da importância do repertório certo) e na técnica. A sala esteve à altura, como sempre, e ofereceu as condições acústicas imprescindíveis para que o recital pudesse respirar com facilidade. Continuamos a pensar que este possa ter sido o último espetáculo de Diamanda Galás em Portugal e esperamos estar completa e inequivocamente enganados.
*Vim, Vi, Ouvi



