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Deb Googe, sons quotidianos para além do ruído dos dias

Na passada quinta feira à noite, a sala da Galeria Zé dos Bois encheu para receber Deb Googe, noutras vidas baixista e pedra basilar de My Bloody Valentine, Snowpony ou Thurstoon Moore Group, que agora se reinventa em palco com da Googie, e passa por Lisboa e Porto no intuito de dar a conhecer ao vivo esta nova vida que inclui já um EP lançado no final de dia 2023 e uma nova música chamada “Kiss me you Fool” disponível no dia imediatamente antes, 14 de Fevereiro.

A noite começou com o aquário quase cheio e abriu com a apresentação de Ruínna e Fidel Castro Companhia de Samba, dois artistas multidisciplanares que  durante meia hora levaram a cabo uma experiência sonora. Movidos não sei porque ideia, a mim foi a curiosidade que ali me manteve, a verdade é que a maioria dos presentes não arredou pé. Do que ali se passou, desconhecendo eu a história ou fio condutor desta colaboração, posso apenas dizer ao que poderia comparar o que ouvi.

A experiência sonora a que nos expuseram poderia comparar-se a uma amalgama de sons que se distorceu ou corrompeu. Como se tivéssemos colocado numa “caixa” todas as músicas do mundo como o conhecemos e as enviássemos pelo espaço numa viagem de milhões de anos-luz. Se esse invólucro tivesse permitido que estas músicas de alguma forma se misturassem e no outro lado do universo, alguma forma de vida as tentasse reproduzir, reconheceria alguma coisa? Ou apenas nós que em algum momento a elas fomos expostos o poderíamos fazer? Não obstante o meu desconhecimento factual do que ali se passou, foi possível perceber que não fui a única nessa situação, recebida numa amalgama de sons sem contexto, consigo facilmente perceber a perplexidade de uns e outros.

Após uma breve interrupção para alterar o cenário, Deb Googe foi recebida em palco com uma sonora ovação e apresentou-se serenamente informando que vinha até nós para apresentar as suas peças, pois aparentemente não considera que sejam propriamente canções. No palco despido de grandes cerimónias ou tudo o mais temos uma projeção em pano de fundo, o microfone e debaixo do mesmo toda a parafernália de pedais e botões prontos a usar. Deb Googe lança-se numa autêntica viagem por loops e sons recolhidos e manipulados criando toda uma série de texturas sobre as quais viaja com o seu baixo, adicionando ainda mais camadas e criando peças que parecem nascer no improviso, mas sobre as quais se denota um trabalho verdadeiramente pensado ao segundo e ao pormenor.

Aqui e ali espicaçou a audiência dizendo que algumas coisas poderiam relembrar temas do passado, mas na verdade o passado não parecia ter lugar naquela sala. Deb Googe manifestou-se verdadeiramente feliz pelo público que a acolheu com tanto entusiasmo, fazendo nota de que lhe pareciam todos muito jovens e felizes. E estavam de facto felizes porque esta nova vida que Deb Googe enceta com da Googie será certamente prolífica como as anteriores foram e este público apenas quer que a tragam mais vezes de volta a palcos perto de nós.