Estamos em 2017 e eu ouço falar nesta banda brasileira chamada O Terno que iria actuar brevemente no Musicbox. E lá estava eu, e talvez muitos de vós, a conhecer uma banda pela qual foi tão fácil ganhar carinho pela simplicidade, cumplicidade e boa energia. Ao mesmo tempo, Tim Bernardes, um dos membros da banda, lança o seu primeiro disco a solo “Recomeçar”. Avançamos para o presente, 1 de Fevereiro de 2024, e Tim Bernardes enche duas datas no Coliseu de Lisboa para nos brindar novamente com o seu último disco “Mil Coisas Invisíveis”, mas também com temas do disco anterior, algumas de O Terno, canções que escreveu para outros artistas e ainda uma cover de Bob Dylan. 

As luzes baixam, e com uma voz vibrante, com um laivo de timidez, mas ousada, Tim Bernardes abre a noite com o primeiro tema do seu mais recente álbum Nascer, Viver, Morrer. E logo aqui percebemos porque é que Tim Bernardes enche o coliseu de forma tão fácil – os seus discos são belos, mas o poder da sua voz, da sua presença, e do seu sorriso tão genuíno, conquista-nos facilmente. A partir daquele momento, as nossas emoções já não são bem nossas, mas antes um reflexo da narrativa que Tim Bernardes nos traz com as suas canções. 

Esta viagem – com referências a Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, entre outros – torna-se muito pessoal à medida que vamos de canção em canção, ora ao som de uma das suas guitarras, ora ao som do piano. É impossível não sorrir, ou até não largar uma lágrima aqui e ali, quando Tim Bernardes projecta a sua voz em canções como Realmente Lindo ou Velha Amiga. Quando Tim Bernardes referiu a sua admiração pelo Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, referindo que ele próprio sentia que era ele que estava ali naquelas páginas, há um momento de compreensão silencioso sobre o processo criativo e de onde vem parte da alquimia da escrita das suas canções.

Chega a vez de Melhor do Que Parece, do reportório de O Terno, e a reação do público foi de reconhecimento e carinho pela banda do cantor. Não foi raro ao longo do concerto ouvir ecos e o público a cantar com Tim Bernardes, mas o que me admirou mais, porque obviamente era um público entusiasta e conhecedor, foi o respeito pelo silêncio e pela solenidade da maior parte das canções. A sequência das canções Última Vez e até Esse Ar (uma canção sobre a lua!) trouxe um momento mais solene, apropriado para potenciais corações partidos em recuperação. 

O que mais me fascina no Tim Bernardes, é que ele é muito mais do que um cantor de canções românticas – ele vai ao âmago dos caminhos intrincados do nosso crescimento num mundo em constante mudança, expondo uma vulnerabilidade que todos sentimos e poucos conseguimos expressar. A sua humildade e o seu sorriso radiante, dão esperança a quem tem o privilégio de se sentar e partilhar estes momentos íntimos que é expor os seus pensamentos numa das salas mais emblemáticas de Portugal. Em cada interação entre Tim e o público houve uma troca de carinho muito grande, com o músico brasileiro a expressar a sua gratidão por estar ali, após ter passado também pelo Porto. 

O fim do concerto aproxima-se com o início d’A Balada de Tim Bernardes, uma canção que nos lembra que mesmo no meio de desafios, porque não cantar? Termina com Recomeçar, do seu primeiro disco a solo, fechando uma viagem que foi uma espécie de psicoterapia musical, em que Tim deu voz e som a um espectro de emoções, equilibrando entre o humor e a genuinidade de quem se expõe. Foi uma noite muito bonita e não tenho dúvidas de que Tim Bernardes irá voltar a encher o Coliseu no futuro.

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