Uma das coisas que poderia dizer acerca do fascínio que a música que dá e, talvez, fonte de todo o amor que nutro por ela é sem a menor dúvida a partilha que lhe está associada. A partilha de energia entre uma banda, a partilha de energia entre uma banda/artista e o ouvinte, a partilha de sensações e formas de sentir através da música e, algo fundamental, a partilha entre eu e tu, entre eu e os meus amigos, entre os meus amigos e eu e entre os radialistas e os seus ouvintes. 

Acima de tudo a partilha é indissociável da música seja ela boa ou má, bonita ou feia e é pela partilha que ela chega até nós e que a podemos sentir.
Há um programa que partilha aquele canto mais íntimo da nossa alma em forma de música e nos aconchega o coração através da melancolia. A melancolia, essa palavra que parece tão grosseira mas que é tão bela e nos faz arrepiar e, talvez, repousar no conforto do nosso interior que, mesmo que as pessoas não saibam, nos proporciona a melhor companhia de todas. Falo do
Vidro Azul que chega até nós pela telefonia ou, nesta era, pela internet todos os Domingos às 23h, com repetição às quartas-feiras às 20h, na sbsr.fm, na RUC e em mais estações. 

O Vidro Azul é da autoria de Ricardo Mariano e fez no passado dia 14 de Outubro a bela idade de 20 anos e não podia fazer mais sentido falarmos com o Ricardo e perceber melhor tudo o que está por detrás do Vidro Azul. 

Música em DX (MDX) – Gostava que me contasses como começou a tua relação com a música.

Ricardo – É uma constante de vida, de facto, a música e sinto que me transportou para a rádio sendo que não foi um caminho muito óbvio nem previsível. Eu não achava sequer que tinha jeito para fazer rádio, mas a música foi sempre presente, talvez tenha herdado o gosto de ouvir por tocar fisicamente nos discos do meu pai que tinha algum jazz e algumas coisas estranhas tipo Jean-Michelle Jarre que me contagiaram para um universo mais electrónico e, portanto, nasci para a música logo com uma confusão interessante. Eu gosto de confusões na música, podermos ir a vários lugares e julgo que vem daí.
Depois tinha umas primas e uns primos mais velhos, os chamados vanguardas na altura. Em Coimbra, havia muito a cena dos billys, dos punks e havia os vanguardas (agora está tudo no pacote dos freaks) e lembro-me de numa idade muito prematura, em que ainda não entendia bem a música, não que tenha de ser sempre entendida, para mim a música é uma coisa muito emocional, mas lembro-me de a minha prima me mostrar Cocteau Twins, New Order e Joy Division e eu gostar mas achar muito estranho. Ainda assim foi uma espécie de rampa para tudo o que fui consumindo já por mim e algo que me fez perceber depois outros sons, pois já tinha aqueles estranhos incrustados! Foi muito assim, desde pequenino com a influência do meu pai, com a influência do mundo de Coimbra, onde há uma cultura musical muito forte. Eu sou de lá e fui vivendo aquele ambiente de garagem e de estar nos ensaios das bandas dos meus amigos, muito à volta do punk que é mais um ingrediente a juntar a este cozinhado e nasceu, assim, o meu gosto. Depois houve uns tempos da minha vida em que eu estive fora de Coimbra e que me alimentava da rádio. A rádio, na verdade, foi sempre uma paixão, muito colada à música, e ouvia o António Sérgio antes de adormecer, com os phones. Era um puto com 11 ou 12 anos, portanto a música é esta coisa que vem de fora, de amigos, de pessoas que conheço ou não conheço, da cidade ou da família, acho que é um pouco uma história comum, não é? 

MDX – Consegues recordar especificamente, ou o melhor que conseguires, o teu primeiro dia de Vidro Azul a 14 de Outubro de 2002?

Ricardo – Lembro-me perfeitamente porque eu não estava à espera! A rádio para mim foi uma coisa muito inusitada porque eu só gostava de ouvir rádio e gostava particularmente de ouvir a RUC porque tinha a sorte de ser uma rádio da minha cidade, uma rádio feita sobretudo por estudantes com a irreverencia e carolice dos estudantes. Ninguém recebia dinheiro e então era uma rádio que apostava na diferença, na música de margem e eu como já estava mais ou menos familiarizado com esse mundo, ouvir a RUC era como ler o NME para a coisa escrita, aliás as minhas inspirações e referências são da RUC, para além do António Sérgio, são da RUC! Vozes com alguma sobriedade que eu depois fui percebendo que eram também o meu registo mais tarde. Eu gostava das vozes sóbrias! Então havia um tipo que era o Pedro Arinto, que fazia um programa chamado Metro com o qual acabei por estagiar e que admirava muito. Estou a dar estas voltas todas antes de ir ao Vidro Azul porque tiras o curso, vais fazer um estágio e eu tive a sorte de poder fazer com o Pedro Arinto que era a minha referência e nesse verão acho que ainda fiz o Metro. Em setembro começam a organizar a grelha de inverno e eu já trabalhava e não tinha muito tempo e lembro-me de olhar para o mapa de programas e de já só haver ali uma brecha às 8 da noite e eu tinha esta ideia na cabeça que não era tanto uma ideia, era mais um nome: eu queria ter tido uma banda chamada Blue Glass, por causa da música que eu ouvia. Era uma música frágil, ainda assim transparente, bonita, melancólica, então transformei aquilo que seria o nome para uma banda que acabei por nunca ter, de uma forma muito espontânea no preenchimento do horário como Vidro Azul às 20h.

MDX – Mas eles é que te pediram para escolher? Como é que chegaste aí? 

Ricardo – Sim sim. Há muito essa liberdade na RUC, havendo espaço e confiando nas pessoas que lá estão e que acabaram de tirar os cursos, havia espaço para mim depois de ter tirado o curso para ter um programa de rádio.

MDX – Mas se a rádio nunca tinha sido o teu objetivo, como é que foste lá parar? 

Ricardo – Porque eu adorava tanto a rádio que experimentei tirar o curso de rádio, sendo que era uma coisa muito difícil naquela altura. Entrares para a RUC não era fácil, a rádio estava no auge, nos finais dos anos 90, inícios dos anos 00, havia ali uma série de pessoas incríveis que hoje conhecemos noutros lugares, como o Rui Portulez (que foi para a Xfm) que está aqui também, a Cláudia Duarte, o Sue, Daniel Belo, Rita Moreira (que foi para a Oxigénio), havia esta gente toda que eu ouvia e eu lembro-me de pensar “gosto tanto disto, porque não experimentar entrar naquele mundo?”
Realmente tenho esta ideia muito líquida na minha cabeça de não ser propriamente rádio aquilo que eu queria fazer, eu queria era estar na RUC, estar ali a conviver e conhecer aquelas pessoas e na altura era complicado porque tinhas de passar por duas etapas: uma primeira que era um questionário e eu nunca mais me esqueço que entrego o meu questionário e o tipo que o recebe que é o José Carlos Santos, que é jornalista em Macau agora, diz-me assim: tu é que és o Ricardo Mariano? Eu sou. Porque eu era o tipo que estava  sempre a ligar para os passatempos, eu era aquela lapa que estava sempre a ouvir a rádio e a ligar para os passatempos!
Passei a parte do questionário, depois fui a uma entrevista, passei a parte da entrevista e comecei na formação de programação em rádio e houve um dia que estava a fazer um teste de voz com música ao mesmo tempo e houve alguém que me disse: tu tens uma voz muito parecida à do Pedro Arinto, que era a minha referência, e quando me dizem isto eu pensei “bem se calhar tenho algum jeito” portanto foi essa oportunidade de ter entrado na RUC e depois de perceber que poderia fazer alguma coisa em rádio que me deu este lugarzinho às 8 da noite. 

MDX – Conta lá então esse dia.

Ricardo – Estava muito nervoso! O que até aí tinha feito tinha sido sempre acompanhado. O programa foi sempre em directo, era 1h na altura, fiz o programa muito à rasca e ainda assim fiz o programa e senti que era uma coisa que fazia sentido para mim. 

MDX – Lembras-te das primeiras músicas que passaste?

Ricardo – Lembro. Sempre que me lembrei do aniversário lembrava-me sempre da primeira música que é uma música da Lisa Gerrard com o Pieter Bourke, que é um australiano que colabora com ela e que está num disco dos dois mas que na altura conheci porque fez parte da banda sonora do filme The Insider e é uma música muito forte e épica e achei que era uma óptima música para abrir o programa. Chama-se “Sacrifice”, o que poderia ser uma piada e irónico! Comecei com essa e depois foi uma coisa que foi acontecendo e eu fui sentido que tinha sempre mais música. Acabavam aqueles 60 minutos e eu tinha mais música. Fazíamos à antiga, com CD’s, levava uma caixa de CD’s. Depois passado algum tempo, não sei se foi um ano ou dois, pedi à direcção para poder estender o horário e poder subir um bocadinho mais na noite, então comecei a fazer às segundas feiras das 22h até à meia noite e fiz este horário durante uma data de anos, sempre em directo. Adorava fazer em direto! É esta a história inicial do Vidro Azul. 

MDX – Como é que evoluíste até chegares a Lisboa, à Radar, Sbsr.fm? Agora não só tens o Vidro Azul, como fazes a programação.

Ricardo – Em 2008, o programa já tinha 6 anos e tive a sorte de uma maquete minha ter chegado às mãos do Luís Montez. Tinha uma série de pedaços de coisas que eu tinha feito: publicidades, promos, jingles e pedaços do meu programa e o Luís Montez um dia chama-me para uma entrevista no Porto numa das rádios que ele tinha lá. Eu não sabia ao que ia, conversamos um pouco e ele disse-me que queria muito ter mais espaço na rádio para eu fazer outras coisas mas o Vidro Azul era algo pelo qual se tinha apaixonado e gostava que levasse o programa para a Radar e eu disse logo que sim, claro! Portanto o caminho que me trouxe até Lisboa começa aí. Na Radar faço o Vidro Azul durante alguns anos e acrescentei um outro programa que eu tenho que é o Em Transe, que é só música instrumental, e depois nasce a Sbsr em 2016 e o Luís Montez convida-me a mim e ao Tiago Castro para virmos para aqui e eu trouxe comigo o programa, porque é meu.
Uma das coisas que eu queria, porque me dás esta oportunidade, é de agradecer obviamente, esta sorte de ter ido para uma rádio de culto como a Radar e ter levado comigo um programa que nasceu numa rádio universitária, mas uma das coisas incríveis que o Luís me deu oportunidade de ter foi a não exclusividade, poder manter o meu programa na RUC, que é um fair play incrível! O Vidro Azul acaba também por, anos mais tarde, tocar na RUM e tocou também, acho que já não toca, numa rádio francesa que é uma rádio que congrega todos os países da União Europeia, é uma ideia interessante, chama-se euradionantes. Na altura havia um programa português lá e esse programa saiu e fui convidado para ir para a euradionantes e por isso o Vidro Azul também tocou lá. Esta evolução, como lhe chamaste, tem também um grande impulso por causa do formato podcast. Eu comecei com o podcast no final de 2005, quando o podcast estava a nascer, havia um colega meu na RUC, o Paulo Santos, dentro da àrea do jazz mas também muito ligado à tecnologia e atento às ferramentas da internet que me disse: existe isto e eu acho que isto não vai matar a rádio, pelo contrário! E eu concordei logo com ele porque o podcast na altura, e ainda hoje, é uma ferramenta para as rádios e para outros órgãos de comunicação daquilo para lá do directo, para lá do que é publicado no dia. Podes voltar a ouvir e ouvir as vezes que quiseres e em qualquer parte do mundo e em todos os lugares e o pessoal que não ouve em directo pode ouvir depois, é mais confortável!
É basicamente esta a história de 20 anos de Vidro Azul. Se eu acreditava estar aqui durante 20 anos com um programa? Não, sendo que não me é estranho ter conseguido, porque eu nunca mudei nada e portanto é uma coisa quase física, é uma extensão minha e sobretudo porque alguém acreditou em mim. 

MDX – E tu próprio acreditaste.

Ricardo – Eu acredito naquela música, em mim às vezes tenho dúvidas, mas acredito sobretudo naquela música. Quando tu gostas particularmente de uma música ou estás numa determinada altura da tua vida a ouvir de forma volumosa um certo género e conseguires transportar isso para a rádio e perceberes que há feedback e que há mais gente contigo, ganhas mais força, motivação e estímulo e passas a ser maior, porque somos muitos. O Vidro Azul é muito isso, é chegar aqui e perceber que há aqui uma série de pessoas que falam a mesma língua do que eu, falam a mesma língua pelo ouvido. O Vidro Azul é um bocado nessa viagem, sentir que tenho paz e que estamos todos juntos. 

MDX – Consegues descrever a sensação de saberes que influências, ou que tens a capacidade de conseguir influenciar alguém pela música, ou dar a conhecer coisas novas a alguém?

Ricardo – Responder a isso obriga-me a sair de mim, é muito difícil falarmos de nós próprios sem parecermos pretensiosos. Quando trabalhamos numa rádio seríamos contraditórios em dizer que não gostamos de exposição ou de ser ouvidos quando fazemos radio. Se fazemos rádio é para sermos ouvidos, resulta muito disso, obviamente! Se chegar às pessoas só o sei quando tenho um feedback mais literal e isso emociona-me muito. Algo que ainda hoje me custa a entender, como é que há pessoas que dizem, ainda agora a propósito dos Low e do falecimento da Mimi, que conheceram os Low pelo Vidro Azul ou que foram a concertos de bandas porque ouviam no programa ou compram discos, ou músicos chegarem e ouvirem o programa e eu ouvia-os a eles. Mas esta coisa de poder servir para apresentar uma canção ou um artista é a magia da rádio, não sou tanto eu, eu aproveito-me do veículo e do privilégio de ter um programa que pode passar uma música mais específica e haver muita gente a gostar deste tipo de música. Portanto, é estares sempre e continuamente interessado em procurar música, conhecer música, pegares num artista e perceberes que há qualquer coisa ali próxima e ires atrás disso, leres, ouvires, ires a concertos, convém sair da toca, é importante não estarmos só refugiados no estúdio e eu tenho a sorte de ter um companheiro aqui na sbsr que, obviamente, para além de colega é um grande amigo, e temos muito esta dinâmica de ir a concertos. Isto é um ciclo que se constrói. É termos a rádio como voz e depois chegarmos aos artistas e eles chegarem-nos a nós e tenho a sorte, também, de muitos ouvintes me mostrarem muitas coisas.  

MDX – Uma coisa que me deixa curiosa é como é que tu vivendo parte da tua vida em Coimbra com aquelas influências todas do punk, do rockabilly, daqueles malucos todos que são deliciosos, que tu próprio disseste terem sido uma influência para ti, depois vais por um caminho sonoro oposto. Tinhas tudo para explorar aquele estilo na rádio e foste pela tranquilidade, melancolia… 

Ricardo – Acho que isso se explica de uma forma muito simples, primeiro porque nunca deixei de gostar de música punk e uma música mais forte, intensa e agressiva, até porque é inevitável, vivendo em Coimbra! Mas depois há a nossa individualidade e as nossas idiossincrasias e o meu jeito e eu sempre fui uma pessoa introspectiva, tímida, sou filho único, habituei-me a estar sozinho e a cultivar o gosto por uma música que me pudesse transportar para territórios mais reflexivos e a melancolia para mim é isso: é uma coisa que eu gosto de frisar, a melancolia é sobretudo beleza, reflexão, imaginação e uma certa espiritualidade longe das questões mais religiosas, espiritualidade individual no sentido de parares para pensar. O Vidro Azul era e é uma coisa dentro desse género mais específico porque eu sou assim, o Vidro Azul sou eu. Mas somos muitos! E depois vês-me aí aos pontapés se for preciso numa discoteca ou a fazer djing e a passar outra música qualquer, mas o Vidro Azul é um lugar meu, é uma parte de mim indissociável. 

MDX – Tens alguma história ou histórias que te tenham marcado mais neste percurso de 20 anos de Vidro Azul? 

Ricardo – Tenho algumas histórias. Tenho uma muito caricata que tem a ver com a minha dificuldade com outras línguas para além da portuguesa e lembro-me quando fazia os directos, porque agora já não é feito em directo por questões de logística, de arriscar às vezes uns nomes franceses e se já tenho alguma dificuldade no inglês, que é uma língua mais familiar, com o francês é um bicho de sete cabeças! A pessoa que estava comigo no estúdio nesse dia, esteve comigo na primeira hora do Vidro Azul, que é o João Vaz Silva, uma pessoa também ligada à música hoje em dia, e lembro-me de estar a passar um tipo francês e de lhe dizer “olha João, vou passar isto e quero que tu me digas como é que se diz o nome da canção e de que álbum é”, ele fala bem francês e diz-me “é assim que se diz” e levanto a via convencidíssimo de que tinha decorado a pronuncia de forma imaculada e digo um disparate qualquer e o João, em directo com a via no ar, desata-se a rir à gargalhada e teve de se estender no chão e eu a aguentar-me à bronca, com ele a rir-se à gargalhada no chão até que segui para outra música e passou!

Outra história, completamente diferente: há uma série de bandas que são referência para mim desde a minha adolescência e que depois transportei para o programa, como os Low, Cocteau Twins, Red House Painters, Scott Walker, nomes que faziam uma música mais melancólica, Nick Cave sempre e havia uma destas bandas que estava no meu top das bandas preferidas que eram American Music Club, que já acabaram, uma banda de são Francisco que fazia uma música ainda que nas raízes do rock e com folk também mas dentro daquele movimento que se chamava sadcore, slowcore e eu adorava-os e adorava-os pelas letras e pela voz do Mark Eitzel… que era o lider da banda. Uns anos valentes depois de ter começado o programa, o Mark Eitzel vem tocar a Portugal e um dia recebo uma mensagem da Lia Pereira e ela manda-me um áudio da entrevista que faz ao Mark Eitzel a propósito da vinda dele a Lisboa, em que o Mark refere que ouve o Vidro Azul, ela pergunta como é que ele chegou aí e ele diz que foi através de uns amigos. Eu ser confrontado com aquilo foi das coisas mais espectaculares da minha vida, eu não acreditava como é que era possível eu ouvir aquele tipo há tantos anos e o gajo ouvir-me! Tanto que agora a propósito do aniversário foram pedidos vários depoimentos e o Mark Eitzel participou e eu inclui-o na emissão dos 20 anos e é incrível isto. Tem muito a ver com a internet, não é? Aquilo chegou lá, alguém ouviu, disse-lhe que havia um tipo a passar música parecida à dele e ele ouviu. Tenho ainda uma terceira história a propósito disto: há um músico que se chama Thomas Feiner, sueço, era líder de uma banda Anywhen. A primeira coisa que eu fiz em rádio foi uma peça biográfica sobre os Anywhen e na altura do Myspace havia assim uns destaques na lateral e um dia estava a procurar qualquer coisa e reparo que na página do Thomas Feiner, sueco, líder da banda Anywhen, um dos destaques dele era o Vidro Azul e é engraçado e tudo isto para mim é uma coisa ainda muito estranha e que eu sei que pode acontecer por causa da internet mas que me deixa muito feliz e muito honrado e basicamente é isto. 

MDX – E alguém que a rádio te tenha dado a conhecer que se mantenha importante na tua vida. 

Ricardo – Há uma pessoa e é recente. É um homem. Há uma série de coisas que eu gosto na vida, para lá das coisas mais prosaicas, obviamente, uma das coisas que eu gosto na literatura é a poesia e leio. Na pandemia de 2020 para 2021 um dia recebi um email de um escritor conhecido de poesia, um poeta que eu lia e que admiro, a agradecer o programa. Que já o ouvia há alguns anos mas que naquele período difícil da pandemia em que todos estávamos mais sozinhos e baralhados, ele quis escrever-me para agradecer o programa ter-lhe feito a companhia que fez. Fiquei muito espantado e agradeci-lhe, obviamente e a partir desse momento começamos a ser uma coisa como havia antigamente, aquela coisa de escrevermos cartas uns aos outros, e eu e ele, às vezes, trocamos uns emails muito a propósito da música, às vezes um bocadinho sobre nós, mas nem tanto, mas que é uma figura que eu tenho num lugar muito especial e que adorava ler e que também se encontrou comigo por causa da música e do programa e, portanto, é uma coisa que me deixa muito feliz.

MDX – Para terminar, queres falar um pouco sobre os festejos do dia 14 de Outubro? 

Ricardo – Tenho uma equipa de trabalho aqui na sbsr que é muito unida e que quis marcar isto de uma forma mais vincada, coisa que eu não queria e estava um bocadinho contrariado mas, sobretudo o Tiago Castro, que é o coordenador da rádio pensou numa série de coisas. Uma delas foi recolher depoimentos de pessoas que se cruzaram com o programa e comigo ao longo destes 20 anos e houve aqui muita gente da rádio universitária da cidade de Coimbra, o José Tolentino Mendonça também quis participar, o Mark Eitzel, Valter Hugo Mãe, jornalistas, enfim, foi uma sorte e fiquei muito comovido e emocionado com aquilo que eles disseram. Tive também a sorte de ter aqui ao vivo nesse dia três momentos musicais, um pelo Rui Gaio, que tem um projeto muito interessante e sempre aliado ao vídeo também, o José Tornada que é um nome ainda desconhecido, alguém que veio de outra sonoridade mas que agora está a explorar um som mais instrumental e cinemático e o Samuel Úria que esteve à conversa comigo durante 1h no final da tarde e que veio com a guitarra e tocou uma série de canções e foi espectacular. Depois acabamos a noite no incógnito eu e a minha colega Lara Marques Pereira a passar música e bebermos uns copos com muitos amigos, houve ouvintes que foram lá dar-me um abraço e foi tudo incrível mas foi tudo muito violento. Foi demasiado intenso e eu senti que a ansiedade estava a dominar-me durante a semana toda. 

MDX – Mas isso é também um bocadinho o Vidro Azul. 

Ricardo – É. Mas também mostra um bocadinho da minha impreparação para estas coisas mais fortes e tive um sentimento meio paradoxal que foi desejar que acontecessem coisas a propósito de um programa que tem uma história longa e não é fácil aguentarmos um produto qualquer durante tanto tempo, mas por outro lado queria que acabasse! Foi muita coisa e acabou depois às 10 da manhã de sábado, felizmente. Tive também a sorte de vir aqui chorar um bocadinho numa entrevista que os meus colegas me quiseram fazer. 

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