Os Coliseus de Lisboa e do Porto receberam esta 6ª feira (13) e sábado (14 de maio) os emblemáticos briânicos Tindersticks. Ao comemorar os 30 anos de carreira, a banda de Nottingham não poderia deixar de passar pelos palcos que sempre os aclamaram e marcaram aprazívelmente a sua história.

Vezes e vezes sem conta, sempre com a mesma afinação celestial de Stuart Staples, sempre com a mesma cumplicidade de um conjunto de músicos orquestral. Como se afinal a Vida tivesse mesmo ficado lá atrás, nestas três décadas de composição e ovação da perfeição musical dos Tindersticks. Quantas bandas gostariam de ter feito uma destas músicas?

Na verdade um percurso discográfico sem sobressaltos disruptivos, o que para alguns significa uma linha continua uniforme, mas para outros revela um sedimentar de melodias estruturalmente bem conseguidas e fieis a um conceito tão peculiar quanto ressonante no bater da alma, como se respira-se uma devoção quase divina. Foram pouco mais de duas horas que percorreram metade da sua discografia, com maior expressão nos temas integrados nos álbuns editados na década de 1990, como “Willow”, “She’s gone”, “Her”, “My Sister”, “Travelling light” ou a imortal “Tiny Tears” já no final do primeiro encore. Um breve sopro do seu mais recente trabalho ‘Past Imperct: The Best of Tindirsticks 92-21’, com o tema “Both Sides Of The Blade”, inédito, intenso e perturbador que, com a dezena de violinos alinhados elevou os espiritos e sedimentou-se numa das baladas mais bonitas da noite.

“My oblivion”, num punhado de notas com tempo e com as palavras pousadas nas partículas finas dos décibeis. Uma devoção que extravasou a nossa simplicidade terrena, levitámos numa comunhão de Vida, de amor, de perdão, numa força suprema quase celestial! Um pouco antes,”Trees Fall” e “Jonny Guitar” excederam todas as expectativas de um regresso que se esparava meio morno e pouco intenso. Stuart Staples esteve sempre no seu registo introspectivo, de olhos fechados e em harmonia com a intensidade do momento, mas ainda repetiu duas vezes que “era bom estar de volta”.

Apesar de “A Night In” (um dos temas mais bonitos da banda) não ter sido escolhido para nenhum dos encores em Lisboa, o alinhamento teve o equilibrio necessário para sairmos do Coliseu dos Recreios de alma cheia, e a continuar a acreditar que os 30 anos com os Tindersticks valeram muito a pena.

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