Depois do tão aclamado e controverso O País A Arder, primeiro disco deste supergrupo do norte, surge três anos depois o seu sucessor.

Sereias é aquele nome que poderá estar associado a algo bonito, delicado, quase imaculado e, ao mesmo tempo é um soco no estômago. É o declamar de tudo o que está errado. É a intensidade. A revolta. A amarra. Sereias é a tentativa de fazer despertar mentes cegas e dormentes. Este segundo disco mantém o registo cru, forte, fortificado e fantástico de unir a dureza das palavras reais à complexidade instrumental que desnorteia.

Há todo um confronto interno e externo durante a audição deste disco. Que, não sendo confortável, não nos deixa afastar ou desligar.

UM IMPULSO VITAL E URGENTE

“Recomecemos tudo de novo” grita A. Pedro Ribeiro a descerrar o novo álbum dos Sereias, abrindo espaço para o deambular de uma guitarra abrasiva sobre um ritmo persistente e incursões de teclados com reminiscências jazz-rock à anos 70. É este o mote para o novo álbum, um recomeço onde encontramos o free rock dos Sereias em todo o seu esplendor, uma mistura de post-rock e kraut em progressão contínua, tenso, obsessivo, massacrante, em jogos de texturas e piscar de olhos ao free-jazz e à música contemporânea e mesmo a algum tribalismo. Deste caldeirão sónico sai a voz psicótica de A. Pedro Ribeiro, ora gritada ora murmurada ora declamada, ora colérica ora depressiva, e a sua poesia bruta, de poeta de café em invectivas contra o mundo ou em lamentações existenciais. Mas contrariamente a “O País A Arder”, o disco de estreia, há aqui menos palavras de ordem sonantes, tipo “quero um primeiro-ministro para comer ao pequeno-almoço” ou “as putas da tv”, e um maior desespero face ao mundo, com as ambiências musicais a ganharem um protagonismo e um espaço inesperado, como em “Las Cadenas” – onde as vozes electronicamente traficadas desenham estritas narrativas sonoras –, e as ladainhas recitadas a serem repetidas uma e outra vez, a sublinhar a sensação de perda e o tom melancólico e angustiado que percorre todo o disco. “Ela vem, volta sempre, a depressão”, como rediz à exaustão A. Pedro Ribeiro, abandonando-se ao fado da inadaptação social e da carência afectiva que o faz cair “no fundo do copo, no fundo do abismo” por entre farrapos de melodia. E de nada valem as visões apocalípticas nem os avisos de que “a coisa vai estoirar” apoiados num crescendo rítmico de tramas explosivas, pois o destino está traçado: “voltar, voltar sempre”. E que bom que é este regresso! Numa altura em que a música portuguesa navega maioritariamente por um nacional-cançonetismo modernizado disfarçado de pop é uma bênção ouvir estes Sereias e a sua quimera disruptiva sob a forma de música, onde a criação é um impulso vital e urgente. Bem hajam! Adolfo Luxúria Canibal

Podem ver Sereias aqui:
Porto
24 de abril, Luz&Vida – Desassossego Festival de Curtas de Videodança
25 de abril, Sala Estúdio Perpétuo
Lisboa
30 abril, Musicbox em Lisboa
Fotografia – Sara Sofia Melo

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