Opinião Reviews

O universo de sensações de Drafty Moon

Por vezes os homens das estrelas conseguem tocar a lua. Em certas alturas há vento, noutras serenidade mas, o que há sempre, é uma sensação grandiosa de pertença ao universo. Um universo composto de algumas estrelas negras, outras luminosas e uma imensidão de longitude. 

Começar a ouvir Drafty Moon trouxe uma espécie de deja-vú emocional parecido ao momento da escuta de Blackstar. A densidade de difícil digestão, a opacidade misteriosa, a névoa quente e o arrepio gélido, o suspense e, até, a composição, se assemelham ao génio Bowie. Colocando-nos, assim, em situação de deleite aquando da sua escuta. 

Depois de, 5 anos antes, nos ter trazido o solarengo, encantador e brilhante Temble Like a Flower, Bloom, alter ego do conimbricense JP Simões apresenta agora Drafty Moon num complexo de 8 músicas que vagueiam entre a inquietação e a catarse. 

A música que dá nome ao disco e que lhe dá início é desconfortável e algo forte emocionalmente. As cordas que aparecem em segundo plano pegam em nós como fantoches e criam alguma tensão e agitação. “Bad For Business” começa de modo mais ritmado e electrizante mas não menos inquietante, remetendo-nos para um imaginário colorido. 

“Pull Yourself Together” é a faixa mais longa do disco. Sonhadora e viajante traz com ela uma certa nuvem de suspense e energia positiva. A elegância do saxofone abrilhanta o sonho. Num ambiente algo tropical e até um leve cheiro a funk aparece “There Is Something About Tomorrow” que nos dá energia para agarrar a “Bleeding All Over” e viver a vida a correr sem olhar para trás, com buracos, saltos e encontros inesperados de pequenos refúgios. A perturbação regressa com o mistério algo encantado de “Public Affairs” como se estivéssemos dentro de uma banda sonora e quase tocamos o brilho das estrelas com os dedos. “Shinjuku Station” aparece envolta numa suavidade espacial que nos ajuda a libertar peso e a levitar sobre paisagens de flores multicolor. Os riffs trazem luz e brilhantina. 

Terminamos a viagem ao espaço com um flashback de uma pista em plenos anos 80. É início da noite e as luzes brincam sozinhas à nossa frente. A emoção aumenta e a vontade de dançar abraçados à vida é infinita. Sentimos à nossa volta um nevoeiro de emoções e contracções corporais. A lua está perto, só temos de levar um corta-vento! 

Drafty Moon saiu no passado dia 22 de Outubro e podem senti-lo aqui.