Nesta experiência a que chamamos vida, há inúmeras viagens que vamos fazendo. Muitas delas sem sair do mesmo lugar. Outras tantas onde nos perdemos de nós próprios. No fundo, as viagens têm múltiplos sentidos, propósitos e, até, caminhos. Os factores externos que se aliam de nós contribuem sempre para a experiência que vamos ter. Umas vezes física, outra sensitiva e, ainda, outra mental. 

Hoje falo-vos da viagem que resultou da junção de Um Corpo Estranho (João Mota e Pedro Franco) a Saturnia (Luís Simões), entre estradas distintas encontraram um ponto onde, ao convergir, traçam um novo mapa cheio de misticismo, descoberta, mistério e encantamentos.

O Místico Orfeão Sónico de Um Corpo Estranho e Saturnia tem 10 trilhos e contou com a participação de Samuel Palitos, Filipe Caeiro e Tozé Bexiga. Compõe-se de um instrumental denso e intenso que parece querer falar. A mescla homogénea entre as cordas de Um Corpo Estranho e o universo psicadélico de Saturnia faz com que a poção mágica ganhe ainda mais força e impacto em nós. 

Começamos a fazer os primeiros passos da travessia com a introdução “Desafinação”. Acompanha-a distorção, uma orquestração descoordenada e desconcertante mas, nunca, a desafinação. Surge, talvez, com o intuito de nos despertar para o que vem a seguir. 

Tambores e sitar numa espécie de chamamento coberto de magnetismo de encantar apresenta “A Torre”. Dá-se início ao ritual que se mantém em loop no corpo e na mente. Em coro, ecoam as vozes algo distorcidas em comunhão com as guitarras, fundindo-se numa sonoridade mais oriental como se dançássemos com a serpente que nos vai acompanhar até ao fim do disco e nos guia de forma ondular por dunas entre as vagas de calor. O primeiro single que saiu desta viagem surpresa chama-se “A Velha Carruagem”. Velha porque carrega milhares de histórias nela e já percorreu vários desertos cósmicos e mentes. A voz aparece em tom hipnotizante e acompanha o som da serpente que vagueia por entre os tambores de indígenas e espreita por entre a luz do fogo. Observa a marcha ordenada que vai na sua direcção. “7 de Bastões” foi o segundo single que conhecemos e a sova foi de rock’n’roll! Uma faixa com ecos de distorção e texturas sónicas cheias de explosões desenhadas por riffs estrondosos e assanhados. Uma malha com garra, força e poder!

Com a intensidade a aumentar surge aquela que é, talvez, a minha faixa preferida do disco. A sitar e as vozes circulam ao nosso redor, tal como a serpente. Com eles, um cheiro misterioso, sombrio e inquietante. A percussão é sôfrega e a respiração acompanha, desenhando, com o ritmo, uma cruzada mental que atravessa um rio de sentimentos e ansiedades onde mergulhamos e nos afastamos, cada vez, das margens. Como que a esticar-nos a mão, os riffs quentes de rock’n’roll da “A Força” ajudam-nos a passar para um novo estágio da viagem. “Afinação” é o interlúdio que nos introduz com um manto de suspense a nova direcção que vamos seguir. Nesta segunda parte, as músicas apresentam-se mais longas e montanhosas. “Eremita” traz-nos a suavidade da guitarra acústica entrelaçada com o mistério sónico dos outros instrumentos aos quais se junta a voz que ajuda a embalar uns gnomos cintilantes que encontramos pelo caminho. No espaço cósmico, com a luz forte de relâmpagos no horizonte, surge “Covil” e uma ansiedade agridoce que nos leva a flutuar e a quase tocar nas constelações que se encontram ao nosso redor. Há cores e sabores corpulentos que nos tiram a respiração! Com referência às águas que os viram crescer, “Fonte Sado” acompanha a nossa chegada de modo meramente instrumental numa tranquilidade de fim de tarde. O coração acalma e a respiração também. Há um sorriso que acompanha a satisfação e aprendizagem que recolhemos na travessia. Os acordes arrastados da guitarra fazem-nos submergir numa espécie de nevoeiro quente e reconfortante com cometas sonoros a rasgá-lo. Um clarão, um brilho ofuscante e a suavidade da chegada. 

O Místico Orfeão Sónico de Um Corpo Estranho e Saturnia foi lançado no passado dia 29 de Outubro. Podem começar a viagem  aqui.

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