Está disponível em todas as plataformas digitais o terceiro capítulo da tetralogia discográfica iniciada por Dada Garbeck em 2018. Cosmophonia, sai com selo Discos de Platão e propõe-nos um novo mergulho no trabalho do músico vimaranense.

Cosmophonia, nas palavras de Afonso Cruz:

“Tolkien começa o livro Silmarillion com uma cosmogonia que se alicerça na música para explicar o nascimento do mundo. A música tem esse factor, entre o absurdo e o lógico, que permite as mais simples analogias, bem como as mais complexas. Se pudéssemos desenhar a Cosmophonia proposta por Dada Garbeck, é possivel que coincidisse com o padrão do tecido do cosmos.
A música, curiosamente, parece ser simultaneamente a causa e o efeito de tudo, parece tecer os nós essenciais e invisíveis do mundo, ao mesmo tempo que é a sua manifestação, como se um criador criasse a criatura que o cria a ele. Uma ideia de Cosmophonia é a possibilidade de, ao ouvir, criar.
Não é raro sentirmos também a necessidade e a urgência de aprimorar o mundo, porque a própria beleza do universo não nos basta e quando a vida se afeia ou desilude, acendemos uma melodia para iluminar o caminho. E, quem sabe, haverá música muito para lá do fim ou da tragédia: um Céu sem melodias celestiais é demasiado inverosímil.
E seguimos prestissimo, lento ou allegro, na esperança de, ao valsar pelo universo adentro, isso nos eleve ou imerja numa outra camada, de profundidade ou altura, porque ambas, seja na espessura, seja na imaterialidade, nos transformam pelo desvelamento. Os círculos que fazemos (uma Cosmophonia pessoal) são como uma faca a cortar a casca de um fruto, que o vai circundando até à nudez, ou como quando rodopiávamos em criança até à queda, porque aquela queda era ao mesmo tempo uma elevação, uma forma de misturar o voo da tontura com a inexorável gravidade. A verticalidade exige luta, uma luta constante contra a queda ou esmaecimento, mas, como bem sabemos por uma praxis cosmophónica, a possibilidade de não sermos levados à desistência eterna (ou adiá-la), é orbitarmos. Vivemos como entidades celestes: basta olhar para o cosmos e as suas elipses, para as suas melodias de esferas, para perceber que esse é um movimento soteriológico (circular e musical). O planeta que habitamos não vai ao encontro de uma estrela, circunda-a, como um dervixe mevlevi a orar. E assim, fazemos todos parte dessa dança omnipresente e elíptica: de uma Cosmophonia.”

Fotografia – Pedro Bastos

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