Sejamos francos: não é fácil dissociar Milky Chance de “Stolen Dance”. O fervoroso hit de 2014 foi um impressionante sucesso radiofónico, badalando um pouco por todo o mundo, e acreditamos que se fosse lançado nos dias de hoje, as histórias do Instagram torná-lo-iam num êxito ainda maior. Porém, quando a canção passou o testemunho para outro tema da moda, rapidamente o esquecimento aos olhos do grande público abateu a dupla alemã; ‘one hit wonders’, como injustamente se apelida o fenómeno.

As opções eram simples: viver uma carreira com tal tema como seu sol, ou mostrar material capaz de fazer jus a todo esse burburinho. Os Milky Chance balançam um pouco no limbo de ambas, contando já com três discos na carreira mas sem nunca terem voltado ao pico de popularidade de outrora. Já os fãs de 2014, esses não foram a lado nenhum, enchendo o LX Factory para o regresso da dupla a Portugal, curiosamente no mesmo local desde a sua última passagem pela capital.

A sala de concertos do LX Factory, embora espaçosa, peca em muito pela acústica, ou não fosse um misto de armazém e parque de estacionamento. Como tal, auto-tune estridente e synth pop com demasiado recursos a beats é algo que não funciona, como não funcionou Mavi Phoenix, artista austríaca que assinou um turbilhão de disparos sonoros e onde praticamente todos falharam o alvo. Salvou-se-lhe a energia, energia essa que contagiaria toda a “Fallen”, tema de abertura escolhido pelos Milky Chance e primeiro cartão de visita de Mind the Moon.

Quando se opta por arrancar um concerto somente com músicas de um trabalho recente, exige-se que a entrada seja feita de rompante. E os Milky Chance não desiludiram, com a endiabrada “Fado” a deixar o público à sua mercê e justificando que a fama da dupla não é um mero acaso. “Blossom”, “Cocoon” e “Down By The River” são uma forte demonstração do quão rico o cancioneiro de Clemens Rehbein e Philipp Dausch consegue ser, registando-se fortes coros de euforia entre as mesmas.

Para além de riqueza na qualidade, é também palpável a versatilidade do repertório dos Milky Chance, sensação nítida entre o caminhar até meio e pela segunda metade do concerto quando temas algo de dispares vão surgindo um após o outro: se “Right From Here” invoca parecenças a Depeche Mode, “Oh Mama” e “The Game” tentam modernizar o reggae, havendo ainda tempo para a savana psicadélica de “Daydreaming” – tema com Tash Sultana – e a inevitável balada de “Loveland”, com direito às lanternas da praxe. Todas causam impacto, surpreendem e não nos deixam com a impressão que os Milky Chance simplesmente teimam em atirar tudo e mais alguma coisa à parede na intenção de ver se pega como ocorreu com “Stolen Dance”. Fossem todos os one hit wonders assim.

A dita foi guardada para o fim, como saborosa sobremesa que nos faz sempre guardar espaço após um prato principal que surpreendeu no palato. Sem surpresas, foi o principal destaque da noite, com a voz do público a afogar de Rehbein em rejubilo e gratidão pela aquela que, com o passar dos anos, se foi tornando na música de muitos daqueles que (quase) esgotaram o LX Factory, deixando-se Alcântara com o pressentimento que nos voltaremos encontrar todos muito em breve.

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