Chegados ao Campo Pequeno para vos reportar a noite dos The Waterboys, em Lisboa, assim uma prenda de Natal antecipada (pelo menos parece)… Sempre que penso na Escócia e na Irlanda, visualizo verdes prados, violinos, guitarras, enfim, as poucas coisas que poderiam fazer da consoada uma noite suportável. Mas a noite de hoje está igualmente (muito) suportável com uma temperatura amena comparativamente aos últimos dias de gélido Outono. E assim, armado de boa disposição aguardo (com uns quinze minutos de atraso) que se inicie o concerto e, benditos quinze minutos, pois o excesso de pontualidade, sinceramente nestas coisas agrada-me pouco. Mas deixem-me contar-vos uma coisa sobre os The Waterboys sendo Mike Scott e Steve Wickham ‘base’ permanente enquanto os restantes músicos foram rodando ao longo dos anos: – Há mais de dez anos atrás, pelo menos (!) tive o prazer de dividir um autocarro com este gang, ou, como referi, Mike & Steve e uns quantos outros ‘fulanos’, todos eles músicos prodigiosos – hoje, não reconheci mais nenhum rosto para além do violinista Steve Wickham e obviamente Mike Scott. Todo aquele tempo de viagem que durou cerca de hora e meia foi passado com eles, a ouvi-los tocar em regime acústico apenas e somente para fazer passar o tempo. Na verdade, Mike Scott (como na altura percebi), só se faz acompanhar de ‘MacGyvers‘ da música, daquele tipo de gente que até com uma pastilha elástica faz… música. E assim, com esta recordação em mente, assisti ao ‘meu’ terceiro concerto The Waterboys. Posso desde já dizer que não foi o melhor a que assisti, no entanto esta foi uma noite arrebatadora: pelos arranjos, agora com o coro das excelentes vozes das duas cantoras em palco, e pela energia rock demonstrada pela banda no seu todo e claro pela voz em excelente forma de Mike Scott. Foi simplesmente bom e surpreendente mas não mais do que isso poderia ter sido espiritual e transcendente. Para começar, a escolha de canções a nível das canções ‘clássicas’ foi equilibrada, percebi no entanto que a banda ainda não toca ao vivo “Trumpets”, o que é uma pena. Mas nem sequer o som um pouco embrulhado ainda nos primeiros minutos do concerto enquanto o técnico de front house fazia os ajustes de última hora prejudicou quanto a mim, a canção da noite, a épica, bonita e sublime canção de quatro acordes: “Fisherman’s Blues” – é que sempre que oiço essa canção apetece-me cantar e agarrar num qualquer instrumento e tocar Sol, Fa, La menor e Do e quero dizer com isto que o homem é genial, tamanha é a vivacidade que imprime à canção com a sua guitarra acústica e a sua voz, e com músicos de igual calibre a acompanhá-lo, não foi difícil que logo nessa primeira canção levassem o Campo Pequeno ao rubro.  

20191127 - Concerto - The Waterboys @ Campo Pequeno

Como era previsível, são as canções antigas que elevam a alma da audiência. As novas como “Where The Action Is”, que demonstram o amor de Scott pelo rock n’ blues dos USA, ele que também parodiou com a figura do teclista “Brother Paul!”, falando dos Kiss (banda que o teclista ouviria na sua adolescência), e isto, pela forma como foi apresentado em palco. O teclista organista que imprime uma sonoridade semelhante à de uns Deep Purple, muito pela escolha do som ‘à la’ John Lord a algumas canções dos The Waterboys, foi algo que me irritou um pouco, confesso, o público dos The Waterboys não é o ‘Kiss Army’ e nem esta banda são os Kiss… Assim, das mais recentes canções a que mais apreciei foi “Lady Brooke Groove Symphony”. Pareceram-me excessivas, embora divertidas as demonstrações de virtuosismo do Brother Paul, um excelente músico sem dúvida… mas chegar ao ponto de utilizar uma Keytar, ou sintetizador, tocado como se uma guitarra fosse, suportado por um strap (cinto que segura a guitarra no ombro) para, por um minuto, numa amálgama genial de notas trazer um momento hard rock anos 80 para o palco, para mim, embora mostra de virtuosismo não é a última Coca-Cola do deserto. Igualmente desnecessário pareceu-me, o solo do baterista no contexto da homenagem a Ginger Baker, falecido em Outubro deste ano. Compactando tudo isto, no fundo, no fundo este concerto foi divertido, incluindo os momentos mais excessivos – é grande o respeito que tenho por The Waterboys que mais uma vez aqui demonstraram que são uma impressionante banda ao vivo.

20191127 - Concerto - The Waterboys @ Campo Pequeno

Dos momentos memoráveis deste concerto, são a já referida “Fisherman’s Blues” e a espectacular “The Pan Within”, esta mais tarde interpretada apenas com Mike na guitarra e voz e Steve no violino num arrepiante momento, embora não desdenhasse de ouvir o arranjo com a banda toda, e foi aí que comecei por comparaçao a interrogar-me se alguns arranjos Born In The Usa, isto, dito aqui em jeito de piada à referência que Scott fez ao ‘Boss’, Bruce Springsteen a certa altura nessa noite, em especial nos temas mais recentes com uma certa veia Hard Rock,  que vejo a banda a caminhar em certos momentos desta apresentação – Interrogo-me portanto se estes são os The Waterboys de que gosto e aos quais me habituei. Com veia dramática, sensibilidade poética contudo talvez Mike Scott tenha razão: «all you gotta do is surrender». Eu rendi-me mas com algumas reservas. “Purple Rain” de Prince, com que terminaram o concerto já no encore, é uma canção que parece escrita para Mike Scott cantar com a sua voz efusiva… antes tínhamos ouvido “A Girl Called Johnny” ou mais a meio “We Will Not Be Lovers”, ou “This Is The Sea”. Foram brilhantes como sempre, só não me convenceram muito com a toada ‘quase’ hard rock. Que se ‘lixem’ os Kiss ou os blues norte-americanos. Bebam Whisky escocês, (brincadeira, Mike Scott não bebe), e vão por favor dar aso a essa sensibilidade poética de Scott numa próxima incursão de estúdio. Eu quero os meus The Waterboys do antigamente.

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