No ano em que os Belle and Sebastian surgiram, este que vos escreve haveria de nascer a meio de esse Dezembro. Como tal, não posso considerar a banda escocesa como uma referência durante a infância ou até mesmo na adolescência. Mas o meu caso foi quase único numa Aula Magna, esgotada, onde a média da faixa etária rondava facilmente dos 35 anos para cima, precisamente aqueles que cresceram na companhia dos Belle and Sebastian.

Com praticamente 25 anos de carreira em cima, espalhados ao longo de dez discos, há muito que o repertório da banda de Glasgow se tornou referência no cancioneiro do indie pop. Para a atual tournée, a banda optou por jogar com todo o repertório e alternando setlists de concerto para concerto, deixando sempre um certo fator surpresa pelo ar.

O arranque, feito de poupa e circunstância, fez-se ao som de “Nobody’s Empire” do último Girls in Peacetime Want to Dance, contagiando de palmas e sorrisos uma sala cujas doutrinas não resistiram a levantar-se e dançar, momentos depois, ao som de “I Want the World to Stop”.

Estamos muito contentes em voltar a Lisboa”, “esta sala é muito bonita” ou “hoje vamos tocar algumas canções novas e antigas” foram algumas das tiradas, ditas em português arranhado mas de boa intenção, com que Stuart Mardoch ia atenuando uma ausência de treze anos pelos palcos lisboetas.

Não só a ausência foi atenuada como foi mesmo compensada, com os Belle and Sebastian a presentearem a Aula Magna com um alinhamento onde praticamente nenhum dos discos da banda ficou esquecido,com a excepção de Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant. Belle and Sebastian Write About Love, The Life Pursuit e o velhinho Tigermilk foram os mais representados, com “The State I Am In”, canção que abriu as portas da banda ao mundo, a ser usada como ponto final para a noite.

Porém, antes disso, revisitou-se “Piazza, New York Catcher”, passou-se por “Another Sunny Day” e a comunhão entre banda e público deu-se em “The Boy With The Arab Strap”, com praticamente todos os lugares das doutrinas a terem sido convidados para o palco. Uma hora e trinta de concerto foi o tempo que bastou para fazer com que a noite de Belle and Sebastian se acabasse por converter numa celebração a toda a carreira dos escoceses.

Já para fim, num encore com direito a preferência entre “se querem a música calma primeiro, e a mais rápida depois”, “The Stars of Track and Field” e “Sukie in the Graveyard” foram as canções que ditaram o fim à grandiosa festa de Belle and Sebastian.

É paradoxal como é que do negrume chuvoso de Glasgow nasceu um projeto capaz de produzir canções tão simples e doces; seria um exagero apelidá-las raios de sol capazes de furar por qualquer penumbra? Talvez o seja, mas a julgar pela forma como o céu nublado, a ameaçar chuva a qualquer instante, que se verificava pela Cidade Universitária minutos antes da entrada dos Belle and Sebastian em palco, ter se tornado num limpo e estrelado após o término do concerto, vamos manter esta nossa opinião.

Depois dos agradecimentos, vénias e as merecidas palmas, era dado irrefutável que o regresso, após treze anos de espera, dos Belle and Sebastian a Lisboa foi um verdadeiro triunfo. Agora, é esperar que não tenhamos que esperar tanto tempo para os acolher novamente. Mas se assim for, que o regresso seja tão bonito como o desta noite.

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