Há algo que separa o que está dentro de nós daquilo que queremos que as pessoas sintam. A isso chamo genuinidade. Aquela que vou retratar neste texto é gigante e deixa saudades quando está muito tempo ausente. Juntemos à genuinidade a pureza do rock’n’blues e uma voz que faz estremecer o chão e encontraremos um retrato de Nelson, Fast Eddie Nelson.
De álbum novo na mala e uma banda já assumida Fast Eddie Nelson subiu ao palco do Sabotage Rock’n’Roll Club, no dia 30 de Abril, meia hora depois do esperado para dar a conhecer um pouco do seu novíssimo High on Reality.

Com seis álbuns já atrás de si, este novo registo vem coberto de colaborações de amigos e acompanhado de uma grandeza que só este senhor sabe dar! Antes de levantar o véu, Nelson entrou em palco sozinho de guitarra acústica ao ombro para interpretar “My Country’s Got The Blues” com uma intensidade de arrepiar e confortar. Depois entram um a um os elementos da banda que lhe tirou a solidão em palco, Rui Guerra nas teclas, João Alves no baixo e Kiko na bateria. Ainda uma música antiga para depois conhecermos “Socks and Sandals” e “Under The Sun” do mais recente trabalho. O country blues é extremamente bem tocado em cima daquele palco. A guitarra Americana e as teclas extraordinárias fazem-nos acordar em pleno Mississipi algures nos anos 50. Rui Guerra foi uma excelente aquisição para esta nova formação e é inegável o complemento fundamental que faz com as suas talentosas mãos conseguindo, por vezes, fazer-nos fixar visual e auditivamente durante longos períodos sobre o seu teclado. Os dedos de Nelson também são encantados e donos desse poder. Os riffs são tão bons que nos fazem como que um jogo magnético onde o nosso corpo se entrega ao som que ouve. “Tear It Down” e “Firewood” foram tocadas de rojo e com a garra que tanto caracteriza Fast Eddie Nelson, o verdadeiro Rei do rock’n’blues português. A versão blues de “Come Together” veio no meio de mais duas faixas novas. “Can’t Stop” e “Cantar da Emigração” (versão de Rosália Castro e José Niza) aconchegaram a alma e trouxeram um momento emotivo e sentido ao Sabotage. A noite caminhava em crescendo e assistiam-se a vários solos de baixo, teclas e guitarra com uma mestria que nos deixava a sensação de não querer que o concerto chegasse ao fim. “Dancing In The River”, “This Mountain” e a nova “Asshole” geraram euforia e saltos entre o público anunciando o não desejado final.

Consistência, congruência e grandeza seriam três boas características deste álbum. Talvez se note uma ligeira transição entre o Country Blues do campo para o da estrada tornando este estilo musical digno de uma bela tonalidade em tons de castanho acinzentado, moldado com o calor que sai do coração de Nelson. Aquele calor que se sente ao olhar para ele e para os seus olhos que transmitem que tanto tocam o céu como podem perder os sentidos em cima do palco.
Que a genuinidade continue e a mestria seja cada vez maior para nos proporcionar estas noites americanas que tanto nos enchem de contentamento.

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