A menos de um ano do lançamento do seu segundo álbum, “As saudades que eu não tenho” e a quatro do primeiro, “Acho que é meu dever não gostar”, a dupla Señoritas deu o seu último concerto. Mais do que uma despedida dos palcos os quais percorram intensamente, foi também a despedida da banda. Estruturada numa amizade duradora e incondicional, Sandra Baptista (baixo, acordeão) e Mitó Mendes (guitarra e voz) criaram o projecto terapêutico (como as próprias identificam) Señoritas, em 2016. Em bandas anteriores marcantes na música portuguesa, como Sítiados (Sandra) e mais recentemente A Naifa (Sandra e Mitó), as Señoritas são mais do que uma banda feminina, Señoritas são o escárnio e o descarno da Vida. Caracterizada pelas letras visceralmente comprometidas com os amargos de boca e com os socos no estômago que o viver nos dá, esta dupla foi o sopro a alfazema na banalidade tóxica de alguma música portuguesa onde ainda tropeçamos. Letras lançadas como setas certeiras que nos atravessam a alma e nos moem o coração. Um acordeão que embala os gostos dos desgostos e um baixo que sustem a angústia do reconhecimento da verdade que doí (muito). Composições simples, fortes e sentidas, da epiderme à profundeza das vísceras.

© Luis Macedo

Sábado passado foi o Auditório Carlos Paredes em Lisboa (Benfica) a sala escolhida para última sessão de terapia. Uma sala acolhedora mas que se tornou pequena para a quantidade de pessoas que quiseram assistir à despedida. Persianas corridas a meio do palco que provocaram algum mistério do que do outro lado se passava. Uma atmosfera intimista onde o (excelente) trabalho de luz nos remeteu o tempo todo para um lugar tão mágico quanto pessoal. O odor agradável a incenso saía por detrás das persianas, fazendo-nos envolver ainda mais na intimidade das Señoritas.

Sandra e Mitó comunicaram que iriam terminar e que aquele seria mesmo o último concerto (da terapia). “Acho que é meu dever não gostar de pessoas racistas, homofóbicas e que não têm respeito pelos outros”, foi assim que Sandra deu inicio à música que dá nome ao primeiro álbum, “Acho que é meu dever não gostar”. Antes já tínhamos ouvido “Bomba”, “Enlouqueci” e “Mão Armada”. Arranjos de teclas num registo levemente electrónico, nas “7 Pragas” “(…) que são a tua sorte no dia da tua morte”.

© Luis Macedo

“Confissão Confesso”, um dos momentos mais marcantes da sessão. Aquele momento de recolha e de confronto com o espelho de nós, num exorcismo espiritual em que nos entregamos à submissão da verdade, “(…) confesso que menti, confesso que enganei (…) quantas Aves Marias preciso.” Confesso que nesta altura já estávamos rendidos ao feitiço das Señoritas. Fosse pela quente e envolvente voz da Mitó, pelo choro miudinho do acordeão ou pela performance sensual da Sandra com o baixo!

Depois de desventrarmos as agonias e para aligeirar o ambiente, Mitó propôs que a acompanhássemos em “Rato” no refrão. “Rato de esgoto” a rimar com “desgosto” uma canção de amor toxico que, na verdade, sabemos que existem mais do que o necessário. “Vem comigo” (“ver o mar”), a única canção de amor “fofinho” das Señoritas e que, mesmo assim, não cai no cliché do final feliz. “Uma Mulher Só” (“não é uma mulher sozinha”), acordes de guitarra que quebravam o embalo entristecido do baixo e onde a voz de Mitó foi subindo arrastada num tom de fado. “Sem Vida”, uma música que dedicam “a quem tem filhos” e que fala do lado negro da rotina que se torna extenuante em certos momentos. Já na última parte do concerto, “Ciática” para os que têm mais de 40 anos e a fabulosa “Alice”, talvez o único tema em que Mitó extravasa nos agudos. Sendo a última actuação fizeram questão de fazer agradecimentos a todas as pessoas que as acompanharam no projecto. Entre muitas, destacaram José Morais da Produtores e Associados, os técnicos de som e luz que fizeram os seus concertos, a família e os amigos que também ali estavam naquela noite. Durante o espectáculo Mitó apresentou “a Sandra com o seu acórdão”, e do qual se iria agora separar após 30 anos.

© Luis Macedo

Um encore em memória dos Sitiados, com “Amanhã” e um último tema, “Nova”, do seu primeiro álbum. As Señoritas saíram de palco mas vieram ter com os amigos e restante público ao foyer do auditório, onde podíamos adquirir os CD´s a um preço (quase) simbólico e pedir-lhes um autógrafo. Uma noite intimista que, apesar de tudo, não soube a despedida pois ainda acreditamos que continuarão a reinventar-se e a dar este glamour noir genuíno à música portuguesa. Por isso, até já Señoritas!

© Luis Macedo

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