Numa noite que mais parecia de verão, o RCA Club protagonizou um evento dedicado às sonoridades mais pesadas tendo como cabeças de cartaz os Bury Tomorrow. Antes deles, subiram ao palco duas bandas portuguesas, os Ary e os The Year.

Domingo à noite, 24 de fevereiro, uma fila enorme apresentava-se ao serviço à porta do RCA Club em Alvalade, o que desde logo deixava antever uma sala muito bem composta. Por volta das 19h30 é dada a autorização para que se pudesse entrar naquele que iria ser por algumas horas o salão de festas lisboeta do denominado metalcore. O preto é a cor dominante do espaço, mas quem disse que para se fazer uma festa é necessário contar sempre com uma explosão de cores alegres à nossa volta?! Os próprios “convidados” do festim também se revelaram não muito adeptos de outras cores que não o preto. A sala encheu, tanto a plateia como o balcão, estando assim reunidas as condições para uma noite inesquecível para aqueles que apreciam este estilo musical.

Os primeiros a subirem ao palco, pelas 20h15 em ponto, foram os Ary, banda electro-rock de Lisboa formada por Érika Martins (voz), Dénis Rhomays (guitarra), Ziig (baixo) e Dave (bateria). Desde logo se percebeu que os Ary caíram ali de para-quedas e que pouco tinham a ver com o que viria a seguir. Mas nem por isso deixaram de ser bem recebidos por quem enchia a sala, com o público a alinhar em todos os pedidos feitos pela vocalista. O uso de backing tracks ajuda a dar a tal tonalidade electro, fazendo até com que a banda tenha aqui e ali algumas pinceladas de sonoridades mais pop e, por isso, lembrando projetos como os Garbage ou os Guano Apes. De louvar a forma destemida com que Érika Martins se atirou à atuação, sem medos e com uma atitude que mais parece vinda de alguém que já anda nisto dos palcos há muitos anos. Enfrentou o público sem receios e a sua voz brilhou mais alto do que qualquer um dos outros instrumentos, até porque do balcão pouco mais se ouvia do que a bateria, as backing tracks e a voz. Resumiu-se a uma atuação de 30 minutos algo descontextualizada com o ambiente que se vivia na sala. Apesar disso, no último tema foi possível assistir ao primeiro mosh da noite.

Seguiram-se os The Year, vindos de Pombal, que não começaram propriamente bem, já que tiveram que subir ao palco para fazer o soudcheck à frente do público, o que não é nada agradável, nem para eles, nem para nós, que tivemos de levar com o típico “agora o bombo, agora o baixo…”. Os The Year, que lançaram o seu primeiro álbum, homónimo, em 2013, e que em 2018 editaram o EP Beasts, são formados por Johnny Disorder (voz), Rudwolf (guitarra), Kitz Afonso (bateria) BP (baixo) e Phil (guitarra). Olhando para eles, salta desde logo à vista a falta de homogeneidade nas suas vestimentas. Uma banda, para o ser, tem que ter um mínimo de pontos em comum nas roupas que os seus membros vestem e a melhor opção não será a de uns vestirem-se de preto e outros com as tais cores garridas. Sem dúvida que os The Year se adequaram mais ao ambiente e por isso o público mostrou-se bem mais entusiasmado, notando-se que para muitos aquelas músicas já não eram desconhecidas dos seus ouvidos. A energia vinda da banda era muita e por isso, e o facto de a sala estar cada vez mais cheia, a temperatura no espaço foi subindo. Pode-se dizer que os The Year cumpriram da melhor forma a sua missão de preparar o terreno para as estrelas da noite.

Seguem-se os preparativos para que o palco esteja em condições para receber os britânicos Bury Tomorrow, intervalo este que acabou por demorar mais tempo do que o desejado. A frente de cena mostrava-se totalmente livre de qualquer artefacto que pudesse prejudicar a performance do vocalista Daniel Winter Bates. Em seu redor, e com a missão de fazer a muralha sonora para as melodias vocais, tínhamos Davyd Winter Bates no baixo, Adam Jackson na bateria e Kristan Dawson e Jason Cameronnas nas guitarras. Antes do início do espetáculo, ouviram-se uma espécie de gritos vindos de trás do palco, talvez fosse Daniel Winter Bates a aquecer as suas cordas vocais. O concerto arranca e desde logo se percebe que o público que enchia a sala se tinha deslocado ao RCA Club sabendo muito bem o que ali se iria passar, dentro e fora do palco. Desde o primeiro acorde que os Bury Tomorrow tiveram um público fantástico a acompanhá-los por completo, quer fosse a cantar todas as canções do princípio ao fim, quer fosse no muito moshe e stage diving que se viu durante toda a atuação. Para quem estava no balcão havia dois espetáculos, o da banda em cima do palco e um outro dado pelo público. Notável o facto de apesar de todas aquelas movimentações aparentemente perigosas, existir uma forte preocupação das pessoas que desfrutam destas sonoridades de que ninguém se aleije. O respeito entre elas é enorme. O importante é desfrutar da música à sua maneira, sem que isso seja sinónimo de violência física. Daniel Winter Bates é daqueles vocalistas que deixa tudo em palco, dando tanto pelo espetáculo como o público que está ali para o ver e ouvir, revelando-se ao longo de todo o concerto como sendo uma pessoa extremamente simpática, muito comunicativa e com um tremendo sentido de humor. A certa altura, e perante tantos elogios ao público português, este respondeu com os habituais “Portugal, Portugal”, tendo a banda oferecido algumas garrafas de água às pessoas que se encontravam nas primeiras filas, que terão ficado bastante agradecidas já que a temperatura da sala não parava de aumentar.

O concerto arranca com “No Less Violent”, primeiro tema de Black Flame de 2018, o seu último álbum e pretexto para a atual digressão. Seguiu-se “Earthbound” do álbum com o mesmo nome de 2016, “Royal Blood” do disco The Union Of Crowns de 2012, onde se mantiveram para tocar “An Honourable Reign”. Regresso ao álbum do ano passado para interpretarem “More Than Mortal”, “Knife of Gold” e “The Age”. Regresso a 2016 com “Cemetery” e “Last Light”. Voltamos ao álbum mais recente para escutar “Overcast”. Os últimos três temas da noite foram “Man On Fire” do álbum Runes de 2014, “Lionheart” de 2012 e, para terminar, e depois de uma brincadeira da banda em relação ao que são os encores, “Black Flame”, no qual Daniel Winter Bates termina a cantar em cima do balcão do bar para depois ir até junto da mixing desk, onde ficou a cumprimentar e a tirar fotografias com as pessoas que simpaticamente o abordaram.

Para quem aprecia este género musical dificilmente poderia pedir mais do concerto dos Bury Tomorrow, já que ele teve todos os ingredientes necessários e de boa qualidade para que assim fosse. Uma sala cheia, um público fantástico e uma banda que dá tudo. É daquelas coisas que se podem dizer com quase 100% de certeza: nesta noite todos saíram plenamente satisfeitos do RCA Club.

One Comment

  1. Claro que o que interessa numa banda é a roupa dos musicos… comentem o que interessa e deixem-se de futilidades sff…

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