Se não for com alegria, é melhor que não seja”. Este verso de Vida Salgada, tema que partilha o nome do álbum de estreia de Filipe Sambado, causa sempre impacto, independentemente das vezes que se ouça a colorida pop de um dos mais acarinhados artistas portugueses dos últimos tempos.

Curiosamente, alegria é algo que não falta na sonoridade singular de Filipe Sambado, ou não conseguisse o músico oriundo de Elvas conjugar a pinta de quem é do indie com um doce toque a pop. Filipe Sambado e os Acompanhantes de Luxo, o seu mais recente trabalho, galardoou com a distinção de um dos melhores discos nacionais do ano de 2018.

Numa conversa pelos lados de Alcântara, mais precisamente no Village Underground, o Música em DX teve a oportunidade de conhecer melhor Filipe Sambado, desvendando o véu sobre a história do próprio, o futuro disco e a sua opinião sobre algumas das questões que mais inquietam o país.

Música em DX (MDX) – A história de Filipe Sambado reparte-se por Elvas, Lagos e Lisboa. Em quais destes trajetos é que nasceu o Filipe músico?

Filipe Sambado – Quando eu tinha 12/13 anos comecei a tentar tocar numa viola que me tinha sido oferecida pela minha avó, tinha eu 8 anos, mas foi por volta dos meus 15 anos que eu comecei a fazer música. Na altura, fazia uns raps com o pessoal do meu bairro, em Lagos, e juntávamo-nos para fazer umas rodas de beatbox e umas rimas. Quando vim para Lisboa, a coisa tornou-se um pouco mais séria com os Cochaise, que era uma banda que tinha com uns amigos mas que foi sofrendo algumas alterações nos seus elementos. Já para o final dos Cochaise, quando o Luís Barros e o C de Crocê (baterista e baixista dos Acompanhantes de Luxo) faziam parte da formação, eu comecei a lançar os meus primeiros EPS e foi com o lançamento do Oops, Fiz isto Outra Vez que isto começou a ficar um pouco mais mediático.

MDX – Foi um pouco a partir da Vida Salgada que o teu nome começou a causar borborinho. Quando é que se deu aquele ‘choque’ de teres algo grande em mãos?

F.S. – Não sei, porque bom resultado ou não, eu ia-me aguentando pelo insucesso, não parava de fazer coisas e não era por não estar a dar que eu parava. Já com o Oops, Fiz isto Outra Vez a coisa mudou um pouco de figura; lembro-me de ter dado um concerto na Zé dos Bois com o Luís Severo e o Alec Rein, em que fizemos um matiné os três juntos, e depois disso a “Tabaco” começou a passar na rádio. Pouco depois, lancei o Vida Salgada, que correu bastante bem, e mais tarde surgiu o convite da Valentim de Carvalho.

MDX – Como é que se deu esse salto para uma editora como a Valentim de Carvalho? 

F.S. – O Rui Portulez tem estado à procura de artistas que fossem interessantes ao ponto de se juntar ao elenco da Valentim de Carvalho; eu, a Joana Espadinha, os The Glockenwise… Num concerto meu no Lounge, ele apareceu por lá e fez-me o convite para se ter uma conversa ‘mais séria’.

MDX – O facto de teres assinado por uma grande editora afectou em alguma coisa a tua música? Isto é, sentiste uma responsabilidade acrescida?

F.S. – Não, porque aquilo que ambos os lados querem fazer é igual. Eu assinei um contrato de quatro discos e o único ‘problema’ seria se eu, a meio do contrato, não quisesse fazer mais discos. Tirando isso, todos os pontos do contrato foram acertados de forma a respeitar ambas as partes.

MDX – Como é que se dá o teu processo de composição de temas? Surgem naturalmente ou jogas muito por influências de outros artistas?

F.S. – Sou muito influenciável, mas isto em espaços de 24 horas, ou seja, num dia posso estar a ouvir Rosalía e a querer fazer um disco como o dela, como no dia seguinte estou a ouvir Fausto ou My Bloody Valentine. O resultado final passa então pelas alterações que as músicas vão tendo em função dessas volatilidades da música, isto é, componho-as, e quando vou para o processo de arranjo, se calhar já tenho uma ideia diferente da que no início, e esta acaba por ir ganhando contornos um pouco diferentes. Porém, quando me começo a deparar com semelhanças, aí já ponho um travão.

MDX – Voltando às comparações entre os teus primeiros trabalhos e o mais recente: o acréscimo de “os Acompanhantes de Luxo” salta logo à vista. Como é que se deu esta inclusão?

F.S. – Os Acompanhantes de Luxo já tocavam comigo ao vivo e nós estávamos a gostar do resultado, o que levou a que houvesse uma vontade de fazer um disco juntos, em que a participação deles fosse mais ativa, isto a nível de composição.

MDX – Esse disco foi maioritariamente feito por ti e eles acrescentaram o que restava ou foi tudo feito em conjunto?

F.S – As canções de base eram minhas, e o que eles traziam era o seu input tanto a nível de instrumentos como em alterações, e isso levou com que trabalhássemos como um projeto de banda normal. Quando as coisas estavam a ir para um caminho que não me interessavam, eu dizia que não, mas eu levava sempre sugestões para os instrumentos deles. Nesse processo, havia também uma necessidade de mudar certas coisas estruturais, porque no momento em que apareciam certas melodias ou arranjos, tinha que se arranjar espaço para que a banda coubesse, e as canções iam-se assim moldando. A diferença do cunho dos Acompanhantes de Luxo nota-se sobretudo quando eu dou um concerto a solo, em que toco as canções antes de eles lá meterem os dedos.

MDX – Os teus anteriores trabalhos eram discos muito pessoais, muito emotivos. Neste mais recente, dada a mão de terceiros, essa conotação deixou de se verificar?

F.S. – A nível do conteúdo escrito, é um processo natural de perceção daquilo que nos rodeia. Eu comecei a sentir essa necessidade porque mudei algumas coisas na minha maneira de estar e obrigaram-me a ter algum posicionamento nas coisas; deparei-me com certos assuntos. O que eu quero dizer com isto é que quando começas a ter uma vida, a ter certo tipo de alicerces, as tuas preocupações começam a mudar: se tens que tomar conta de ti, para além das tuas relações amorosas e do teu coração partido, se tens que te sustentar, se tens que lidar com as tuas decisões sociais em termos laborais, … a maneira como se está perante certos assuntos obrigam-me a tomar uma posição, e naturalmente que essa se torna num resultado escrito. A nível musical, aquilo que muda é a experiência de tornar o meu trabalho cada vez mais pop, isto a nível de estética, porque comunicativamente já tem um lado interessante, e isso é o que tem sido mais divertido, de colocar a minha sonoridade cada vez mais colorida.

MDX – Ouve-se por aí que o teu terceiro disco já está bem composto. Há uma janela de lançamento?

F.S. – Por volta de Setembro.

MDX – Nesse caso, e levantando um pouco o véu sobre o próximo disco, o que é que distingue essas novas canções das anteriores?

F.S. – É um disco que estou a fazer de forma um pouco mais sozinha do que em comparação com o anterior. Conto com o apoio de algumas pessoas, é um facto, mas é um disco que gostava de estruturá-lo sozinho. É um disco com beats, formalizando-se depois a parte toda na guitarra e em que tive um trabalho mais exigente do que era habitual. Vai também viver muito à base de arranjos de flauta e de segundas vozes. Eu tentei fechá-lo um pouco a nível da estrutura para que depois pudesse ter um trabalho formal mais confortável. Também fiz uma pesquisa na utilização de alguns ritmos portugueses e como é que estes se podem transformar em coisas mais interessantes para os dias de hoje, isto a nível de pop, urban beats ou R&B.

MDX – De um modo geral, tens uma boa relação com os teus fãs e, recentemente, disponibilizaste o Vida Salgada pelas redes sociais. São actos como estes que ajudam a fortalecer essa relação?

F.S. – Eu gosto de fazer esse tipo de coisas. Com o próximo disco, vai ser mais complicado disponibilizá-los gratuitamente porque não estão na minha mão. Acho que se criam ligações com as primeiras filas dos concertos, e eu sou uma pessoa pouco habituado a tocar em grandes salas, algo que se vê facilmente pela minha facilidade em comunicar com salas pequenas. Eu prefiro comunicar na proximidade por achar que a cumplicidade e a paridade são importantes para uma verdadeira proximidade.

MDX – Por falar em proximidade para o público, lembro-me de um concerto teu na Galeria Zé dos Bois em que te apresentaste, literalmente, todo a nu…

F.S. – Foi um naked na onda artística da ligação com o público, do género, “quando tiras tudo, o que é que queres dizer?”. Quando vestes coisas como um certo tipo de roupas, começas a comunicar de outra forma, mas nesse caso, como seria se as despisses? Como é que passas a comunicar? Foi dentro dessa linha de pensamento que atuei todo nu. Na altura, foi também a apresentação do disco (Filipe Sambado e os Acompanhantes de Luxo) que ainda não tinha saída, ou seja, foram só inéditos e eu toquei-o na íntegra; foi uma prova de fogo, foi tocar músicas totalmente novas, de costas para o público e todo nu.

MDX – Quem te segue pelas redes sociais, tem uma noção da tua forte conotação social face a questões como o racismo ou sexualidade. Dado o teu mediatismo enquanto artista, sentes que consegues usar esse estatuto para facilitar o alcance a pessoas?

F.S. – Não sei se está relacionado com a dimensão do público que eu tenho – acho que não tenho assim tantos seguidores quanto isso – mas sinto que há uma responsabilidade maior quando começas a tornar-te numa figura mediática, e é a partir daí que as pessoas começam a interessar-se por aquilo que tu tens a dizer.

MDX – Na tua opinião, e com base em acontecimentos recentes, qual é o estado do racismo em Portugal?

F.S. – No caso do racismo, nós portugueses, desde que nos libertámos das colónias que tínhamos, criámos condições muito miseráveis para aqueles que cá estavam e para os que vieram; enfiamo-los em bairros sociais e tivemos umas medidas de inserção social muito pequeninas. Há muitos portugueses a passar muitas dificuldades a achar que outros portugueses, por terem tido direito a essas medidas de inserção, são vistos como privilegiados. Existe uma crença política que, ao permitir-se que todas as pessoas tenham a mesma capacidade de integração à escola ou ao poder de compra, que progressivamente consigam incorrer em melhores práticas e tornar-se mais próximos daquilo que nós vemos como ‘civismo’. Há esta ideia, e isto cria um discurso populista muito pesado, de que as pessoas menos informadas acham que os ‘pretos’ têm direito a coisas que nós não temos e aquilo que eles deviam fazer era ir trabalhar ou ir para a terra deles. Esta questão do Bairro da Jamaica, que tanto se tem falado, traz à baila novamente a questão do racismo ao ponto de nos questionarmos: será que o ano passado havia racismo em Portugal? Por não se falar dele? Agora que se fala, será que há mais racismo? Ou simplesmente passou a estar a olhos vistos? Há leis que privilegiam o ‘branco’ e não uma pessoa que tenha uma aparência que não seja ‘branca’; uma das coisas que a polícia tem o direito de fazer é chegar ao pé de ti, em caso de suspeita, e pedir a tua documentação. E quais são as pessoas a quem se pede documentação? Pessoas que não te parecem ‘brancas’: pessoas do médio oriente, europeus de leste, ciganas, etc. Não se pede a ‘brancos’. E isto é daquelas coisas que pode transmitir que qualquer ‘preto’, chinês ou nepalês é um criminoso, e muda a maneira de estar das pessoas.

MDX – O teu visual caracteriza-se pelo uso de maquilhagens, vestidos e batons. Quando é que começaste a sentir-te à vontade para te vestires de tal forma?

F.S. – Eu não sou uma pessoa de gostar muito de chocar os outros. Aliás, eu tenho um lado um pouco tímido, o que acaba até por ser contraditório. Eu gosto de roupa, e sempre quis investir em certas roupas, e houve muita coisa que ao longo da vida ia vestindo um bocado em casa naquela de “epá gosto muito, mas tenho vergonha”. À medida que me fui desenvolvendo e crescendo artisticamente, ia pondo às vezes em prática certas decisões que tinha em casa e assumindo que em palco podia fazê-las. Dada a recetividade em palco, apercebi-me que também as podia fazer pelo dia-a-dia. No fundo, isto começou com o pintar as unhas, no início por brincadeira e por gostar, e depois passou para batons até ao ponto em que fui ficando à vontade com isso.

MDX – Dado o meio conservador existente em Elvas e Lagos, como é que as pessoas com quem crescente lidam com este look? 

F.S. – Lá não faria isso, não tinha essa coragem. Eu sempre gostei de vestir umas coisas um pouco mais fora do comum, mas não incorrendo em certas coisas, por exemplo em escolhas de roupas de outros géneros. Escolheres vestires uma saia ou vestires um vestido é um bocado mais concreto na avaliação dos outros. Todas essas coisas, esses percursos da moda, são importantes, que é, tu dás um nome a uma peça de roupa, passas a chamar-lhe saia, passas a chamar vestido, por uma razão. Mas a partir do momento em que ela começa a ganhar uma conotação de género e passa a ser só para aquelas pessoas, parece que fica, torna-se uma coisa transgressora quando é vestida pelo outro género. Tu usas porque achas que fica fixe em ti, porque te apetece ir por esse caminho. De repente dá vontade de criares essa nova conjuntura.

MDX – Já alguma foste abordado, na rua ou nas redes sociais, por pessoas que se revêm em ti ou na tua posição? Como um exemplo a seguir?

F.S. – Sim, já me aconteceu, não muitas vezes, mas já me aconteceu. É bom que isso aconteça, mas eu não me sinto um ponto de charneira nesse tema, não me sinto uma individualidade de viragem que as pessoas possam ser mais assim. Eu acho que estou é inserido num período que é assim e coincide que eu esteja a fazer isto numa altura em que isto está a acontecer. Eu não me sinto assim. Não me sinto nada disruptivo nessas coisas, nem catalisador disso

MDX – Abordando agora o Festival Emergente, festival este que se destina a publicitar bandas emergentes. Consideras que já fazia falta um evento deste género? Pelo menos, com tanto mediatismo?

F.S. – Há imensos festivais assim por Portugal fora. Eu acho que o Emergente vem como mais uma aposta e eu gosto muito que existam estes eventos fora do período de festivais, acho que a enchente do Verão é a única maneira de que as pessoas consumam música de alguma maneira porque esse período é muito morto de outra maneira, mas acho mesmo positivo que se façam nesta altura do ano. É um festival que acaba por ir na linha de por exemplo uns Bons Sons, que aposta na força que este país tem vindo a fazer tão bem que é aliar-se à quantidade de bandas com muita qualidade pelo país fora. Na minha opinião, eu acho que há retorno, há uma convicção maior para os promotores em quererem fazer festivais maioritariamente ou exclusivamente portugueses, porque há finalmente público para isso.

MDX – Algumas bandas que vão subir a palco do Festival Emergente, vêem-te como uma referência, sendo confessos admiradores do teu trabalho. Que palavra amiga, que conselho é que gostarias de lhes dar?

F.S. – Não se enervem, especialmente com o público, aquele que não está lá para vos ver, mas sim outras bandas. Todavia, haverá sempre alguém que está lá para vocês; foquem-se neste, naquele que está por vocês e que quer curtir com vocês.

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