Os portugueses Beautify Junkyards apresentaram-se na noite de sábado, dia 19 de janeiro, no Musicbox em Lisboa, numa mescla, como é todo o seu universo, que envolveu a apresentação de um vídeo, ritmos e sonoridades de diferentes pontos do planeta e uma convidada de peso, a anglo-brasileira Nina Miranda, cantora que ficou conhecida mundialmente pelo tema “Underwater Love”, com os Smoke City.

Ao público que tencionava ir até ao Musicbox foi solicitado estarem na sala lisboeta do Cais do Sodré à hora marcada para a abertura das portas, 21h30. Assim, não foi com surpresa que chegados um pouco depois das nove da noite pudemos encontrar uma massa de pessoas considerável à espera da hora para poder entrar.

À hora prevista, as portas abriram-se para que entrássemos na experiência dos sonhos tecnicolor promovida pelos Beautify Junkyards, em que se pretendia, ou pelo menos foi anunciada como tal, realizar uma jornada musical e visual que provocasse reações em todos os nossos sentidos, unindo numa mesma noite universos teoricamente diferentes e distantes uns dos outros. A ideia também passava por defender o princípio de que não devem existir muros entre os diferentes universos e culturas, um pouco puxando para o Cais do Sodré situações que estão a ocorrer do outro lado do Atlântico.

O álbum de estreia dos portugueses Beautify Junkyards, lançado em 2013, era composto na integra por versões de música folk psicadélica dos anos 60 e 70. Esse foi o ponto de partida para se aventurarem mais tarde num disco feito de canções originais. The Beast Shouted Love, de 2015, confirmou os gostos e as influências da banda, que no fundo são uma lista interminável de estilos e de abordagens musicais. Em 2018, editaram o segundo álbum de originais, de nome The Invisible World of Beautify Junkyards, que confirmou aquilo que o registo anterior já tinha mostrado. Ouvir a música feita por este projeto é como fazer uma viagem por diferentes paisagens e realidades, por vezes várias em simultâneo, e tanto podemos estar em Alfama como numa praia do Brasil, ou numa discoteca a dançar música eletrónica ou até mesmo a observar uma das belas paisagens que a Irlanda nos oferece. Cada música corresponde a uma espécie de quadro, pintado com a maior das liberdades, até porque as suas canções resultam de improvisações em que o ambiente em redor acaba por influenciar o resultado final.

Quanto entrámos no espaço do Musicbox, já se encontrava a rodar o vídeo “hauntologia tropicalista”, que no fundo era uma compilação de imagens de diferentes arquivos, inclusive da RTP, que apresentados de seguida não ofereciam qualquer espécie de fio condutor entre eles. Logo aqui, passa-se a ideia de que o que se pretende é exercer o direito de se ser livre de se fazer o que muito bem se entender fazer, mesmo que não faça grande sentido.

Pouco depois das 22h, o sexteto lisboeta subiu ao palco para apresentar temas do seu mais recente álbum, mas também temas do anterior, como “Pedras na Areia na Terra do Sol”. A sala estava bem composta, com um público que já anda nisto de ver concertos há algum tempo, mas não se encontrava esgotada. A música desta banda ao vivo resulta como uma espécie de criação de ambientes diversos na cabeça das pessoas, fazendo com que façamos uma série de viagens pelo planeta sem nunca sairmos do mesmo espaço, faltando, no entanto, alguma objetividade e assertividade nas suas canções, fazendo, por vezes, com que essas viagens acabem em lado nenhum.

João Branco Kyron é um dos vocalistas, tocando também teclados em alguns temas, e também o principal mestre de cerimónias. É ele quem mais comunica com o público, destacando-se o momento em que se lembra, já com o concerto a decorrer, de que se tinha esquecido de acender o incenso, fazendo-o naquele momento, pedindo para isso que alguém do público lhe ceda um isqueiro, ao mesmo tempo que lê o que vem escrito na respetiva embalagem. Incenso ligado e imediatamente o seu cheiro chega até nós, fazendo sentido em simultâneo com a música que vai saindo das colunas. A sua imagem e atitude fazem-nos pensar que talvez ele tenha vindo de um desenhado animado qualquer, estando mal quando decide colocar política num evento que não o era, falando como se fosse o dono da verdade. Fica-se a pensar na utilidade em teimar na realização de eleições livres e democráticas, talvez bastasse perguntar a uma destas almas iluminadas o que é o melhor para o mundo. Eles sabem tudo e os outros são uns idiotas! Também se fica a pensar que para ele só interessa aquilo que vem do Brasil, país tão elogiado na obra da banda, que vai ao encontro da sua forma de pensar, o resto cai tudo no reino da idiotice.

Rita Vian é a outra vocalista, por vezes também vai para os teclados, e a sua postura algo distraída e displicente nos intervalos das canções é compensada pela sua voz límpida e pela forma serena com que interpreta os temas, a deixar-nos a pensar que alguém com estas caraterísticas precisaria de um projeto com caraterísticas diferentes para deitar cá para fora todo o seu potencial.

João Moreira dedica-se principalmente à guitarra acústica, mas esta passa quase despercebida durante todo o concerto. Sergue Ra e António Watts fazem a secção rítmica, com o segundo a destacar-se por usar uma bateria pouco convencional. Helena Espvall é o elemento mais recente da banda, tocando violoncelo e guitarra elétrica, contribuindo também para o abafar da guitarra acústica.

Durante todo o concerto, as trocas de instrumentos são uma constante, como também o constante chamar de atenção do responsável pelo som por não estarem a ouvir o que desejavam das respetivas munições de palco (não fizeram o soundcheck?!).

Na parte final do espetáculo chamaram então Nina Miranda para junto de si e nessa altura apercebemo-nos de que muitos dos que estavam na sala lisboeta, tiveram na anglo-brasileira o estimulante necessário para saírem de casa numa noite de chuva. Nina Miranda atingiu o seu auge em termos de sucesso musical nos anos 90, mas isso não impede que com a sua entrada em palco a coisa se tenha elevado alguns degraus. A senhora continua a cantar de forma bastante convincente e a ter uma presença em palco bastante enérgica, a revelar que ainda há ali muito prazer naquilo que se faz.

A certa altura, como aliás a própria Rita Vian anunciou, veio o grande momento da noite, quando os Beautify Junkyards e Nina Miranda interpretaram em conjunto “Underwater Love”, uma canção enorme, daquelas que fazem uma carreira, como é aqui o caso.

Concerto terminado e fica a interrogação na sala, o que virá a seguir? Talvez tivesse feito algum sentido os Beautify Junkyards terem informado, no final da sua atuação, o que se iria passar depois do intervalo. Como não o fizeram, ficaram uma série de interrogações no ar, levando até algumas pessoas a abandonarem a sala.

Esperou-se alguns minutos e surge então Nina Miranda, agora acompanhada por um DJ, um acompanhante vocal e António Watts, baterista dos Beautify Junkyards, seguindo este mais uma lógica de improvisação no acompanhamento das canções. A anglo-brasileira confirmou aquilo que já tinha revelado na parte final do concerto da banda portuguesa. A sua energia em palco é contagiosa e só é pena não ter mais canções no seu repertório com o potencial do seu grande hit. Mas também ela a certa altura decidiu dar um toque político à coisa e criticar negativamente o atual presidente brasileiro, esquecendo-se de que ele foi eleito livremente pelos seus compatriotas, mas isso é um pequeno detalhe para quem se acha dono da verdade.

No final fica a ideia de uma noite algo confusa, com muita coisa atabalhoada e sem grande ligação entre si, o que é criticável já que quando se tem Rita Vian, Nina Miranda e uma secção rítmica tão eficiente como a dos Beautify Junkyards num mesmo evento, exige-se muito mais.

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