Há quem goste de ateimar que o ‘rock morreu’. Porém, cinco minutos de pesquisa pela Internet e é fácil de deduzir que este argumento é falacioso: o rock está vivo e recomenda-se. Prova disso, é Steven Wilson, guitarrista britânico que mantém bem viva a essência do rock, isto na sua vertente mais ‘progressive’.

Ao longo de três décadas, Steven Wilson editou mais de cinquenta (!) álbuns, tanto a solo ou como guitarrista dos Porcupine Tree; perante estes números, há quem o apelida como o “artista britânico de maior sucesso de quem nunca se ouviu falar”. Mas lá está, quem dá a cara a esses ‘nunca’, são os mesmos que afirmam o estado moribundo do rock, pois os outros, esses encheram a Sala Tejo do Altice Arena para acolher novamente Steven Wilson.

Quase um ano depois da sua última passagem por Portugal, precisamente pela Sala Tejo, Steven Wilson regressou a Lisboa, no passado dia 15, ainda em prol da sua tournée referente a To The Bone, o mais recente disco do artista e o mais bem-sucedido até à data.

Como o próprio Wilson confidenciaria a meio do concerto, o espectáculo remodelou-se, com a componente tecnológica e visual capaz de surpreender qualquer um. Fazendo-se jus às suas palavras, logo à entrada da sala sobressai uma cortina opaca a cobrir todo o palco, que serviria posteriormente como uma tela para diversões projeções laser e vídeos – ex: dueto com Ninet Tayeb em “Pariah”, um dos temas iniciais.

Logo após o doce dueto (virtual) com a cantora israelita, seguiu-se uma eletrizante pujança encabeçada por “Home Invasion” e “The Creator Has a Mastertape”(Porcupine Tree), momentos em que as guitarras de Steven Wilson transmitiam a ideia de serem extensões do corpo do artista, dada a naturalidade com que as manuseava e fazia delas aquilo que bem entendesse. Mas não era só com os instrumentos de seis cordas que Wilson encantava, ou não fosse o assombrante piano de “Refuge”, tocado pelo próprio, capaz de arrepiar qualquer um.

Apesar dos sonantes estrondos que ameaçavam levar a Sala Tejo ao colapso, a verdade é que poucos foram aqueles que permitiram aos seus corpos manifestarem comportamentos expectáveis de um concerto ‘de rock’, como o headbanging, air guitars, mosh e afins. Esta lacuna não passou despercebida aos olhos de Steven Wilson; “É bom ver-vos assim tão parados, porque sei que estão a interiorizar a minha música, que a estão a sentir”, confidenciou o músico. E verdade seja dita, tinha toda a razão.

Múltiplas foram as ocasiões em que Wilson se direcionou para a plateia: ora fosse para perguntar quem do público tinha menos de 25 anos, se havia repetentes na tournée de To The Bone ou até para falar no declínio do uso de uma guitarra na música mainstream dos dias de hoje. Uma destas tiradas serviria de mote a “Same Asylum as Before”, onde Wilson, elogiando guitarristas icónicos como Hendrix ou Page, fala como os grandes não precisam de olhar para a guitarra enquanto a tocam, tentando recriar esse ritual no ‘solo sexy’ do tema em questão. E claro, saiu-se lindamente.

Fugindo um pouco ao que é lei num concerto, este teve direito a um (merecido) descanso de vinte minutos, pausa ideal para a Sala Tejo se hidratar com cevada. Num regresso marcado ao som de “No Twilight Within the Courts of the Sun”, com direito a entrada e solos individuais para os excelentes músicos que acompanham Wilson, o ritmo alucinante previamente implementado não tardou em surgir de novo à baila, com os vibrantes teclados de “Permanating”, quase reminiscentes de ABBA, a levar meia sala a bater pé.

Lisboa foi a primeira cidade a receber esta tournée, mas na altura ainda não estávamos totalmente familiarizados com ela. Por isso, é bom estar de volta para vos apresentar um espetáculo ainda mais competente”, confidenciou Wilson logo após a “Song of I”, novamente com direito a dueto ‘virtual’ – desta feita, com Sophie Hunger.

Comparativamente com Janeiro passado, sentiram-se mudanças no espectáculo de Steven Wilson, com essas alterações a tomarem particular ênfase nesta segunda parte da noite. Num alinhamento que passou pelo melhor da carreira do britânico, feito de surpresas, como “Vermillioncore” e “Sleep Together” (Porcupine Tree), e de instantes ecléticos, com o intimismo de “Song of Unborn” a dar o corpo ao manifesto, a celebração ao rock progressivo de Steven Wilson tudo teve de belo.

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