A relação entre os japoneses Kikagaku Moyo e o nosso paraíso plantado à beira mar estreitou-se um pouco mais durante este ano de 2018. Em Abril deste ano quando estava a decorrer o Festival Mil, soubemos que a banda se encontrava a gravar num estúdio em Lisboa. Não foi difícil estabelecer contacto e conseguimos agendar uma entrevista informal que acabou por decorrer entre e durante os vários concertos que aconteciam no MIL. Encontrámos Go Kurosawa, o baterista, no B.Leza a ver o concerto de Bruno Pernadas e daí seguimos até ao Cais do Sodré e aí entre concertos falámos sobre os Kikagaku Moyo e Guruguru Brain e o porquê de Masana Temples ser gravado em Lisboa. Daqui a dois dias algumas centenas de afortunados vão poder ver a banda na Galeria Zé dos Bois tocar as músicas do mais recente Masana Temples e revisitar os álbuns anteriores, duas das melhores noites de 2018 estão prestes a acontecer.

Música em DX (MDX) – Conseguiram arranjar a guitara e o violoncelo que precisavam para as gravações?

Go – Sim. Conheces o Jacco Gardner? Nós conhecemo-nos e ele emprestou-nos uma guitarra e o violoncelo também apareceu.

MDX – No ano passado os Kikaku Moyo tocaram no SonicBlast entre os Monolord e os Elder, naquele que foi um dos mais celebrados concertos dessa edição.

Go – Lembro-me bem, foi muito estranho mas ao mesmo tempo espectacular porque ali estávamos nós entre bandas de stoner e doom. Depois de terminarmos o concerto e a outra banda ter começado é que de repente ficámos sem perceber muito bem se as coisas tinham corrido realmente bem.

MDX – Acharam que não ia correr bem ou que não se encaixavam?

Go – Nunca pensamos muito se encaixamos ou não e a verdade é que ali aconteceu tudo muito rápido, tínhamos vindo da Suécia e partimos pouco depois porque tínhamos outro concerto no dia a seguir, por isso nem percebemos bem, mas a vibração do público era muito boa. Estivémos um bocado na piscina, fomos lá ver o que se passava, não nadámos mas fomos ver. Tenho um amigo que toca nos Church of Misery e ele tinha-me dito que aquilo era fantástico e que tínhamos de ir ver o palco na piscina. Havia muita gente mas era confortável.

MDX – Como começaram os Kikagaku Moyo?

Go – Em 2012, mas éramos apenas dois…eu nunca tinha tocado bateria, eu queria tocar bateria. Eu queria uma banda com pessoas que nunca tivessem tocado antes. O Tomo tinha voltado e juntou-se a nós e as coisas foram acontecendo. Mas as coisas no Japão não acontecem como na Europa ou nos Estados Unidos. Normalmente usamos os materiais dos estúdios e das salas de ensaio. Muito poucas pessoas têm os seus próprios instrumentos. Na verdade as coisas são muito diferentes e nós queríamos muito mudar o sistema no Japão, porque em primeiro lugar, no Japão nós temos de pagar para tocar e isso às vezes torna-se um obstáculo muito grande para que as bandas possam crescer.

MDX – É por esse motivo que tocam tanto fora do Japão quase desde o inicio?

Go – Sem dúvida. É tudo caríssimo. Os instrumentos, ensaiar e tudo o mais e depois quando tens um concerto agendado tens de pagar para o poder fazer. Só que no Japão é assim que as coisas são feitas. Temos de pagar qualquer coisa como 400€ para tocar.

MDX – E como se vive da música se se tem de pagar para poder tocar?

Go – Se forem uma banda grande conseguem fazer dinheiro, de outra forma não.

MDX – Mas aqui é igual, apenas as bandas com alguma dimensão conseguem fazer dinheiro. As restantes fazem dinheiro para ir vivendo e continuar a tocar.

Go – No Japão não existe essa situação intermédia. Ou és uma banda grande e fazes dinheiro ou então pagas para tocar.

MDX – Entretanto chegámos ao Sabotage Club, já conheces o clube?

Go – Ainda não, mas venho cá com os Minami Deutsch em breve.

Entrámos no Sabotage e fomos ver o concerto de Corine que estava integrada na programação do MIL Lisboa que estava a decorrer nesse momento.

MDX – Os Minami Deutsch aconteceram mais ou menos como os Kikagaku Moyo ou foi diferente?

Go – As circunstâncias foram diferentes mas o sentido é mais ou menos o mesmo. Onde crescemos existia um estúdio onde podíamos tocar de borla, mas nós só o usávamos da meia noite em diante, mas nós fazíamos isso um pouco para escapar da realidade.

MDX – Foi devido a toda a dificuldade associada ao trabalho das bandas no Japão que começou a GuruGuru Brain?

Go – Nós queríamos mudar o sistema em Tóquio, questionar realmente; “Porque é que temos de pagar para tocar?”. Não precisamos que nos paguem para tocar, mas também não aceitamos que temos de pagar para tocar. No Japão os estúdios e as salas de espectáculos são os únicos donos do material. Backline, instrumentos, tudo, guitarras, pedais, baterias….Eu por exemplo só tenho as minhas baquetas. Eu queria mudar aquilo. Decidimos começar a organizar concertos e explicar que pagar para tocar não faz sentido. Eu vivi nos Estados Unidos, e lá como na maioria dos locais por onde temos passado não acontece nada do que acontece em Tóquio.

MDX – Viajar é provavelmente a melhor forma de medirmos o nível de conforto que a nosso local de eleição para viver nos pode proporcionar realmente, por conhecermos outras realidades e outras formas de fazer as coisas.

Go – Sim é um bocado o que acontece connosco. Nós começámos a fazer concertos. Quanto custa um concerto aqui? 8/10 € pelo que vi e vi também algumas coisas a 20€. Em Tóquio um concerto de uma banda local custa o equivalente a cerca de 25€, mas se fôr uma banda ou um artista que tenha de voar para lá, os preços já rondam os 75€.Talvez porque Tóquio é mesmo muito grande, imagina que é como se cada estação de comboio fosse uma cidade, mas é tudo na mesma cidade e está tudo muito ligado e existem muitas salas de concertos. Todos os dias existem dezenas de concertos, de tal forma que as pessoas nem sabem bem onde ir. Creio que depois dos anos 80 houve um boom de artistas e bandas muito grande. Assim pessoas que não se importam muito com a cena musical começaram a ter salas de concertos porque perceberam que podiam ganhar dinheiro com isso e como não querem realmente saber da música mas apenas do dinheiro que a música lhes pode dar a ganhar as coisas tornam-se extremamente difíceis para as bandas.

O olhar de Go vagueia pela rua cor de rosa e fixa-se na porta do Music Box. 

Go – Fui ver um concerto ao Music Box na semana passada, não me lembro do nome da banda, é a banda do baterista do Bruno, Bruno Pernadas, conheces?

MDX – Sim.

Go – O Bruno está a produzir o nosso disco.

MDX – Já ia chegar à parte sobre a razão de terem escolhido Lisboa para gravar o novo disco. 

Go – Nós queríamos mesmo gravar com o Bruno… Gostámos mesmo muito do disco dele e fomos pesquisar. Quando percebemos que ele é músico de jazz e professor procurámos o contacto dele e arriscámos, perguntámos se estaria disposto a produzir o nosso disco. Ele não nos conhecia, e foi muito bom gravar assim com alguém com uma bagagem tão diferente da nossa e que ainda para mais não é influenciado pelo que já fizemos. Acabámos de gravar e estamos muito felizes com o resultado. Acabámos a tour e agora estamos aqui a gravar, dois de nós estão em Amesterdão e os restantes no Japão e este é um ponto intermédio entre tudo nas nossas vidas. Eu mudei-me à pouco tempo e ainda estou a descobrir Amesterdão, ainda sou um turista, um pouco como aqui em Lisboa.

MDX  – Dizias há pouco que nenhum de vós sabia tocar quando começaram os Kikagaku Moyo. Foi uma aventura completa ou alguns de vós têm formação musical?

Go – Eu toquei piano quando era pequeno porque a minha mãe é professora de música. Também toquei trompete e fiz parte de algumas orquestras juvenis, mas nunca tinha tocado bateria. O meu irmão que estava na Índia quando começámos, toca guitarra e quando começámos os Kikagaku Moyo ele voltou. Fizemos alguns concertos em Tóquio mas chegámos rapidamente à conclusão que as coisas não iriam avançar muito mais se continuássemos a tocar em Tóquio. Decidimos fazer uma tour, primeiro na Austrália, duas semanas. Houve alguém que nos viu na Austrália e nos convidou para um festival nos Estados Unidos e as coisas cresceram a partir daí.

MDX – Há três anos quando vieram há Galeria Zé dos Bois já se tinham apercebido do quão acarinhados e seguidos são pelo público português?

Go – Nas várias plataformas nós conseguimos ver quais são os países onde somos mais ouvidos e Portugal, quase desde o início foi dos países onde tivemos mais gente a seguir o que fazemos. Quando tocámos na ZDB sentimos logo que as coisas aqui são diferentes, a vibração é diferente da maioria dos sítios que temos conhecido, como se aquilo que nos inspirou fosse bastante semelhante ao que mantém o espírito das pessoas aqui em Portugal.

MDX – Os Kikagaku Moyo são uma coisa muito Do It Yourself… o artwork dos vossos álbuns segue essa linha?

Go – Somos sempre nós que fazemos tudo. A própria tour somos nós que a marcamos. Pesquisamos algumas bandas, falamos com alguns amigos que vamos fazendo e tentamos perceber que locais são melhores e adequados e falamos directamente com quem gere as salas para fazer as coisas acontecer. Na primeira tour gastámos imenso tempo e dinheiro.

MDX – Uma espécie de investimento no futuro na verdade porque agora já vos contactam para tocar. 

Go – Sim, mais ou menos. Mas é assim a cena DIY, e nós gostamos dessa independência, sermos nós a controlar e a decidir o que fazer. Dá muito trabalho mas é uma liberdade muito grande.

MDX – Podemos esperar um concerto vosso em Portugal ainda este ano?

Go – Sem dúvida. Só não tocamos desta vez porque não era mesmo o momento, mas voltamos em breve.

Agora certas são as entretanto confirmadas datas dos Kikagaku Moyo em Portugal nos próximos dias. Amanhã no Auditório CCOP no Porto, e 2ªfeira e 3ªfeira numa esgotadíssima Galeria Zé dos Bois em Lisboa nestes dois dias.

Fotografia (capa) – Luis Sousa

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