O bom de ter memória selectiva é que os momentos bons e os mais intensos permanecem mais tempo dentro de nós e, ao pensarmos neles, automaticamente o corpo fica dormente. Era numa espécie de dormência boa que me encontrava na passada noite de Sexta-feira, dia 12 de Outubro. Esta dormência provinha da lembrança do magnífico momento que havia passado na companhia de Emma Ruth Rundle, no ano passado, e por desejar voltar a sentir o mesmo no MusicBox com o regresso dela.

Desta feita não vinha sozinha nem para a noite nem para o palco. Quem abriu as hostes de modo quente e denso e à hora marcada foram os seus amigos e cúmplices Jay Jayle. Um MusicBox escuro acompanhado de uma luz avermelhada e quente espalhava pelo ambiente uma densidade pura e pesada que serviria na perfeição à música que ouviríamos sair pelas colunas, uma americana negra e pesada. A atmosfera sonora rapidamente nos absorveu e prendeu num sítio escuro e demasiado intenso. Ao fechar os olhos, podíamos percorrer trilhos complexos entre bosques iluminados pela luz esfumaçada de uma lua cheia. O coração saltava dentro do corpo e os pulmões quase paravam. Uma voz meio Scott Kelly meio Mark Lanegan consegue agarrar nos nossos corações com força suficiente para termos de respirar profundamente de seguida para nos libertar-nos de um sufoco que até nos sabe bem. O baixo perturba e as teclas trazem uma harmonia negra às faixas longas e densas que nos incomodam o corpo e nos fazem perder no bosque escuro e perigoso da mente.

A tão esperada Emma Ruth Rundle subiria ao palco acompanhada de mais uma guitarra, baixo e bateria, os mesmos que vimos anteriormente. Defronte dela, mais uma casa esgotada e ansiosa por recebê-la. A magia que Emma carrega faz com que cada momento em que a escutamos se torne único e se repita em loop dentro de nós. Com banda, essa magia torna-se mais forte e com mais poder, mas acaba por perder o intimismo, a proximidade e a beleza sublime que ela transporta quando toca sozinha. Os abraços que nos dão os instrumentos aconchegam e embalam criando uma densidade que se repete em forma de eterno retorno ao longo de cerca de uma hora de concerto. Os companheiros de Emma tornam o momento mais complexo e composto, criando distorções e camadas de espessura alucinantes que nos tiram o foco do principal. A voz de Emma é um espelho da sua alma, a expressão e sentimento com que canta oferece-nos o impacto de uma fragilidade forte e extremamente bela que nos abraça em traços de melancolia. Emma carrega uma carga emotiva genuína e demasiado solitária para que partilhe um palco com alguém. Neste concerto olhámos nos olhos de um cavalo negro. Dentro dele, robustez, garra, força e respeito. Ao lado dele, nós a correr contra um vento frio e cortante e a fugir da vida!

20181012 - Concerto - Emma Ruth Rundle + Jaye Jayle @ Musicbox Lisboa

Emma trazia na mala On Dark Horses, o seu último álbum lançado em Setembro deste ano, e apresentou-nos “Dead Set Eyes”, “Fever Dreams”, “Apathy On The Indiana Border”, “Races”, “Darkhorse”, “Control” e “Light Song” ficando estas canções a bater nas paredes do nosso interior e a abanar-nos incessantemente. “Protection”, “Marked For death” e “Heaven” fizeram ainda as nossas delícias relembrando o álbum anterior. A voz de Emma causa arrepios e transtornos como se fossemos empurrados de uma falésia e caíssemos em câmera lenta com a adrenalina do medo e a ansiedade de não querer chegar ao fim. No entanto, só consegui sentir este voo quando se despiu e, novamente, nos entregou a sua alma a cru, na última música, com a belíssima “Shadows Of My Name” que cantou só com a sua guitarra em punho e com o peso da insegurança que carrega e a beleza de uma alma pura e, extremamente, poderosa.

Afirmou a meio do concerto que em Portugal tinha passado uns dos melhores dias da vida dela. Espero que isso aconteça sempre, querida Emma, e que continues a voltar mas sem o peso do manto onde escolhes esconder as tuas inseguranças, os outros músicos. Bastas tu e só tu tens a soberania para tornar qualquer momento magnífico e inesquecível!

 

Promotor – Amplificasom

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