Bairro rico em locais de culto, Alvalade é zona habituada a acolher gentes dos mais variados credos e na rua João Saraiva encontra-se um dos seus exponentes máximos. Não, não é a Igreja Maná… é o RCA Club, que no passado dia 24 de Setembro abriu os portões para deixar o rebanho assistir à missa de Black Metal dada pelos Batushka. Sacerdotes do mal, ou não, a banda polaca prestou um espectáculo ritualístico e envolvente, comprovando porque é que tem estado nas bocas do mundo mais pesado.

Quando se faz reportagem ou crítica musical, dita a sensatez que se fale mais na música do que na informação acessória à volta da mesma, mas no caso dos Batushka isso é francamente impossível. Num movimento paradoxal ao excesso de informação que tem tolhido a nossa sanidade e, em muitos casos, arruinado a mística de bandas que outrora se julgaram perigosas, tem sido cada vez mais comum surgirem projectos em que os membros ocultam a sua identidade, criando logo com essa postura uma aura misteriosa e instigadora de interesse.

O caso mais evidente será certamente o dos Ghost, mas, dois ou três andares abaixo, num piso subterrâneo por comparação aos níveis de popularidade e notoriedade da banda sueca, estão os Batushka. Há, contudo, algo mais sério do que o sucesso comercial a separar estes dois exemplos: é que onde o primeiro se apropriou da figura papal do Catolicismo, tornando-o numa figura grotesca e obviamente blasfémia para embalar uma banda de Heavy Metal arockalhado para o estrelato (convenhamos que, malhas catchy à parte, sem a imagem forte, os Ghost não seriam metade do que são hoje), a segunda criou uma imagem muito menos óbvia e, por isso mesmo, mais interessante.

Oriundos de um país fervorosa e maioritariamente católico, os Batushka são uma banda que se serve do imaginário cristão ortodoxo – mais popular a leste, sendo a Grécia e, principalmente, a Rússia, dos países onde este credo tem mais força – em toda a sua plenitude, tanto na apresentação estética, manifestada nas vestes e em toda a iconografia que os rodeia, como na própria sonoridade, construindo um Black Metal mais melódico em torno de cantos em antigo eslavo eclesiástico, e até no nome, que significa “pai” (ou melhor “padre”, como quem diz, “father” em inglês). O resultado é intrigante, especialmente aos olhos de um leigo em história das religiões ou em teologia, até porque reside numa ambiguidade que a banda também faz por alimentar: toda esta devoção cristã é propositada e fervorosamente mantida num género conhecido por ter no seu ADN um sentimento anti-cristão, ou é uma forma sofisticada de blasfémia e de provocar ao corromper símbolos sagrados?

Não sabemos, mas a segunda hipótese parece mais provável, já que, para além das análises às letras (pouco fidedignas, diga-se) encontradas online que parecem demonstrar uma perversão dos textos canónicos da Igreja Ortodoxa, a própria simbologia aponta para uma forma mais subtil de ser herético – sim, porque os hábitos dos padres ortodoxos podem ser algo intimidantes, mas, até ver, não têm caveiras sobre ossos cruzados nem cruzes russas invertidas, muito menos figuras reptilianas.

Foi sob o olhar atento do Cristo Pantocrator na tela em tons dourados a servir de fundo e perante uma casa muito bem composta que o cerimonial teve início, com uma longa introdução em que os membros encapuçados foram pacientemente entrando por entre o fumo, acendendo as muitas velas colocadas nos castiçais à frente do palco. De um lado, a bateria, encoberta por um biombo; do outro, três figuras que compõem o coro; ao centro, um quadro colocado no altar com a representação da capa do primeiro e, até à data, único álbum dos Batushka, Litourgiya, editado em 2015. Nos últimos três anos a banda tem espalhado o credo destes seus salmos profanos por onde passa, tendo atuado no Vagos Open Air em 2017. Contudo, se para os lados de Aveiro a coisa não correu assim tão bem (do que estavam à espera quando vão a missas ao ar livre?), em Lisboa o som esteve apropriadamente denso, se bem que ocasionalmente indefinido, principalmente na bateria – talvez da próxima vez possam tocar na igreja do Campo Grande para apreciar essa acústica.

O início da liturgia toma o seu verdadeiro início, quando a figura central, o vocalista, envergando um magnânimo manto, se coloca no centro do palco, trazendo consigo um turíbulo com incenso a limpar o ar impuro causado pela libertação dos suores purificadores da audiência. Tal como numa missa, a estrutura do concerto dos Batushka é rígida: trata-se de tocar Litourgiya de uma ponta à outra, 8 “litanias” em sequência, com todo o que de bom (equilíbrio no fluir das canções) e de mau (curta duração e previsibilidade) isso acarreta.

 

Se a Bíblia se estrutura numa dualidade bem/mal e luz/trevas, os Batushka operam sob os mesmos ditames: os guinchos black metal confrontam-se com cânticos ascetas, o negrume do peso opressivo das guitarras e do baixo (particularmente em evidência no início monstruoso de Yekteniya IV) deixa-se irromper por feixes de luz sob a forma de leads. Num ritual todo ele conduzido com máxima pompa e circunstância, espectáculo e performance uniram-se em momentos especiais como o meio-tempo sob os mantras em transe de Yekteniya VII, os tremolos arrepiantes de Yekteniya I ou a fúria devota e impiedosa no ataque de Yekteniya III. No final, sob a batuta do demolidor pedal duplo e do blastbeat, das guitarras bizantinas e da unidade entre vozes ímpias e eclesiásticas, Yekteniya VIII lançou os últimos ritos sob um público rendido, liturgia finalizada com o sacerdote-mor a envergar o retrato por uma última vez, antes de sacudir o pó preto de uma vassoura e recolher-se aos vestíbulos improvisados.

Antes, já tínhamos tido a oportunidade de apreciar o trabalho de uns acólitos do mal, desta feita portugueses. Um dos novos valores do Black Metal nacional, os portugueses Gaerea apresentaram-se em Alvalade para deixar os espíritos já prontos para consomar os actos de depravação que se seguiriam. Donos de uma estirpe do género menos ortodoxa e mais próxima do “pós” que engloba o Doom, o Sludge e até o Death Metal, o quinteto – também ele encapuçado e de origem aparentemente desconhecida – fez valer o seu mais recente Unsettling Whispers, lançado neste ano. Com a consistência densa de betume, foi entre taroladas do fundo do poço, guitarras opalinas – ora reluzentes, ora escuras como o breu, e os berros desesperados do seu serpentino vocalista que deram uma demonstração de intensidade que evidenciou o porquê de terem sido escolhidos para dar início à sessão. Fossem todas as missas assim, os níveis de absentismo religioso não estariam tão altos.

 

Promotor – Amazing Events

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