A banda sueca do músico e compositor Daniel Gilderlow, esteve no passado sábado na sala de culto de Alvalade, o RCA Club. A banda rotulada de “metal progressivo” veio apresentar o seu mais recente trabalho discográfico, “In the Passing Light of Days” editado em 2017 pela Inside Out Music. Os lisboetas Forgotten Suns abriram as hostilidades e dignificaram da melhor maneira o anjo Daniel e os seus arcanjos.

Sem dúvida a melhor forma de esquecer o vazio que ficou a moer as bandeiras nacionais, e a acalmar as gargantas que gritaram em viva voz uma dúzia de palavrões acutilantes. A fila passava o meio da rua e a noite prometia devoção e entrega.

Os Forgotten Suns andam a fazer boa música há mais de duas décadas, e são uma das bandas de referência do metal português. Com profissionalismo e empatia, Nio Nunes (voz), Ricardo Falcão (guitarra), J.C. Samora (bateria), Nuno Correia (baixo) e Miguel Valadares (teclas), soltaram as feras e tocaram meia dúzia de temas prolongados. Um desabafo ou outro sobre a seleção nacional, “fica para a próxima”, mas um orgulho enorme por abrirem a actuação de Pain of Salvation. Prova disso mesmo foi a t-shirt que Nio Nunes trazia vestida! Alinhamento cronologicamente diversificado, arrancando com “Flashback” do álbum de 2009 “Innergy”, visitando “ In arms away” do álbum “When worlds collide” (2015), registo harmonioso em laivos mais rasgados e riffs trabalhados ao pormenor. Apresentação da banda, depois de um solo de Ricardo Falcão na voz. Meia dúzia de temas bem tocados o suficiente, para deixar encaixado o público que não desertou um minuto.

Mudança de palco demorada, compreensível nesta sala onde a boca de palco não é extensa. Uma cerveja e dois dedos de conversa com quem estava mais próximo. O cigarro ficaria para o final, pois ninguém se arriscou a perder o lugar numa sala que estava lotada.

Meio sol plasmado numa tela ao fundo do palco. Uma silhueta esguia e estreita esbatia-se na penumbra de dois focos de luz intensa. Meio sol brilhava na guitarra. Uma entrada triunfal, no respeito pelo divino (seja lá o que isso possa significar) e pelas duas horas de culto que iríamos experienciar, “Full Trotlle Tribe” quinta faixa de “In the Passing Light of Days”. Em simultâneo, os cinco músicos faziam movimentos curvados sobre os instrumentos. Seguiram-se os temas “Reasons” e “Meaningless” e a cumplicidade de Daniel Gilderlow e Johan Hallgren (guitarra) que regressou à banda em 2017.

Antes de “Linoleum” (álbum “Road Salt One”, 2010), Daniel pediu ao público para dar o grito das suas vidas: “don´t care about safety or wellbieng!”, mesmo que seja a coisa mais parva que façamos. E todos contámos até três e soltámos o “grito”, aquele que estava preso desde o final do jogo, ou desde o início das nossas frustrações. Continuaram em regressão cronológica e “Rode Ends” de 2002 (“Remedy Lane”), onde Gustaf Hielm (baixo) se aproximou do guitarrista num despique de cordas. Continuaram em 2002 com “Beyond the Pale” mas logo a seguir mudaram o rumo dos agudos e deliciaram-nos com a magnífica “Kingdom of Loss” (“Scarsick”, 2007). Um controlo absoluto na versatilidade da voz de Daniel, num grave envolvente e poderoso. Ritmos descontinuados de raiva, ficando por vezes presos na tristeza de uma quase canção de embalar. Regresso a 1998 com “Inside Out” (CD “One Hour by the Concret Lake”) , um tema que contempla as quatro estações do metal, reconhecendo nas teclas a estrutura da composição. A dor é um dos temas fortes das letras da banda, mesmo que haja uma réstia de esperança, mas o tema “Ashes” é puro darkness “(…) This pain will never end These scars will never mend(…)”.

Os magníficos agudos da voz de Léo Margarit (baterista), que se destacavam de quando em vez, deixaram a sala meio incrédula. Regresso a “ In the Passing Light of Day” nas duas últimas músicas, “Silent Gold” e “On Tuesday”. Esta última uma espécie de manifesto social “(…)The things we humans / say to survive / The promises we make / The lies we tell”, cantado num registo a fazer lembrar The Phantom of the Opera, com uma voz que nos atravessou o peito. Riffs arrastados intercalados com o piano, numa luz intensa sobre Daniel Karlsson (teclista) que fechava os olhos e tocava com determinação.

A imagem do palco sobressaia Daniel Gilderlow envolto numa névoa de luz, brilho dos braços definidos e suados, cabelos finos e ondulados. Qual Jesus Cristo dotado de poderes milagrosos e eternos no caminho da dor da salvação? Léo Margarit (baterista) cantava com um timbre cristalino e agudo, enquanto Gustaf Hielm (baixista) permaneceu a seu lado, imóvel a contemplar aquela voz divina. Cinco vozes num tom tranquilo e angelical, amparadas pela serenidade do piano, “like poetry”, as mesmas vozes que no momento seguinte se transformaram em trovões, numa explosão de raiva inconformista!

Pain of Salvation seguem a tour europeia até ao próximo mês de Novembro.

Texto – Carla Sancho
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Free Music Events