Ben Howard, o Ben(jamin) que virou homem

Foi bonito de se ver, foi doce de se ouvir, foi estranho de se digerir. À primeira vista, esta análise pode parecer um pouco paradoxal, é um facto, o que nos leva então à questão de como é que foi o regresso de Ben Howard a Portugal, quatro anos depois de uma tumultuosa passagem pelo (então) Optimus Alive, marcada pelas repetidas falhas de som.

Felizmente, ontem não houve problemas de som na estreia de Ben Howard em nome próprio pela capital. Todavia, a problemática em torno do artista com o nosso país parece não ter os dias contados quando, após uma hora e picos de concerto, as portas do Coliseu dos Recreios enchiam-se de dúvidas; “será que foi assim tão bom?” foi uma das perguntas que mais se ouvia por entre os fãs do cantor. Com o encontro por um consenso a revelar-se tarefa árdua e a incerteza a pairar pelas cabeças de muitos, vamos tentar dissecar um pouco a coisa…

 

Mas o afinal o que é que se passou?”. Cresceu-se, dizemos nós. Benjamin John Howard foi sem sombra de dúvidas um dos artistas mais badalados do primeira metade desta década. Com aplaudidos discos na bagagem e uma quantidade de singles bem chorudos no repertório, adivinhava-se um futuro risonho para o inglês.

Quatro anos passaram-se desde os últimos postais que Ben Howard nos escreveu. Durante este tempo, não seria descabido dizer que o hype que rondava o artista se tinha lentamente dissipado. Todavia, um Coliseu esgotado, com a entrada a ser antecedida por filas de espera intermináveis, daquelas que chegam ao Hard Rock Café, rapidamente demonstravam que o público português não se tinha esquecido deste britânico. Portugal queria matar saudades de Ben Howard… mas não primeiro teria que conhecer este novo.

Os primeiros avanços para o terceiro disco de originais de Ben Howard demonstravam uma mudança significativa da outrora folk simplista e charmosa. Num registo mais maduro, o ‘charmoso’ passara a ‘apaixonante’, o ‘simplista’ a ‘ambicioso’ e o resultado é uma sonoridade bem mais complexa, quase a roçar o sombrio, do que aquela tão docemente ténue a que nos tinha habituado. De um momento para o outro, e sem nos darmos conta, o rapaz passou a homem.

Mantendo a linha do complexo em prol do simples, é com surpresa que se vê os adereços que decoram o palco: múltiplas telas para as projecções vídeos, luzes de todos os modos e feitios, tapetes persas e instrumentos até mais não. O aparato é grande, sendo apenas equiparado pela banda de apoio de Ben Howard: duas baterias, teclados, sintetizadores, coro, múltiplas guitarras, baixo, violino e até um violoncelo… houve de tudo um pouco. Face a tanto músico, coloca-se a questão se Howard, tremendamente apaixonado pelas suas guitarras, seria ofuscado pela musicalidade dos seus comparsas – para esta questão, um redondo ‘não’ foi a resposta.

Sentando-se no centro do palco, apresenta desde cedo as recentes “A Boat To an Island On the Wall” e “Nica Libres At Dusk”, gerando um arranque de concerto que se repartia entre o estonteante e o aconchegante, especialmente tendo em conta a dimensão que estas novas canções ganham em palco. Com uma banda capaz de recriar os mais ínfimos detalhes que passam despercebidos no conforto do lar, Ben Howard mostra uma faceta que lhe era desconhecida: a de um músico prolífico, capaz de se reinventar e de inovar.

Por entre esta nova demanda, onde é guiado pela sua própria audácia, Ben Howard desvende praticamente todo o véu que cobria o seu futuro disco. Entre as canções que já lhe eram conhecidas, muitas foram a aquelas que encontraram pela primeira vez o caminho para os palcos. Com a sua identidade ainda um mistério, fruto das escassas vezes que o cantor de dirigiu para o público, realça-se uma canção que leva Howard, sozinho, a aventurar-se por teclados e sintetizadores, com o intenso uso de autotune a provocar reminiscências de Bon Iver, mais concretamente “715 Creeks”. Tirando este notório destaque, nota-se que o horizonte trará novamente um disco bem conseguido por Ben Howard, com Portugal a ser o privilegiado em ouvi-lo em primeiro mão – benefícios de uma tournée arrancar no nosso país, diríamos.

Por mais bonitas que as novas canções fossem e por mais deslumbrantes fossem os efeitos de luz e de vídeo, o público demonstrava-se apático, longe de estar conquistado. E quem é que os pode censurar? Certamente que muitos seriam aqueles que esperavam por um concerto em jeito de best-of, com esta expectativa a dissolver-se ao som de mais um tema de Noonday Dream. Quando, finalmente, se começa a ouvir material antigo, tomando forma por “I Forget Where We Were”, foi como se o Coliseu dos Recreios desabasse com a histeria, iniciando-se uma sessão de cantoria que, esperávamos nós, reinasse durante todo o concerto, sendo prolongada logo de imediato com “Small Things”. Apesar de desencaixadas do resto do alinhamento, mostraram-se quase como recompensa perante um público que fielmente aguardou por canções que já tinham aconchegado os seus corações. Pedindo desculpa por estas canções estarem um pouco “enferrujadas”, Ben Howard regressou de imediato às novas canções, que chegariam mesmo por dar o concerto como terminado, cortando um momentum que tardara em chegar. Isto não se faz, Ben…

O eventual encore lá que surgiu, com apenas Ben Howard em palco. Talvez em reminiscência de tempos que (visivelmente) já lá vão, I Know Where We Were e Every Kingdom tiveram o destaque que tanto era pretendido, com “End of The Affair”, “Promise” e a terminal “Conrad” a demonstrarem que os dotes portugueses em cantarolar não fazem qualquer jus ao último lugar conquistado pelo nosso país na Eurovisão. Pena terem sido postos à prova tão tarde.

Passado um dia, ainda deve ser difícil para muitos processar uma opinião face a este concerto de Ben Howard. Apesar de não lhe ter falto nada em termos de qualidade, o alinhamento pecou numa demasia tão considerável a nível de alinhamento que não seria absurdo afirmar que este não foi o concerto de Ben Howard que o público português merecia. Contudo, mesmo na falta de um consenso geral e num registo ‘à portuguesa’, há algo que não pode ser desmentido: apresentar-se um disco na íntegra, ao vivo, sem que este seja um conhecido do público? Haja tomates!

 

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – Nuno Cruz