Dez concertos a ter em atenção no NOS Primavera Sound’18

Está-se praticamente a menos de duas semanas do arranque da época dos festivais de Verão portugueses. Como manda a tradição, o pontapé de saída ocorre na cidade Invicta, mais propriamente no NOS Primavera Sound. Ao longo dos anos que o festival do Porto se tem afirmado como uma das maiores referências a nível dos festivais portugueses, muito por culpa do seu cartaz rico em diversidade: ao longo de três dias, ecoa de tudo um pouco pelo Parque da Cidade.

Em Fevereiro, a Música em DX fez um artigo onde escolheu dez artistas que, aquando a sua confirmação no Primavera Sound de Barcelona, gostaria de ver também pelo Porto. Quis o destino que as nossas preces fossem ouvidas em oito desses casos – Arca, Fever Ray, Grizzly Bear, Lorde, Rhye, Tyler The Creator, Vince Staples e The War On Drugs – o que só por si mostra o quão forte será o cartaz deste ano do NOS Primavera Sound.

No meio de um cartaz tão competente e com tanto artista, e já com base na distribuição horária e de palcos, a Música em DX elabora então uma lista com dez concertos a não perder este ano pelo Parque da Cidade. Para esta, não constarão nenhum dos nomes acima mencionados, por já lhes ter sido dado o merecido destaque, assim como os cabeças de cartaz para cada dia do evento, visto que o seu estatuto enquanto artistas mais apetecíveis do dia só por si justifica o facto de serem concertos imperdíveis.

DIA 7 DE JUNHO

THE TWILIGHT SAD (Palco Seat, 19h15)

Após Alex Lahey ter cancelado a sua presença no NOS Primavera Sound, a organização substitui-o rapidamente pelos The Twilight Sad, decisão que certamente caiu em bom grado aos amantes do shoegaze.

Os Twilight Sad, constituídos por James Graham e Andy MacFarlane, são oriundos da Escócia. A forma como o forte sotaque escocês de Graham complementa, de forma quase nata, a sonoridade shoegazing, densa e rasgada, proveniente das guitarras de MacFarlane, sempre foi um aspecto aplaudido à banda, tornando-a como uma das maiores referências do movimento shoegaze actual.

Depois de terem passado por Lisboa em 2016, em prol da tournée dos The Cure, chega agora a altura de marcarem presença pelo Porto, desprovidos da pressão de serem meramente a banda de abertura para o ‘main event’. Antecipando-se como um dos mais barulhentos concertos que ocorrerá pelo NOS Primavera Sound este ano, como o shoegaze assim o exige, tem-se em The Twilight Sad um célebre representante de um dos estilos musicais que os fãs do festival do Parque da Cidade sempre acolheram com intensa devoção.

FATHER JOHN MISTY (Palco Seat, 20h25)

Nos dias de hoje, poucos são os artistas que conseguem enaltecer o romance de forma tão genuína e emotiva como Joshua Tillman. Depois de ter enchido o Coliseu dos Recreios, Father John Misty regressa a Portugal, desta vez como um dos nomes mais sonantes do NOS Primavera Sound.

Apesar da sua última passagem por Portugal ter sido em Novembro último, Father John Misty tem novo disco na bagagem a ser lançado logo no início de Junho, God’s Favorite Costumer, embora um erro levou-o a ficar disponível online mais cedo do que era previsto. Como tal, muitos são os fãs que já o ouviram e se perderam de amores por um álbum que dá continuidade aos anteriores, na medida em que Tillman continua a explorar novos e ambiciosos rumos para enfatizar a doce essência da paixão que o artista sabe tão bem descrever.

Em Junho, Tillman subirá a um palco algo mais reduzido face aquilo que lhe tem sido atribuído por Portugal. Todavia, prevê-se que as dimensões do novo Palco Seat originem uma atuação bem mais intimista do que aquelas que nos tem habituado, criando assim o cenário perfeito para ouvir as amorosas preces de Fther John Misty, desde a mítica “I Love You, Honeybear” até a mais recente “Mr. Tillman”.

JAMIE XX (Palco NOS, 00h25)

No preciso momento em que o cartaz do NOS Primavera Sound foi anunciado, um dos maiores destaques foi sem dúvida o da inclusão de Jamie XX, especialmente tendo em conta a sua ausência no festival de Barcelona, o que só por si demonstra a forte aposta no cartaz deste no no Porto.

Se nos dias de hoje os The XX atingiram o estatuto que conseguiram, muita dessa culpa recai em Jamie XX, ou não fosse ele o cabecilha do grupo. Para além de motor que impulsiona o grupo, o inglês é também produtor e DJ nas horas vagas, tendo em 2015 conciliando estas suas três facetas para lançar o seu primeiro disco a solo, In Colours, sendo rompido de elogios pelo quão abrangente e complexa a sua electrónica consegue ser.

Aproveitando umas pequenas férias dos seus The XX, James Thomas Smith transformará o Parque da Cidade numa autêntica pista de dança, brindando o público com de tudo um pouco: desde temas da sua autoria, remisturas de temas de The XX e de outros artistas, ou até mesmo um vasto leque de célebres músicas de dança, a primeira noite do NOS Primavera Sound reúne todas as condições para ser uma festa até as nossas pernas não aguentarem mais.

DIA 8 DE JUNHO

YELLOW DAYS (PaLCO PITCHFORK, 19H)

Chama-se George Van den Broek e tem dezoito anos. Para além de ser o artista mais jovem a pisar o palco desta edição do NOS Primavera Sound, é capaz de ser também o mais promissor e talvez aquele que mais se ouvirá falar num futuro tão não distante.

Apesar da tenra idade, Yellow Days canta como gente grande. Mesmo que uma primeira audição nos leve a inevitáveis comparações com King Krule e Mac DeMarco, há muito mais para explorar na sonoridade de Van den Broek. A sua voraz admiração por Ray Charles é notória, com o timbre de Yellow Days a não só condizer em nada com a sua idade e físico como também a ser única nos artistas desta geração.

No meio de tantos jovens que cozinham discos após umas extensas tardes a brincar com as suas guitarras em casa, Yellow Days destaca-se desses através da forma em que preenche as suas canções com camadas ora de sentimentalismo, ora de inteligência emocional, tudo condimentado com guitarras que puxam o braço ao blues, mas com ligeiros nuances de jazz, R&B, hip-hop e música electrónica.

Muitos são os artistas cujas carreiras catapultaram ferozmente poucos meses após terem marcado presença no NOS Primavera Sound, o que pode levar o festival do Porto a auto intitular-se como uma ‘rampa de lançamento’ para novos artistas emergentes. Tudo indica que para 2018, Yellow Days será um desses casos. Torcemos nós para que sim.

LINIMAL SOUNDBATH, with Jónsi, Alex Somers and Paul Corley (Palco Primavera Bits, 20h30)

Em 2015, fez as delícias do público no NOS Primavera Sound com os seus Sigur Rós, num concerto que certamente ficou na história como um dos melhores daquele festival. Agora, em 2018, Jónsi regressa onde já fui feliz para apresentar o projeto Linimal Soundbath, a par de Alex Somers e Paul Corley.

Fruto de uma parceria entre Jónsi, Alex Somers e Paul Corley, todos colaboradores frequentes, este projeto consiste numa (re) descoberta de todo o trabalho feito pelos Sigur Rós. Com o foco a ser atribuído a canções mais antigas, os três artistas revisitam e moldam-nas com o intuito de criar uma atmosfera que as ligue de igual forma, gerando uma mixtape de beleza sem precedentes, capaz de transportar todos os ouvintes numa viagem por um mundo fora deste nosso, onde os nossos sentidos estarão duplamente apurados para sentir toda a magia proporcionada por estes três magos.

Portugal será um dos poucos países que terá o privilégio de albergar este evento mágico. Ao longo de vinte anos de carreira de Sigur Rós, chegou pela primeira vez a oportunidade dos fãs fazerem parte da própria música da banda. Fica desde já feito o convite para que no dia 9 de Junho, o público do NOS Primavera Sound possa participar numa banda sonora ao ar livre onde tanto os artistas, como o público e até mesmo os campos esverdeados do Parque da Cidade serão o fio condutor deste concer – perdão, desta experiência!

thundercat (palco pitchfork, 23h30)

Jazz, funk, R&B, trash metal, soul, hip-hop e até música electrónica. Stephen Lee Bruner é um produtor que já fez de tudo um pouco, mas o conjunto de todos estes estilos não é suficiente para si. A sua ambição é apenas equiparada pela sua qualidade enquanto músico… e vale a penas frisar que ambas são elevadíssimas.

Jazz, funk, R&B, trash metal, soul, hip-hop e até música electrónica Assinando como Thundercat, nome quase saído de uma banda-desenhada, este super-herói já colaborou com dezenas de artistas: Flying Lotus, Kendrick Lamar, Kamasi Washington, Kimbra, Childish Gambino, Suicidal Tendencies… a lista é enorme.

Jazz, funk, R&B, trash metal, soul, hip-hop e até música electrónica. Foi jogando com todos estes estilos que 2017 marcou o regresso de Thundercat aos discos, com Drunk a constar em inúmeras publicações como um dos melhores discos do ano, com rasgados elogios à forma como Stephen Bruner conciliava tantos estilos únicos ao longo de pouco menos de uma hora, num autêntico turbilhão de aventuras.

Jazz, funk, R&B, trash metal, soul, hip-hop e até música electrónica. São estes os estilos que Thundercat assimilou na sua sonoridade de modo a criar um único estilo: o seu próprio.

dia 9 de junho

Luís severo (Palco seat, 17h)

Vestindo as cores da seleção nacional no campeonato do mundo que é o NOS Primavera Sound, estará Luís Severo. Pop simples e de cariz emotivo é o seu mote, e desde o ano passado que poucos são aqueles que lhe têm ficado indiferente.

Aquando do lançamento do seu homónimo, que lhe valeu imensos elogios e levou a que imensas publicações considerassem o disco como um dos melhores do ano a nível nacional, Luís Severo prepara-se para subir de divisão e subir ao palco de um dos festivais com maior mediatismo em Portugal. Após ter percorrido o país de lés a lés a divulgar o disco que o colocou na ribalta, tanto acompanhado por banda ou no registo a solo, a que o próprio carinhosamente apelidou de “Pianinho”, Luís Severo conquistou um país com a simplicidade amorosa que reside nas suas canções, afirmando-se como um dos artistas mais talentosos da atual cena musical portuguesa.

Subindo a palco no dia que antecede o Dia de Portugal, algo nos diz que Luís Severo não só antecipará as celebrações do feriado nacional como também enaltecerá o quão bela consegue ser a língua de Camões.

public service broadcasting (palco seat, 20h30)

Uma das maiores dificuldades com que qualquer artista se depara é a criação de material único e inovador, algo que os destaque. A dificuldade é acrescida quando a sonoridade que se tem em mãos é puramente instrumental. O que fazer neste caso?

Utilização de samples de antigos vídeos informativos ou de propaganda governamental. Registos dos lançamentos do Sputnik 1, Vostok 6 ou Apoll 11. Esta foi a resposta que os Public Service Broadcasting encontraram, impulsionando as possibilidades existentes dentro do post rock. Aliás, a forte componente das ciências, como a matemática e a física, existente na sonoridade do tripleto londrino é tão grande que estes até podem afirmar ter criado um novo estilo musical: o science rock.

À primeira audição, a combinação destes samples com post rock tanto tem de original como invulgar, mas mentiríamos se não disséssemos que é uma aposta ganha. Em 2014, os Public Service Broadcasting estrearam-se em Portugal, no Vodafone Paredes de Coura, onde foram uma das bandas mais marcantes nesse mesmo ano. Passados quatro anos, os londrinos contam com dois novos discos na bagagem e muitas novas canções para apresente ao público português. Tudo nos leva a crer que a dose de surpresa e admiração se repetirá no NOS Primavera Sound

NILS Frahm (palco super bock, 23h40)

É de conhecimento geral que todas as edições do NOS Primavera Sound se destacam pelo quão ecléctico o seu cartaz consegue ser. Uma das grandes novidades para este ano de 2018 será a inclusão de um compositor de música clássica, assim como de música electrónica: Nils Frahm.

Um autêntico dois em um, Nils Frahm não só se tornou célebre ao combinar música clássica com electrónica, como também através da sua abordagem invulgar do uso de um piano clássico, misturando-o entre teclados e sintetizadores. Dentro deste labirinto de sons, o alemão indica-nos mil e uma rotas por onde se escondem duas mil e duas combinações diferentes de notas, em que todas se unem e complementam-se de modo a dar acesso à ‘bigger picture’ da coisa, como se de peças de um puzzle se tratasse.

Em disco, Nils Frahm é música de piano com sintetizadores à mistura, com uma nuvem de encantos a pairar de início ao fim. Já ao vivo, o alemão torna-se voraz, arrebatador, imprevisível. É como se vivesse dentro, como se fosse uma parte do piano que lhe abre as portas para conhecer novos mundos, com todos os teclados e sintetizadores que o cercam em palco quase a relembrar o interior de uma nave espacial. No dia 9 de Junho, haverá então marcada uma odisseia pelo espaço com Nils Frahm, a qual certamente poucos quererão faltar.

mogwai (palco nos, 00h45)

Este ano, o Palco NOS, principal palco do evento, dará a música como terminada ao som da única banda desta lista a repetir a dose pelo NOS Primavera Sound: depois de quatro anos de ausência, os Mogwai estão de regresso ao Porto.

Os escoceses Mogwai andam por estas andanças já faz tempo, com uma carreira que excede os vinte anos de duração. A sua longevidade fez com que se tornassem numa referência dentro do post rock, com um som muito característico obtido através do uso de efeitos e distorções através das extensas linhas de guitarra que pintam a discografia da banda; são poucas as músicas dos Mogwai que não excedam os cinco minutos de duração.

Em 2015, o outrora quinteto passou o quarteto. A perda de um dos membros fundadores da banda pesa, é certo, mas os dois discos que se seguiram, a banda sonora Atomic e o mais recente Every Country’s Sun, demonstram que os Mogwai mantêm a mesma capacidade em produzir a sua dinâmica musical, isto é, a alternância entre composições que inspiram a sensações de tranquilidade e introspecção, mudando rapidamente o foco para cenários destrutivos e avassaladores; a capacidade de criação de melodias complexas será sempre uma das mais-valias desta banda.

Habituados a cenários obscuros e sombrios, cabe a Mogwai a tarefa de surtir o último efeito luminoso a figurar no Palco NOS, uma luz cobiçada desde a sua última passagem pelo Porto e que certamente ecoará por todo o Parque da Cidade.

Texto – Nuno Fernandes