A Aula Magna recebeu segunda-feira em ovação os norte-americanos Ben Harper e o lendário do blues Charlie Musselwhite. Na gênese do primeiro de dois concertos agendados em Portugal, esteve um registo de cumplicidade entre eles e o público. A apresentação do álbum No Mercy in this Land, segundo registo discográfico dos dois músicos (o primeiro foi vencedor do Grammy em 2013, Get Up!), é o propósito desta tour mundial que iniciou em Nova Yorque em Março e já correu diversos países europeus.

Acompanhados por mais três músicos de “se tirar o chapéu”, Ben & Charlie proporcionaram uma noite de uma envolvência transcendente no blues. Confidenciou o quanto estava feliz por estar de volta à sala que o recebeu nos primeiros concertos da sua carreira. Cabelo muito curto, tapado por um chapéu de aba larga que tirou para agradecer as sinceras palmas do público, Benjamim Chase Harper fundiu-se na (s) guitarra (s) grande parte da noite que começou cedo (20h40m).

Cenário intimista, com quatro focos de luz ténue sob uma cortina de veludo que intercalava entre os vermelhos e os azuis, conforme a intensidade da música. “We´ve got the blues in the house tonight”, diz Charlie no arranque do segundo tema da noite, Bad Habits, numa voz marcada por mais de 70 anos de sopros celestiais na Harmonia. Palmas que seguiram o ritmo da bateria, agraciadas por Ben Harper por serem as mais sincronizadas de todo mundo, em Love and Trust. Cumplicidade com o guitarrista (magnifico) que dedilhava as cordas da guitarra enquanto Ben Harper provocava sons indefinidos de violoncelo e violino com uma das suas muitas (6?) guitarras no colo. A Harmonia juntou-se com um som subtil, a fazer-nos mergulhar no encantado oeste americano, I Ride at Down. Solo translúcido da guitarra a fazer parar o tempo, seguido da bateria e o baixo numa marcação envergonhada do compasso, Get Up!, tema que dá nome ao primeiro álbum dos músicos.

Momentos marcantes e únicos, em Nothing all com Ben Harper ao piano. Uma canção “que fala de amor, porque é sobre a confiança. E amor e confiança são como a mão direita e a mão esquerda”, Trust You to Dig My Grave. Uma boa deixa para apresentar os fabulosos músicos, e Charlie apresentar Ben como “ a good friend”. Corridos mais dois temas, Found the One e na voz de Charlie I’m Goin’Home, Ben Harper agradeceu à equipa técnica “que nos acompanha todas as noites” no palco. Blood side Out tocado na guitarra dupla, ou guitarra gémea (pelo guitarrista), acompanhado pela de Ben Harper.

Mesmo antes do encore Love is not enough, num sussurrar da guitarra envolto na voz melosa de Ben Harper que projectava as palavras com um sentimento de arrepiar (das poucas vezes que apenas canta levantado). Os músicos saíram e o palco ficou a média luz, um dos candeeiros de luz ténue projectava a bateria e as tonalidades azuis reflectiam-se no fundo do palco.  Retomam os lugares e No Mercy in This Land na tranquilidade descomprometida do blues nas duas vozes. Yer Blues dos Beatles e, num derradeiro final All That Matters Now. O baixista largou o baixo e dirigiu-se ao piano e a harmonia de Charles ficando no comando a primeira parte do tema. Como que a dar espaço à arrebatadora projecção de voz de Ben Harper, a harmonia parou e deixou caminhar até à frente do palco. Ben Harper ali ficou, de olhos fechados e de mãos no peito a cantar o resto da música à capela.

Amantes ou apenas simpatizantes, ninguém se irá esquecer desta noite que trouxe o blues às luzes da ribalta por duas gerações de músicos colossais.

 

Texto – Carla Sancho
Fotografia – Daniel Jesus