A Place To Bury Strangers, obsessão e adrenalina

Os A Place To Bury Strangers são um trio oriundo de Nova York sobre o qual mora o epíteto de serem uma das bandas mais ruidosas de sempre. A génese da banda remonta ao ano de 2002 e entre 2004 e 2006 editaram alguns EP’s que chamaram sobre si a atenção do público, e cuja qualidade iria ser confirmada pela atitude incendiária da banda em todos os palcos onde se apresentava.

Desde o inicio que a banda de Oliver Ackermann se pautou por concertos ruidosos e marcantes. Cheios de uma energia perigosa e excessiva as suas músicas remetem-nos para mundos paralelos, negros e com uma energia densa, que nos chega a queimar a pele numa primeira audição, no entanto ao cabo de alguns minutos toda esse peso do mundo que os APTBS parecem jogar para dentro do nosso cérebro e ao mesmo tempo contra os nossos corpos dissipa-se e transforma-se numa intensa sensação de liberdade.

O maior trunfo dos APTBS é sem dúvida a forma tortuosa como se apresentam quer em palco quer em disco. A angústia mastigada pela distorção das guitarras e pelo baixo poderoso, a bateria agora conduzida por Lia, continua moldada na sonoridade já marcada dos APTBS, trilhando um caminho

No momento em que Pinned vê a luz do dia, entrevistámos Oliver Ackermann a propósito do novo disco e da vida dos APTBS.

Música em DXPodes apresentar-nos os A Place To Bury Strangers e contar-nos como tudo começou?

Oliver Ackermann – Quando a tua paixão pela música é de tal forma grande começas a procurar o porquê dessa paixão. Pode tornar-se uma obsessão tentar compreender como algo intocável provoca tantos sentimentos. Foi esse o caminho que percorri por gostar de ouvir músicas que nunca tinha ouvido tomarem forma. Além disso adoro descobrir como as coisas acontecem com os diferentes sons e faço disso um exercício de exploração que é a felicidade absoluta. Depois quando comecei a tocar ao vivo percebi que é um sentimento único, uma sensação diferente de qualquer outro. O poder de cada toque na bateria ou o soar de um acorde a sair de uma parede de colunas dá ao corpo humano uma injeção de adrenalina. Faz isso a perigosos níveis de volume enquanto se instala o caos à tua volta, anda pelo meio das pessoas, parte guitarras, incendeia amplificadores, fumo, strobes, cores vibrações e é isso! Fiquei viciado nisto como um viciado em heroína.

MDX – Porquê o nome A Place to Bury Strangers?

Oliver – Não fui eu que sugeri o nome mas acho que o nome ganhou forma e cresceu com a banda. Adequa-se à banda assim que as pessoas lhe derem uma hipótese. Acho que o nome não é óbvio nem mostra onde queremos chegar quando se ouve a nossa música pela primeira vez. Parece sinistro e muito sério mas também tem um lado inspirador quando emparelhado com a música. Somos todos estranhos para este mundo onde definitivamente seremos só um pontinho neste grande plano se pensares no universo. Talvez sejamos as engrenagens internas de um ser maior, semelhantes aos vasos capilares do nosso corpo. Ir a um concerto dos APTBS ou ouvir um disco nosso é participar num evento no presente onde podes deixar que tudo se desvaneça, onde podes deixar teus pensamentos livres de qualquer opressão.

MDX – Em muitos dos artigos que li sobre os APTBS são muitas vezes referidos como uma das bandas mais ruidosas de Nova York. Como lidam com a expectativa do público que espera um concerto com um nível muito alto de decibéis?

Oliver – Nem todos ficam entusiasmados ou estão habituados a ouvir concertos tão altos como aquilo que conseguimos fazer. Ao longo dos anos o nosso limite para o que é som alto, vai ficando cada vez mais dilatado e chegará a um ponto que roça a insanidade. Outro aspecto que trabalhamos é a maneira cientifica como as ondas sonoras reagem ao ambiente. Porque estudámos e experimentámos esses elementos toda a nossa vida, temos exemplos reais destes processos sobre os quais reflectimos no momento de um concerto para, de forma drástica, manipular essa situação.

MDX – Três anos separaram Transfixation de Pinned, o vosso novo LP que  sai dia 13 de Abril. O que é que mudou nestes 3 anos?

Oliver – Mudaram muitas coisas. Tivemos que sair do nosso antigo espaço em Brooklyn que era uma comuna ilegal, assim como um espaço para artes, estúdio e a fábrica de pedais Death By Audio. Ainda tivemos que mudar novamente para o espaço onde estamos agora e que ainda está a ser construído. Temos uma nova baterista, a Lia Brasswell, que canta bastante no novo disco e é alguém que trouxe uma energia diferente, que tem sido muito positiva e tem transformado as coisas em algo fresco e mais complexo e de uma forma muito interessante. Além do mais a vida continuou e as coisas mudam. Acho que foi isso que se passou. Não te dás conta mas quando olhas à tua volta tudo mudou. Creio que isso acontece porque estou sempre a trabalhar em diferentes projectos e também porque vivo em Nova York. Há alguns dias atrás demos uma volta à cidade para colar cartazes para o nosso próximo concerto em Nova Iorque e havia obras ao lado de todas as estações de comboios, e não quero dizer da maioria quero dizer um edifício novo a crescer ao lado de todas!!! Todos os meses Nova York muda e isso pode fazer a tua cabeça girar mas também pode ser libertador saber que a cada esquina pode estar algo novo. O que não mudou foi a nossa ideia que a música tem que ser crua e vir do mundo físico. Estamos a fazer todos os sons neste disco e não samplar ou resamplar. É uma coisa simples mas dá aquela sensação de ser mais verdadeiro. O ouvido consegue distinguir essas coisas. Também continuo com a minha companheira de uma vida, a Heather, que me traz sempre inspiração.

MDX – Sempre vi o vosso trabalho com uma componente muito intensa de DYI. Quem faz o vosso artwork?

Oliver – Cada vez trabalhamos mais com outros artistas. No passado teríamos nós feito o artwork. A capa do disco é uma colaboração entre o Miles Johnson (que também fez a capa para o Transfixation) e o fotógrafo Ebru Yildiz. Eu costumava sempre querer fazer tudo sozinho, mas com o passar dos anos aprendi que há uma força maior nos números, e então a arte e a música podem ser mais interessantes através da multiplicidade de pontos de vista.

MDX – Sei também constróis parte do teu equipamento. Constróis porque é a única maneira de obteres o som que queres?

Oliver – Sim. Tenho uma regra. Se alguém o consegue fazer então compra. Juntando isso ao meu estranho gosto de gostar de coisas que mais ninguém acha útil ou não tem coragem de usar…

MDX – Como disseste antes, estás envolvido em outros projectos. Podes falar um pouco sobre esses projectos?

Oliver – Claro! Trabalho com outras pessoas a gravar música e na mistura e masterização de tempos a tempos. Passo a maior parte do tempo a trabalhar nos APTBS e no Death By Audio mas cada vez tenho passado mais tempo a trabalhar em outros projectos muito interessante que talvez no futuro se concretizem em algo mais.

MDX – Quem são as tuas maiores influências?

Oliver – Black Dice fizeram sempre as coisas de maneira diferente e parecia que que criavam aquilo que queriam no momento. Metz, Lighting Bolt, Conduit dão tudo em todos os concerto e isso, só por si, é inspirador. Slowdive, Sean Alice Group, Ashrae Fax e This Will Destroy You fazem dos sons mais bonitos de sempre.

MDX – E quanto a bandas novas ou bandas que descobriram recentemente?

Oliver – Idles, Surfbort, Coneheads, Buck Gooter, Zomes, são todas bandas incríveis.

MDX – Qual foi o concerto que te marcou para a vida?

Oliver – Os Ramones em Providence! Uma banda incrível ao vivo e que deu um concerto fabuloso! Estavam presentes várias gerações e estava tudo louco! Foi o mosh pit mais divertido de sempre!!

 

MDX – Se tivesses uma máquina do tempo e pudesses tocar com alguém, quem escolherias?

Oliver – Adoraria ver o Jimmi Hendrix tocar.

MDX – Protagonizaram um dos concertos mais memoráveis no Reverence Valada em 2016. Quando vos podemos ver em Portugal de novo?

Oliver – Espero que em breve.

MDX – Algumas palavras ao público dos APSTBS em Portugal?

Oliver – Adoro-vos!!!

MDX – Obrigada pela vossa disponibilidade e até breve!

+info em aplacetoburystrangers.bandcampaplacetoburystrangers.com

Entrevista – Isabel Maria
Fotografias – Ebru Yildiz