Sábado à noite o Cine-Incrível em Almada recebeu de braços abertos três bandas; SatAn, Desert Mammooth e Electric Octopus.

Num ambiente descontraído e alegre, num sitio que mais que sala de concertos é hoje em dia um ponto de encontro de amigos e conhecidos, amantes dos mais variados estilos de música, fruto do intenso trabalho da associação Alma-Danada que tem vindo a trazer com cada vez maior assiduidade, bandas nacionais e internacionais ao palco do antigo cinema agora convertido em ampla sala de concertos. Bandas mais ou menos conhecidas, mais ou menos consagradas, nada disso importa. Aqui o que interessa é mesmo a música.

A moldura humana compôs-se rapidamente à volta do local onde iriam decorrer os dois primeiros concertos, a zona em frente ao palco. Foi uma noite especial para os SatAn; a estreia ao vivo com uma série de originais a balançar entre um certo travo stoner com toque de heavy psy mas por vezes a piscar o olho às bandas que este quarteto terá vivenciado enquanto adolescente e como bónus uma versão de QOFTSA. As estreias são o que são. São uma primeira vez, e as primeiras vezes normalmente não são o melhor momento, mas são momentos únicos e irrepetíveis quer para a banda quer para o público. E o público melhor que ninguém sente isso, tendo os SatAn conquistado ali o coração de alguns decerto, pela sinceridade e entrega demonstrada.

Os Deserth Mammooth a tocar em casa praticamente, baixaram as luzes e adensaram e deram corpo ao som. A maralha aumentou consideravelmente ao som dos primeiros acordes do trio que durante mais de uma hora alimentou a turba com as linhas de baixo e as flutuações na guitarra.

A envolvência pelo publico levou-os talvez mais longe que noutros concertos que presenciamos tendo o concerto ultrapassado os 60 minutos. Aguardamos novidades, pois no bandcamp da banda continua a apenas estar disponivel o EP de estreia, There’s an Elephant in the Room e há já algum tempo que os Desert Mammooth tem bastante mais que três músicas.

Os senhores da noite eram de facto os Electric Octopus. O trio sediado em Belfast tem vindo a surpreender desde o lançamento de This our Culture em Outubro 2016. Em 4 meses lançaram 4 álbuns. Durante o ano de 2017 decidiram abrandar e lançaram mais 4 álbuns. Com uma crescente curiosidade a crescer em torno da banda e um nível de produção artística a raiar o descaramento é importante analisar alguns pontos…

Afinal o que ouvimos nós nos Electric Octopus? Em primeiro lugar um groove descomunal, descendente da mais fina linhagem do blues, com uma forte componente de jazz. Evocações esporádicas ao hip-hop. Toda esta mistura com a areia do stoner do deserto por baixo e o azul purpúra da abóbada celeste do psicadelismo em jam quase contínua.

É uma espiral que dança e ondula, que cresce e nos envolve cada vez mais à medida que o concerto avança. Não nos agarram logo ao primeiro momento de uma forma absoluta, porque não são fáceis, no entanto nunca em momento algum a partir do instante em que começam a tocar conseguimos desligarmos da guitarra mágica ou do baixo hipnótico ou de bater o pé em uníssono com o baterista. O público exultou e clamou por mais, outra coisa não seria de esperar. Duas notas de rodapé ao acontecimento; a luz da sala que se manteve ligada durante todo o concerto e a necessidade de um som menos tímido para a banda principal. De resto foi uma fabulosa incursão a uma sala que ainda vai fazer correr muita tinta…

Texto – Isabel Maria
Fotografia – Daniel Jesus