Habituem-se, tudo aquilo que gostam ou amam vai, mais tarde ou mais cedo, acabar e isso aplica-se, naturalmente, à música. Poderia parecer que os Slayer nunca teriam um fim, pois esta terra continua ímpia e a necessitar de expurgação à força e ouvir aquela sequência demoníaca Postmortem/Raining Blood fez-nos crer que aqueles 4 zelotas do Inferno a clamar pelo fim do mundo não eram humanos, mas ao longo do tempo Araya, King, Lombardo e, pelas piores razões, Hanneman mostraram-nos que sempre foram de carne e osso. Com a morte deste último, e as persistentes zangas que levaram Dave Lombardo a ditar um adeus aparentemente definitivo à banda, o lineup original do conjunto de Los Angeles passou a resumir-se a Tom Araya e Kerry King, que, ainda que excelentemente acompanhados (ter o Gary Holt como guitarrista convidado é um luxo que poucos têm, e o Paul Bostaph não é nenhum nabo), nunca conseguiram evitar a aura de que estavam a arrastar um projecto que já pedia descanso a sul do Paraíso.

Bem, não vale a pena chorar sobre leite, ou sangue, derramado, e o legado que os Slayer deixam será tão eterno quanto o mal que continua a consumir o mundo. Com uma última tour mundial anunciada, a banda prepara-se para passar umas temporadas no abismo, sendo a primeira dos Big Four a fazê-lo. No entanto, assumindo que dificilmente alguma vai atingir o grau de influência que os autores de Angel of Death justamente obtiveram, são várias as bandas que continuam a aplicar riffs laminados, ritmos furiosos e vozes metralhadas como se a sua vida dependesse disso. Para aplacares as mágoas de uma morte anunciada, aqui ficam 5 sugestões, como os 5 álbuns clássicos dos Slayer (ok, o Divine Intervention é fixe, mas não mintam a vós próprios) de bandas thrash recentes para curtires como se o ano fosse 1988 e um presidente republicano instável ameaçasse acabar com o mundo.

 

Warbringer

Começamos com a banda desta lista que mais se assemelha a Slayer – se bem que diz muito daqueles 4 que nenhum sucessor tenha conseguido sequer copiar fielmente o seu som. Também eles californianos, os Warbringer são, a par dos Havok (que não estão nesta lista porque as suas letras são puro cringe), dos poucos sobreviventes da cena revivalista da década passada que implodiu sobre si mesma. Daquelas bandas que, se pudesse, comeria napalm ao pequeno almoço, os Warbringer mantém a tradição bélica – ou não lhes estivesse no nome – que os Slayer aperfeiçoaram em temas como War Ensemble ou Mandatory Suicide. Há alguns anos, o quarteto liderado por John Kevill ameaçou começar a perder gás, mas Woe to the Vanquished, lançado o ano passado, mostrou como a sua sede de violência está longe de ser saciada:

 

Power Trip

O melhor elogio que se pode fazer aos Power Trip é que parecem arrancados das entranhas dos 80’s, especificamente àquela fase onde o Crossover não era tanto um género mas a consequência de quem gostava tanto de Metal quanto de Hardcore e isso se notava no resultado final (e os Slayer, não evidenciando essas influências no seu som, não deixaram de prestar homenagem ao género no Undisputed Attitude). Passe uma maior clareza que a tecnologia actual permite, o quinteto de Dallas presenteia-nos com o blast from the past, dos berros a vir do fundo do poço alá Bonded by Blood à crueza da captação de som, e é isso que faz os Power Trip vingar perante os demais, a convicção com que punem os nossos ouvidos. Nightmare Logic, despejado em 2017, é um tratado de como fazer Thrash nesta era: não é longo o suficiente para que se torne cansativo e evidencia uma capacidade de gerir dinâmicas notável pois nenhum riff é apenas um riff, tem variações rítmicas suficientes para continuar a soar fresco. Se precisam de mais argumentos, ouçam The Hammer of Doubt, que este escriba humildemente considera uma das melhores malhas deste século.

 

Condor

Da Noruega não vem apenas petróleo e black metal, o colectivo Kolbotn mostra como há uma faceta neste país escandinavo bem menos mística e mais concentrada em fazer o ouvinte espumar da boca. Surgidos dessa cidade que trouxe os Darkthrone ao mundo, os Condor são um dos seus mais recentes filhos bastardos, que seguem as pisadas de bandas como Sodom fase Obsessed With Cruelty pela forma como deixam o Thrash Metal corromper-se pela podridão. Com a capacidade de provocar um motim, ou, pelo menos, deixar o batimento cardíaco muito acelerado, o seu último Unstoppable Power faz jus ao seu nome e é uma marcha implacável de violência sonora, lamacenta mas focada, com uma raiva que não se aprende mas que tem de vir das vísceras.

 

Vektor

Se a escolha desta banda te for surpreendente, ou andaste com a cabeça enfiada debaixo duma rocha nos últimos 9/10 anos ou Thrash não é mesmo a tua cena. Os Vektor tomaram a cena de assalto com Black Future, qual bíblia de canções conspurcadas por terrores apocalípticos, em 2009 e desde então cada lançamento é um acontecimento: primeiro com Outer Isolation, em 2013, e depois com Terminal Redux, em 2016, que juntou a densidade composicional à narrativa, sendo um álbum conceptual que, francamente, não é para todos os gostos. David DiSanto, principal compositor e último resistente depois de todos os membros terem batido com a porta (os génios têm destas coisas, perguntem ao Dave Mustaine) é responsável pelos gritos de abutre e pelo turbilhão de riffs hipertécnicos. O Metal Archives descreve os Vektor como “Progressive Thrash Metal” mas essa nomenclatura não faz jus à loucura que se ouve aqui, que chega a ser exaustiva de tão detalhada:

 

Midnight

Ok, pronto, esta escolha é um bocado a resvalar para a batota, já que os Midnight (ou melhor, “o”, já que esta é uma one-man band) são mais um filho bastardo daquele heavy metal alimentado a metanfetamina e inspirado por Satã do que Thrash propriamente dito, devendo mais aos Abigail ou aos Venom que aos Slayer. No entanto, se andássemos mais de 30 anos para trás, os malhões que Jamie “Athenar” Walters compõe – presumivelmente numa arrecadação pejada de concubinas, alcool barato e montanhas de coca – podiam perfeitamente servir de companhia a Show No Mercy, álbum onde as influências da NWOBHM estavam ainda bem presentes nos Slayer. Com Sweet Death and Ecstasy, lançado no ano passado, a postura rockeira tomou a dianteira em relação ao Black/Speed que mais aproxima os Midnight às bandas deste artigo, mas basta ouvir uma malha como esta para se perceber que o nervo que as une a todas não se perdeu na alma javarda de Athenar:

 

Outras sugestões:

O coletivo Kolbotn não detém o exclusivo do Thrash Metal na Noruega, os Deathhammer são outra banda mal-parida neste país, mas, como o seu nome indica, apoiam-se no Death em vez da costela Black dos seus compatriotas. Mesmo ao lado, na Suécia, os Antichrist também estão determinados a ser obstinadamente anacrónicos e Sinful Birth foi mais uma adição de altíssimo quilate para o género. Mais a sul, e para encerrar o contingente europeu, os belgas Evil Invaders devem o seu nome a um álbum dos Razor e percebe-se porquê: Feed Me Violence é Speed Metal até ao osso, agressivo e melódico em igual medida. Do outro lado do Atlântico, os Red Death andam a mostrar como os Power Trip têm concorrência à altura quanto ao Crossover a tresandar a mofo (no bom sentido, claro) e já que se fala nesse género, apesar dos Municipal Waste terem lançado Slime and Punishment no ano passado, tem sido Iron Reagan, o side-project de alguns dos seus membros, a ganhar maior dimensão, talvez por trocar a atitude mais festiva da banda-mãe por uma atitude mais punk e politizada nestes tempos que correm. Por fim, e como deixar a América do Sul de fora seria um crime, os Ripper demonstram como o Thrash badalhoco não vem apenas do Brasil já que estes chilenos provaram que conseguem ombrear com os clássicos dos Holocausto e dos Sepultura.

 

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia (capa) – Daniel Jesus