A lituana Johanna Glaza veio ao Musicbox apresentar Wind Sculptures, o seu primeiro álbum, lançado em setembro do ano passado. Antes dele já tinha editado dois EPs: Silence is Kind, de finais de 2013, e Letter to New York, de 2014.

Foi também em 2014 que esta artista lituana a residir em Londres se estreou em Portugal, com um espetáculo na Igreja de São Luís dos Franceses – localizada perto da Rua das Portas de Santo Antão – integrado no Vodafone Mexefest 2014, regressando depois a território nacional em 2015, desta feita à Madeira, onde atuou na Estalagem Ponta do Sol.

Enquanto se caminha pelo Cais do Sodré até se chegar ao Musicbox, salta-nos à atenção as poucas pessoas que por lá passeiam que falam português. Esta é sem dúvida uma realidade relativamente nova também ali naquela zona de Lisboa, e com tendência para aumentar. Alguns dos turistas que por ali passam, prestam atenção ao cartaz do Musicbox para aquela noite, levando alguns, inclusive, a entrar e a fazer algo nessa noite que inicialmente não estava nos planos.

Foram poucas as pessoas que se deslocaram, propositadamente ou não, à sala de música do Cais do Sodré na noite de 20 de janeiro, o que significou ter uma sala relativamente vazia, agravada pelo facto de nestas situações haver uma certa tendência para o público se mostrar algo discreto e envergonhado, preferindo assim encostar-se à parede, formando uma espécie de corredor largo na plateia, que neste caso ia do palco até à “rua cor-de-rosa”.

O primeiro a mostrar-se nesta noite foi Lucas – projeto a solo de Pedro Lucas –, que se prepara para em 2018 gravar o seu primeiro disco. Apaixonado pela guitarra, quer ela seja elétrica ou acústica, Lucas presenteou-nos com temas totalmente preenchidos por um das suas guitarras. Cada tema é como se de uma pintura abstrata se tratasse, não há propriamente uma fórmula ou um modelo que é seguido. De qualquer forma, o pouco público presente não deixou de estar devidamente atento ao que Lucas ia desenvolvendo em palco. Nas pausas entre as canções, aproveitava para comunicar com o público de uma forma, por vezes, digamos que, diferente da habitual, nomeadamente quando pediu aos responsáveis pelo espaço para colocarem umas cadeiras na plateia já que lhe fazia confusão ele estar sentado e o público em pé. Ou então, talvez aí mais compreensível dada a forma elaborada como toca nas suas guitarras, quando solicitou para não mexerem muito nas luzes enquanto tocava. A guitarra acústica era tocada diretamente para um microfone, a elétrica ainda passava por um amplificador VOX, que só era ligado quando dele precisava. No final da atuação, despede-se, desliga o amplificador e vai-se embora.

 

Segue-se uma pequena pausa antes da subida ao palco da estrela da noite, e aqui a palavra estrela não é usada ao acaso. Minutos de intervalo que serviram para colocar em cena o material que iria ser usado por Johanna Glaza e que revelou de imediato umas luzes brancas de Natal presas ao seu teclado e, atrás de si, uma daquelas iluminações normalmente usadas em quartos de crianças que refletem inúmeras coisas, neste caso eram, as tais, estrelas. Assim, com poucos recursos financeiros, conseguiu “arrastar” o Musicbox para uma dimensão mais celestial.

Johanna Glaza sobe ao palco descalça, como é costume, e desde logo se percebe que estamos perante alguém que canta maravilhosamente bem e que tem entre os seus atributos uma voz que de tão harmoniosa mais parece levar-nos para outra dimensão. Dotes vocais que por vezes, algumas vezes, nos trazem à memória a extraordinária Kate Bush. Os instrumentos, alternando entre o teclado e um ukulele, são tocados de forma segura e competente. Ao longo de cerca de hora e meia, Johanna Glaza transmite-nos uma sensação tremenda de paz e de tranquilidade, conciliando isso com uma atitude simpática e comunicativa para com os presentes, tentando ao máximo, e dentro das possibilidades que o facto de ter pouco público pela frente lhe proporcionava, desenvolver alguma interatividade para com eles, nomeadamente quando lhes pediu para reproduzirem o som de um oceano.

20180120 - Johanna Glaza @ Musicbox Lisboa

Com ela em palco, estava também uma bonita máquina fotográfica instantânea, que serviria para no final tirar uma fotografia com cada um dos presentes que comprasse o seu CD, oferecendo-a de imediato. Apesar de ainda não se ter rendido por completo às redes sociais, Johanna Glaza não deixou no entanto de pedir para que tirassem também fotos com ela com os seus telemóveis e depois as colocassem nas redes sociais, sem dúvida um dos principais meios de comunicação e de divulgação para os músicos desta época.

A voz e a mensagem, nomeadamente também em relação à perda de pessoas que nos são próximas, de Johanna Glaza são de tal forma harmoniosas e suaves que quando o concerto termina e se sai do Musicbox sente-se uma certa sensação de desconforto perante toda a confusão e barulho vindo das muitas pessoas que se encontram no Cais do Sodré. Já cá fora, a fila era grande, não para tirar fotografias com a artista lituana, mas sim para entrar no Musicbox versão clubbing.

Johanna Glaza, pelo seu talento, e até pela forma extraordinária como abordou o facto de ter pouco público à sua frente, algo que nunca a afrontou, merecia mais público e atenção. Talvez com mais promoção, nomeadamente nas tais redes sociais, as coisas se modifiquem no futuro. É pena se tal não vier a acontecer.

 

Texto – João Catarino
Fotografia – Luis Sousa