Se recuarmos na máquina do tempo e formos a 1994, podemos falar de três feitos. A última vinda de Kurt Cobain e os Nirvana a Portugal, o título do Benfica e também o surgimento do Festival Termómetro. Se calhar, este último acaba por ter mais importância até pelo contexto desta reportagem.

Desde do início do festival, já passaram vários nomes que se consagraram ao longo dos anos, e foram maioritariamente de bandas que não venceram, como os Ornatos Violeta, que desistiram, sendo o único caso, mas também nomes mais recentes como Salto, Richie Campbell e Marta Ren. Mas outras bandas levantaram o “caneco” como Blind Zero (os primeiros vencedores) e Silence 4.

No passado sábado, pela primeira vez, a final ocorreu no Cinema S. Jorge, num festival que se adaptou às novas circunstâncias e com público que é mais jovem que o próprio festival, até a Mathilda, a primeira cantora a participar já era 6 anos mais nova que o festival, mas isto será algo a contar mais à frente.

Antes disso, subiram ao palco os Pop Dell’Arte, ícones dos anos 80, ou seja, já com carreira feita quando Fernando Alvim decidiu criar o conceito Termómetro, inspirado no fenómeno MTV Unplugged. A banda de João Peste abriu as hostes ao festival com uma atuação muito sui generis, incluindo com temas de um novo álbum que deverá aparecer ao longo deste ano. Aos poucos o cinema S. Jorge ia ficando composto para ver Mathilda, Planeta Tundra, Jerónimo, Caio e Quartoquarto.

Para esta noite, os vencedores ficariam com a oportunidade de pisar o palco do NOS Alive mas também do Bons Sons, para além de poderem gravar durante cinco dias no estúdio HAUS, sendo entre outros detalhes, a oferta de um voucher da UBER.

Posto isto, a primeira atuação da noite coube a Mathilda. Dona de uma voz com um potencial incrível, arrebatou logo pelo facto de logo aos 17 anos ter uma profundidade nas letras (que na opinião dela “são todas queridas”) que ao ser acompanhada pelo primo Gobi Bear, tornou uma atuação acústica muito especial ali no centro do palco do S. Jorge. Com músicas a espreitar temas sentimentais, como o Infinite Lapses. Infelizmente não foi a vencedora da noite, mas a vontade a ver mais vezes ficou e também de a acompanhar nos próximos tempos, por tudo o que transmitiu ao longo da atuação de 25 minutos.

 

Planeta Tundra foram os que se seguiram na lista de cinco bandas que se consagraram vencedoras das diversas semifinais do festival. A banda viajou para outro sistema solar através de sonoridades triphop, funk ou ainda eletrónica. Com a mescla de sons que foram apresentando, notou-se claramente inspirações de bandas como Tame Impala (num registo inicial) ou Pond. A fasquia do festival estava elevada, sendo que, ainda não estando a meio do festival já se previa uma disputa renhida.

 

Depois, vindos de Leiria, os Jerónimo vieram dar mais uma lição de grande música, que anda a acontecer na região centro de Portugal. A família Jerónimo, Luís, Gil e Nuno, já com provas dadas na música, como Nice Weather for Ducks ou Les Crazy Coconuts. Com sons como Big Bites ou She’s Got Something, mostraram que seriam uns potenciais vencedores. Mas tal como os já referidos Salto ou Ornatos, ficaram pela final, mas a mostrar um potencial enorme para um futuro que promete ser risonho.

 

Caio foi outro dos registos surpreendentes da noite. A solo, e a cantar em português, novidade até ao momento do festival, surgiu no palco do Cinema da Avenida da Liberdade para encantar-nos com alguns temas do seu EP Viagem. A atuação que levou a muitas palmas de um auditório quase na plenitude da enchente. Dono de uma voz e um registo único, a lembrar se calhar Benjamim ou Filipe Sambado, foi outro dos nomes que se fosse consagrado como vencedor, o título seria bem entregue.

 

Mas o vencedor estava guardado para o fim. Last but not least, o vencedor da 24ª edição do Festival Termómetro foram mesmo os Quartoquarto. O conjunto que começou por homenagear logo no início Zé Pedro (tal como aconteceu no final do concerto, mas por parte de Fernando Alvim), mostrando uma versatilidade num rock eletrónico que convenceu o juri composto por Álvaro Covões (Everything is New), os jornalistas Vitor Belanciano (Público) e Luís Guerra (Blitz), os radialistas Nuno Calado (Antena3) e Nelson Ferreira (SBSR), e o músico Samuel Úria.

 

Liderados pelo barbudo João Vidigueira, a banda que venceu a etapa de Aveiro, exploraram a poesia das suas letras através de músicas sentidas, a explorar o que diziam na descrição da apresentação “uma mistura de Zeca Afonso com James Blake”. Uma atuação que certamente não passou despercebida ao juri, já que estes deram mais oportunidades à banda de cativar nos fãs no próximo verão.

 

Texto – Carlos Sousa Vieira
Fotografia – João Rebelo