A Sala Tejo foi o espaço escolhido para receber em terras portuguesas mais um momento de devoção a um género musical muito específico e que por isso só em raros momentos conseguiu chegar ao mainstream. Falamos do metal sinfónico e de tudo o que o define, nomeadamente as influências que vai buscar a outras realidades musicais também elas pesadas. Os heróis desta noite foram os holandeses EPICA, ainda a promoverem The Holographic Principle, o seu mais recente registo. Com eles trouxeram duas bandas convidadas, os também holandeses VUUR e os tunisinos MYRATH.

Entramos na bonita e bem localizada Sala Tejo pouco passava das oito da noite. Ainda cá fora, deu para perceber que tipo de evento iriamos presenciar. A cor preta das roupas a dominar, os cabelos compridos e uma média de idades acima dos trintas – cada vez se questiona mais o choque geracional no que à música diz respeito, colocando-se a questão de onde param os nascidos nos anos 90. Descemos as escadas e ao entrarmos na sala somos confrontados com a realidade daquilo que é o estilo de música que iria reinar naquela noite. O facto de ele ser muito específico e pouco acessível dá nisto. Só metade da Sala Tejo está a ser utilizada e mesmo essa não se encontra totalmente cheia. Destaque também para o muito fumo no ar, vindo das máquinas do cenário, quase a tapar por completo o palco. Como prova de que Lisboa é cada vez mais uma cidade do mundo, também neste evento eram alguns os estrangeiros que por lá andavam.

Os primeiros a entrar em palco foram os tunisinos MYRATH, que lançaram o explosivo Legacy em 2016. Talvez devido à sua proveniência, e ao facto de promoverem uma certa mistura de metal progressivo com música tradicional árabe, uma belly dancer, portuguesa, surgiu em cena por diversas vezes para mostrar os seus dotes ao nível da dança do ventre. Os MYRATH cumpriram na íntegra o que deles, e das bandas que seguem este estilo musical, se esperava. Vários solos provenientes dos diferentes instrumentos, a revelar a excelência na execução ao nível instrumental. Zaher Zorgati é o vocalista, cumprindo bem o seu papel neste universo musical, mas deixando no ar a ideia de que também o faria bem numa banda de um outro género, estilo The Cult – em relação a estes ainda voltaremos a falar deles mais à frente. O público aderiu bastante bem e em força à atuação dos tunisinos, notando-se que era conhecedor do seu trabalho.

De seguida, viajámos da Tunísia para a Holanda, de onde nunca mais saímos, notando-se isso bem até ao nível do que ia sendo feito em cima do palco. Os VUUR são recebidos de uma forma mais fria, dando a entender que eram menos conhecidos do público – talvez o facto de só agora terem lançado o seu álbum de estreia, In This Moment We Are Free – Cities, tenha tido alguma influência – mas nem por isso deixaram de cumprir na totalidade aquilo que se pede a uma banda que se integre na lógica do metal sinfónico. Uma técnica apurada e nada de improvisos, tudo é ensaiado até ao mínimo detalhe. Liderados pela vocalista Anneke Van Giersbergen, os VUUR revelaram-se como tendo um som mais agressivo do que os MYRATH, para o qual terá contribuído o facto de, ao contrário dos tunisinos, não terem teclados e possuírem duas guitarras em vez de uma, para além do pedal duplo a bater forte no bombo da bateria. A voz doce de Anneke acaba por suavizar um pouco o resultado final.

Eu bem disse que voltaria a falar dos The Cult, já que eles constituíram o momento mais “fora” da noite, quando no intervalo, antes da subida dos cabeça-de-cartaz, a dado momento se ouviu, vindo do PA, “Fire Woman”, tema da banda britânica, sem dúvida a destoar de tudo o resto o que se passou naquela noite.

Eram dez e meia quando os muito esperados EPICA iniciaram a sua prestação. O tripé em forma de S utilizado por Simone Simons não deixava dúvidas do que viria aí. Desde logo se percebeu que eles eram de facto a banda principal do evento, já que foram os que desfrutaram de um melhor e maior cenário. Os EPICA já por cá tinham passado este ano, mais precisamente pelo Festival VOA – que se realiza em Corroios e que se destina às sonoridades mais pesadas –, onde deixaram marcas a quem lá esteve. Depois de uma fase inicial de promoção do mais recente registo por festivais, a banda liderada por Mark Jansen enveredou de seguida por concertos em nome próprio, incluindo duas datas em Portugal, em Lisboa e no dia seguinte no Hard Club no Porto.

20171121 - Epica @ Altice Arena Sala Tejo

Como já foi referido atrás, as bandas de metal sinfónico gostam de seguir uma série de rituais, um deles é o de ser sempre o baterista o primeiro a subir ao palco, o que aconteceu nas três atuações da noite. Com os EPICA, foi então Ariën van Weesenbeek a dar o tiro de partida. Cedo se percebeu que uma das estrelas principais seria o teclista Coen Janssen, muito ajudado pelo seu instrumento, devidamente preparado para o seu número deveras sofisticado, como seja o colocar constantemente o teclado às voltas e, aproveitando umas rodas que tinha por baixo e que não estariam lá por acaso, o de circular pelo palco em cima dele e em grande velocidade. Aliás, umas das caraterísticas destas atuações, talvez um outro ritual, é a constante mudança de posições entre os diferentes músicos. Simone Simons dispara a sua voz, que mais parece vinda da ópera, em cima de toda aquela parede de sons fortes e pesados. Por seu lado, Mark Jansen, que para além da guitarra também se dedica às vozes, oferece a sua voz grave e forte, o suficiente para contrapor à da vocalista.

O concerto arranca com “Edge of the Blade”, do mais recente The Holographic Principle, mas ao contrário do que era previsível, este não foi o álbum central do concerto, tendo a banda optado por uma espécie de best-of de toda a sua carreira, com a inclusão de somente quatro temas do último trabalho: “The Holographic Principle – A Profound Understanding of Reality”; “Once Upon a Nightmare”; “Beyond the Matrix” e o já referido tema de abertura. As restantes nove canções interpretados vieram dos vários registos discográficos já por si editados. No final, lugar para um encore e para o triunfo final, de quem já anda nestas coisas há algum tempo e que sabe muito bem o que fazer quando sobe a um palco. Foram treze temas, em cerca de uma hora e meia de concerto, todos eles interpretados com a mesma energia e entusiasmo. O público pode não ter enchido a sala, mas portou-se à altura do nível, elevado, de entrega da banda.

20171121 - Epica @ Altice Arena Sala Tejo

O metal sinfónico é um género musical que vive, também, da complexidade dos arranjos e da forma perfeita como tudo ocorre. Ali não há lugar para erros ou improvisos. Por ser tão específico em todos os seus aspetos – musicais, líricos, roupas, atitudes, cenários – é um estilo em que ou se gosta muito ou então não se gosta de todo. Consensual é coisa que não é, nem pretende ser.

 

Texto – João Catarino
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Prime Artists