Os Nouvelle Vague regressaram a Portugal para apresentar o seu mais recente registo, I Could be Happy, editado em 2016. A banda francesa pode ser enquadrada naquele conjunto de músicos que estabelecem uma relação especial com Portugal – onde também se poderá incluir Lloyd Cole ou os The National, entre outros –, tendo neste caso a particularidade de terem gravado um CD/DVD ao vivo em Lisboa em 2007, mais precisamente na Aula Magna, sala que os recebeu agora novamente no dia 26 de outubro.

Não deixa de ser interessante constatar que um projeto que se dedica a fazer versões alternativas, bem alternativas, de músicas lançadas nos idos anos 80, tenha o sucesso e o reconhecimento que os Nouvelle Vague têm, como se pôde constatar, mais uma vez, numa Aula Magna quase lotada. Poderá dizer-se que uma música quando é boa, é boa e ponto final. Mas estes franceses destacam-se por realizar uma abordagem totalmente distinta da do original, quase fazendo com que as canções passem a ser deles, apesar de não ser esse o objetivo. Por vezes, as diferenças são tantas, que as dificuldades em identificar as músicas são algumas, do estilo “eu conheço esta música, mas agora não me consigo lembrar de quem ela é”. Apesar das canções levarem novas roupagens, bem distintas daquelas que foram feitas originalmente, o respeito pelos originais está sempre presente em todo o seu trabalho. As músicas estão lá, são decifráveis, ao contrário, por exemplo, de situações como as realizadas por Cat Power no álbum The Covers Record, em que a única coisa que se mantém é as letras.

Passava pouco das 21h, quando as luzes da Aula Magna, sala que mais parece ter parado no tempo mas que mantém um notável estado de conservação, se desligaram de repente, todas de uma vez, deixando de criar aquela sensação, demorada e tão boa, de que o concerto vai arrancar. Em cima do palco surgem quatro candeeiros, um por cada instrumentista. Marc Collin e Olivier Libaux são os “donos” do projeto e com eles em palco estão um percussionista e um teclista A estes quatro juntam-se Mélanie Pain e Elodie Frégé, que no fundo acabam por ser as estrelas da noite. Elas dançam, movimentam-se de forma artística de um lado para o outro, puxam pelo público, gritam, batem palmas, seduzem os restantes músicos… enfim, na verdade elas são as responsáveis pela festa. As bonitas e potentes vozes de ambas – Mélanie Pain com um registo mais contido e Elodie Frégé mais exuberante, daí talvez o facto da primeira vir de vestido preto e a segunda de vestido mais vistoso – e a forma simpática e original com que interagem com o público, são o ponto central de um espetáculo dos Nouvelle Vague. Prova da importância de Lisboa para a banda, foi Mélanie Pain ter lembrado as muitas vezes que já cá tinham tocado e a tal gravação de um DVD naquela sala, o que fez com que esta noite fosse ainda mais especial, como a própria o destacou.

Mélanie Pain e Elodie Frégé brilham mais alto do que todos os outros. Por vezes canta uma e a outra ou faz segundas vozes, ou vai tocar algum instrumento de percussão, outras vezes são as duas que brilham em simultâneo. Marc Collin e Olivier Libaux são os nomes associados a este projeto, mas ambos quase que passam completamente despercebidos. Praticamente não damos por eles, tão forte é a presença em palco das duas senhoras. Também fica a ideia de que eles sabem disso muito bem e que a situação não os chateia nem um bocadinho.

O concerto arranca com “I Could Be Happy” dos escoceses Altered Images, passando de seguida para Blue Monday dos New Order. A primeira sequência do espetáculo é algo mortiça e só mais tarde com “Just Can’t Get Enough” dos Depeche Mode é que a coisa começa a aquecer, transformando a Aula Magna num local de festa, muito por culpa de Mélanie Pain que “obrigou” uma sala inteira a levantar-se e a dançar, algo que não foi difícil de concretizar já que a versão de este tema dos britânicos é dominada pelos ritmos latinos, que combinaram na perfeição com o outono quente que se vive em Portugal. No final do tema, o percussionista veio até à boca de cena, dando um forte contributo para que o público da Aula Magna fizesse uma viagem até ao carnaval do Brasil. Não esquecer que na base de tudo isto está um tema dos Depeche Mode e é isto que melhor define os Nouvelle Vague.

A setlist do concerto foi, como seria de esperar, dominada por temas do último álbum, mas os registos anteriores não foram esquecidos, destacando-se “Love Will Tear Us Apart” dos Joy Division – e como foi bonito ver uma sala inteira a cantar o bonito refrão. É também de destacar o facto de estes franceses arriscarem versões de temas menos conhecidos de bandas de sucesso, como é o caso de “All Cats Are Grey” dos The Cure.

Depois de uma hora de espetáculo, vieram os dois encores, fortemente solicitados pelo público. Foi nos encores que os dois membros efetivos da banda mais deram nas vistas. O início do primeiro arranca com um solo de violoncelo de Marc Collin e daí até ao final do espetáculo Olivier Libaux sai um pouco da escuridão e aparece mais sorridente. Mélanie Pain reaparece descalça.

A atuação termina em euforia e os Nouvelle Vague tiveram mais uma noite especial na cidade de Lisboa. De certeza que não foi a última, o desejo de regresso estará certamente presente na banda e no público português que tão bem os recebe.

 

Texto – João Catarino
Fotografia – Ana Pereira
Promotor – Lemon Iberia