O Barreiro Rocks conta já com 17 anos de história. A nossa, lá, começou no ano passado e posso garantir que foi conexão automática. Para além dos cartazes que compõem estes anos, há toda uma essência por detrás deste festival. Uma essência que o alimenta e nos alimenta a nós. Foi com o coração a palpitar por se aproximar mais uma edição deste festival que acontece do outro lado do rio, que sentimos a necessidade de conhecer um pouco mais quem está por detrás dele. Assim, fomos conversar com Nick Suave sobre o festival e toda a sua essência.

Música em DX (MDX) – Conta-me como surgiu o Barreiro Rocks.

Nick – No ano 2000 fazia parte de um grupo de amigos onde existiam algumas bandas e que, nesse ano, tinham acabado de gravar e, juntamente com outra banda, tínhamos 3 discos prontos para editar nesse verão. Como não tínhamos editora nem era suposto que alguma editora quisesse editar os discos resolvemos criar a Hey! Pachuco para servir de selo e, no dia 30 de Setembro, decidimos fazer um concerto de apresentação a que chamamos Pachuco Fest e foi a primeira edição do festival que, no ano seguinte, cresceu já para uma coisa com 2 dias e com bandas internacionais. O início foi um bocado uma desculpa para se fazer uma festa.

MDX – Quando mudaste para Barreiro Rocks?

Nick – Ao fim do segundo. Fizemos dois Pachuco Fest e o terceiro já levou o nome Barreiro Rocks, em 2002. Como o executivo da Câmara tinha mudado e nós apresentamos um projecto um pouco maior e tínhamos mais algum apoio fazia mais sentido com outro nome.

MDX – Como é que vês estes 17 anos de Barreiro Rocks quando olhas para trás?

Nick – Vejo com uma grande velocidade! Dá-nos um orgulho brutal porque quando olhamos para trás torna-se engraçado ver, para já, a arte pessoal da amizade e, por outro lado, um orgulho grande por termos visto o evento a crescer em diversas formas, numas alturas com maior investimento e a crescer a nível de cartaz e noutras alturas que, apesar de haver menos dinheiro para investir, temos mais público e, portanto, todos os anos há sempre algo positivo a acontecer com o festival. Tem-se vindo a juntar muita gente a esta viagem, o que para nós é um facto que nos deixa muito contentes. É um conforto grande porque tens uma noção de que o festival é realmente, de certa forma, comunitário de várias formas: tens uma comunidade local de pessoas que podem até nem estar ligadas à música mas gostam do festival porque sabem que é uma altura em que se vão divertir e conhecer bandas novas que nunca ouviram e passam a gostar, depois estamos incluídos naquela pequena comunidade de malta que sabe quem são os outros músicos que estão aliados ao do it yourself e que fazem pela vida e temos muito orgulho em estar inseridos nessa comunidade e ser suportados por ela.

MDX – De onde vem aquele conforto genuíno que se sente no Barreiro Rocks?

Nick – É uma característica que nos tem sido atribuída por malta que não conheço ou que fui passando a conhecer porque se tornaram habitués do festival e que falam do evento e isso acontece imenso desde o início… Mas aí foge-nos da mão. Essa genuinidade acho que tem a ver com as pessoas aqui do Barreiro, esta comunidade funciona assim… Este público ao longo dos anos parece que se foi escolhendo e que vai reunindo a malta que está com esse espírito positivo. É algo que sempre senti aqui no Barreiro! Por exemplo eu tinha o meu grupo de amigos que era a malta do skate e dentro da malta do skate ao fim do dia ia toda a gente sair e ia toda a gente para o mesmo sítio e vês os metaleiros no concerto da banda do hip hop e ves a malta do hip hop no concerto do metal! Se calhar por ser um meio pequeno e onde as relações de amizade se sobrepunham a essa questão dos grupinhos… e isso continuou nas gerações seguintes e a malta realmente apoia e gosta de ver o que os outros fazem para ter a sua própria identidade e isso depois reflete-se nesta coisa de quando vem alguém de fora querer mostrar que é assim.

MDX – Fizeste algumas alterações nesta edição, como por exemplo reduzir os dias…

Nick – Sim, no ano passado, na segunda-feira fui parar ao hospital, o corpo desligou. Então pensei que este ano devia fazer as coisas de outra maneira para ver se sobrevivia, para ver se chegamos à 20ª edição comigo a ver. Decidimos este ano meter um travão a tantas actividades e concentrar tudo mais no fim-de-semana, não quer dizer que este formato seja para ficar. Normalmente, de ano para ano, inventamos sempre qualquer coisa. Entretanto posso dizer que já inventamos mais um evento para quinta à noite na Adão, vai haver um concerto de The Pau e, durante esse concerto, vai pintar-se a tela do palco para o festival, tal como fizemos no ano passado, o João Maio Pinto e os ilustradores vão estar a pintar live act.

MDX – Este ano também há mais nomes nacionais e menos internacionais…

Nick – Não apanhei tantas pessoas como queria e também tem a ver com contingência financeira e o facto de ter de fazer alguma poupança.

MDX – Como vês o Barreiro Rocks no futuro? 

Nick – Gostava, e estamos a trabalhar para criar condições, de ver se conseguimos voltar a poder apostar em cartazes um pouco mais internacionais, apesar de eu achar que a qualidade das bandas se tem mantido sempre, tens projectos muito bons aqui. A nível de impacto de comunicação não temos conseguido mais nos últimos anos porque estamos com um orçamento ridículo. Estamos neste momento a trabalhar para ver se voltamos a conseguir isso. Esse é o principal objectivo, para além de sobreviver. Este ano, pela primeira vez, não vamos ter o Crooner Vieira, que é uma coisa nos está a deixar um pouco tristes. São 89 anos, é daquelas coisas que sabíamos que ia acontecer um dia e estamos nessa altura… é mais ou menos uma certeza a de que já não podemos contar com ele no futuro, o que nos está a deixar com uma sensação um bocado desconfortável e triste.

MDX – Para além do cartaz, queres dizer algumas palavras para ajudar os indecisos a optar pelo Barreiro Rocks?

Nick – As palavras que me disseste sobre o conforto genuíno. Se puderem venham, porque vão ser bem recebidos e vão presenciar algo único, para além da boa música que podem ou não conhecer. Há toda uma componente de virem para dois dias de festa onde se podem divertir e esquecer os problemas da vida. Não vou destacar nada no cartaz porque acho que está muito equilibrado. Já vi os Caveman e adorei, por exemplo, e estou com muita vontade de os rever, fora isso há ali muita coisa boa. Por isso venham! Venham comer nos restaurantes do Barreiro que são óptimos.

O Barreiro Rocks realiza-se nos próximos dias 3 e 4 de Novembro no Grupo Desportivo Ferroviários do Barreiro e vão ser duas noites de festa onde se comemora o rock e toda a família que gira à sua volta!

Entrevista – Eliana Berto
Fotografia – Vera Marmelo
Documentário – Eduardo Morais