The National Surgiu, o Homem Sonhou e o Amor Nasceu

Há um apreço especial que se sente por determinadas bandas que, quando um amigo nos pede para o descrever, deparamo-nos com a falta de palavras face ao carinho que é nutrido. No caso deste que vos escreve, apenas tenho quatro artistas que figuram esta lista onde os The National têm um lugar bem cimentado no topo.

Tudo começou quando, por volta dos meus quinze anos, tentei de tudo para convencer os meus pais em aventurar-me pelo meu primeiro festival de Verão, com os meus olhos fixos no longínquo Super Bock Super Rock de 2010. Sendo honesto, muitos dos nomes que constavam no cartaz não me diziam nada na altura – exceto Vampire Weekend e mais uns quantos – e foi numa pesquisa intensiva que visava justificar aos meus pais o ‘eu-devia-ir-porque’ que descobri The National.

Não foi um amor à primeira vista, diga-se de passagem. Para um rapaz que ainda nem pelos na cara tinha, que só queria indie misturado com ainda mais indie, que tinha Arctic Monkeys e Bloc Party como bandas de eleição, The National soava muito a ‘banda de velhos’, com temas demasiado ‘deprimentes’. Passados alguns anos, num certo dia negrume e com o seu quê de infelicidade, debruçado na cama e a refletir sobre todo negrume que atormentava a vida de um rapaz prestes a entrar na idade adulta, que tive a excelente ideia de meter o High Violet inteiro a rodar pelo YouTube. Foi aqui que houve o ‘click’.

Até ao dia de hoje, a minha história com The National foi se construindo lentamente: discos pela estante, letras na ponta da língua, canções associadas a pessoas, concertos na primeira fila, uma setlist praticamente destruída… enfim, a influência desta banda em mim é tão grande que ocupam uma parte considerável do meu coração. Com o passar dos anos, esse lugar cativo dos The National nunca fraquejou, aliás, se tanto, apenas veio a aumentar consideravelmente.

Dito isto, coloca-se então a questão, para quem não é familiarizado com a banda, de “quem são os The National e porque é que conseguem influenciar de forma tão intensa a disposição de quem os ouve”. Pessoalmente, ando há sete anos, desde que dei de caras com “Fake Empire” ou “Bloodbuzz Ohio”, a tentar encontrar uma resposta concreta, imparcial e não romantizada em demasia, tarefa esta difícil ou não tivesse estabelecido um elo de ligação tão forte para com a banda que agora se torna difícil coloca-lo em palavras.

Em The National, encontra-se conforto e compreensão, um ‘porto-seguro’ sempre de braços abertos para nos acolher e direcionar-nos para um cenário melhor, longe da tormenta que as vivências do quotidiano nos impinge. Qualquer que seja o eleito entre os sete discos de carreira, todos eles severamente aclamados pela crítica, está assegurada uma hora de terapia emocional que visa a aprendizagem de novas formas enfrentar o mundo que nos rodeia. Ao longo das já habituais sessões que consta em cada álbum, Matt Berninger – infame vocalista da banda que cumpre todos os requisitos para personificar o papel de ‘tio fixe da família’ – prega-nos palavras tão duras e reais, mas que paradoxalmente conseguem também ter o seu quê de doçura e inspiração, que parecem ter sido escritas com o propósito único de serem o impulsionador da mudança necessária para que a vida nos volte a sorrir.

Outrora, um estimado amigo meu que dá pelo nome de Diogo, dizia que “The National destrói e quem ouve The National quer ser destruído”. Até hoje, tenho em esta frase uma das melhores descrições feitas à banda; quando se é derrotado por completo, tanto a nível mental ou físico, é preciso a coragem e o empenho em erguer-nos novamente, ou seja, para haver reconstrução é preciso haver primeiro destruição. A capacidade que os The National têm de tornar os seus (fiéis) ouvintes em pessoas renascidas através da sua música é uma dádiva atribuída a muitos poucos, uma bênção que apenas os mais sábios conseguem tirar o maior proveito de, e ao longo de quase vinte anos de carreira, muitos foram aqueles que viram as suas vidas serem transformadas por completo à pala destas cinco almas repletas de bondade.

The National, Sad Songs for Dirty Lovers, Alligator, Boxer, High Violet, Trouble Will Find Me e Sleep Well Beast são sete obras de poesia, cada uma a atingir diferentes padrões de profundidade mas repartindo, todas elas, o mesmo expoente de beleza. A lírica da banda sempre foi um dos pontos mais fortes da banda, sendo múltiplas as interpretações que podem ser feitas às preces de Matt e sua leal companhia, estando estas sempre sujeitas a alterações quando analisadas mais profundamente – sim, todos os álbuns de The National têm a proeza de não só convidarem a uma revisita como também em perdermo-nos por horas em cada um. A acompanhar estas análises, há uma luxuosa banda sonora, uma sonoridade que têm vindo a crescer e a tornar-se mais madura de ano para ano, conseguindo sempre, e de forma irrefutável, criar um ambiente e o estado de espírito adequado para as mensagens de todas as canções.

Para este ano de 2017, os The National voltarão novamente à estrada, com Lisboa a ser uma das felizes cidades contempladas a acolher a banda para um concerto já esgotado no Coliseu dos Recreios. A história entre a banda e Portugal é rica e duradoura, ou não tivessem pisado solo português por umas incríveis treze ocasiões distintas; é tão bonito saber que o nosso país foi um daqueles que teve o privilégio em acompanhar o crescimento de uma banda que nos é tão querida…

Na noite do 28 de outubro, Sleep Well Beast, o mais recente longa-duração da banda, será apresentado ao público português num concerto que se prevê como especial: na atual digressão, os The National já deixaram bem esclarecido que ‘improvável’ é a palavra que melhor caracteriza as setlists a serem apresentadas, com a promessa de resgatar muitos hits do passado em prol de alguns dos temas mais emblemáticos. Esta decisão poderá ser vista como uma faca de dois gumes, sem dúvida, visto que foram temas como “Terrible Love”, “Vanderlyle Crybaby Geeks” ou “Mistaken For Strangers” que nos fizeram apaixonar pela banda. Todavia, ter a hipótese de ouvir “Wasp Nest”, “Lemonworld” ou “Apartment Story”, músicas mais antigas mas que certamente tiveram mais tempo para criar uma ligação emocional para connosco, só por si faz com que a expetativa seja tremenda para este futuro concerto de The National.

Ao escrever o presente texto, múltiplas foram as vezes que entrei em ‘modo de repouso’ para ouvir um disco de The National na íntegra, e caramba se não é incrível a forma como sabe sempre tão bem como a primeira vez. Depois de ultrapassados todas as adversidades emotivas que a primeira audição de uma das obras poéticas de The National desperta em nós inicialmente, é irónico ver como esses tumultos deram origem a uma paz de espírito tão calorosa que me deixa de sorriso dos lábios desde o início ao fim.

Por mais bandas que venham ao mundo, poucas serão aquelas que terão a capacidade de remexer tanto nas nossas emoções como os The National. E, sinceramente, não há palavras que conseguiram traduzir a gratidão que sentimos pela banda. Tal como eu ainda não consigo explicar totalmente o amor que nutro por eles.

Texto – Nuno Fernandes