Há quinze anos que os Papa Roach não pisavam um palco português. O último foi, precisamente, o Coliseu dos Recreios. Com novo disco cá fora, Crooked Teeth, regressaram a solo português trazendo os Ho99o9 como primeira parte. A noite revelou-se, primeiramente, uma surpresa e depois uma constatação – os Papa Roach têm marcado gerações inteiras e o concerto, recheado de clássicos com mais de uma década, provou isso mesmo.

20171017 - Papa Roach @ Coliseu dos Recreios

A surpresa pode não ter sido muito grande se os fãs de Papa Roach tiveram o cuidado de ouvir em casa quem iria fazer a primeira parte. Os Ho99o9 já contam com quase uma mão cheia de anos de existência, mas só recentemente lançaram o seu primeiro disco. E eles avisam: é para ouvir alto, o mais alto possível, porque senão mais vale nem ouvirem, pois não irão viver o que eles pretendem que se viva enquanto os ouvem. A dupla norte-americana, acompanhada por um baterista, apresentou United States of Ho99o9, e o próprio nome do trabalho fala por si: eles pretendem causar impacto, desafiar convenções, esmurrar o mundo como o conhecemos. Se o concerto tinha todo o potencial para ser impactante, a verdade é que acabou por ser um pouco aquém das expectativas. Talvez a comunhão do hardcore com o hip-hop não tenha deslumbrado a plateia, o que é certo é que se o primeiro tema surpreendeu e arrancou fortes aplausos, dali para a frente a interacção foi cada vez menor, aumentando a distância entre o que se fazia em palco e o público. Toda a euforia que se pode constatar noutros concertos da banda, que inclusive já tiveram que ser interrompidos por o mosh se ter descontrolado, foi completamente inexistente no Coliseu.

 

Um cenário completamente oposto, como se de repente o público despertasse para uma nova realidade, aconteceu assim que o pano dos Papa Roach caiu e a banda subiu ao palco. Ao contrário da última data, em Madrid, que esgotou, o Coliseu ficou apenas bem composto, mas com uma energia invejável. Foi fácil perceber porque é que a banda já vendeu mais de 20 milhões de discos. Com quase um quarto de século de existência, este quarteto (em palco quinteto) sabe como dar um concerto memorável.

20171017 - Papa Roach @ Coliseu dos Recreios

O concerto começou e explodiu logo com o tema homónimo do último disco, Crooked Teeth, para logo a seguir deliciar as primeiras gerações que alguma vez os ouviram com Getting Away With Murder (2004) e Between Angles and Insects (2000). E logo após estes três temas, o público já extravasava toda a sua comoção em moshes consecutivos e coros arrepiantes. Seguiu-se uma revisita a F.E.A.R, disco de 2015, com Face Everything and Rise, voltando-se a Crooked Teeth com Born for Greatness. Talvez seja de mim e da minha geração, que me pareceu altamente representada neste concerto, mas assim que chega She Loves Me Not (2002) volta-se a sentir uma nova onda de catarse. Seguiu-se Scars (2004) e Periscope (2017), das poucas músicas mais calmas no reportório da banda. Uma das surpresas da noite estava para chegar, após Gravity (2015), um tema bastante emotivo, seguiu-se uma cover dos Blur, a Song 2. Mas eles tinham ainda mais na manga, e a próxima sequência foi digna de nota. Tocaram Traumatic (2017) e logo a seguir Forever (2006) que acabou convergindo no tema In The End, dos Linkin Park. Aqui, o vocalista, Jacoby Shaddix, emociona-se, homenageando e lembrando Chester Bennington, referindo a referência que o músico sempre foi no rock. E é nesse momento que voltamos a 2000, com o tema Blood Brothers, para delícia do público. Voltamos ao presente para American Dreams (2017), acalmando um pouco para uma versão slow de Lifeline (2009). Help (2017) foi o tema que parecia fechar o concerto, mas todos sabíamos que ia haver encore. E este chegou com quatro temas, None of The Above (2017), Dead Cell (2000), Last Resort (provavelmente um dos temas mais esperados do concerto), terminando com …To Be Loved (2010).

Apesar do Coliseu não ter esgotado, o público presente teve força suficiente para o fazer tremer. Houve alturas do concerto em que me movimentei entre o público pelo fascínio de observar a entrega dos fãs. Mesmo nas bancadas, poucos estavam sentados, quase todos sabiam as letras de cor, e quem ficou mais para trás tinha espaço suficiente para que o corpo expressasse o que tivesse a expressar em cada música. Esse espaço extra acabou por ser muito útil quando, a certa altura, Jacoby pediu a todos que se sentassem – até os mais resistentes ao início o fizeram – para logo a seguir explodir um mosh descomunal. Abriram-se os círculos que se quiseram abrir, falta de entusiasmo foi coisa que não presenciei. A reacção e todo este ambiente foi merecido. A banda em palco estava comprometida, livre e interagiu sempre de forma muito apaixonada com o público. Os Papa Roach provaram bem o porquê de continuarem a ser uma referência intemporal.

Texto – Sofia Teixeira | BranMorrighan
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Everything Is New