O sueco Jay-Jay Johanson anda por Portugal a dar alguns concertos integrados na tour comemorativa dos vinte anos de Whiskey, o seu primeiro disco e também aquele que obteve mais sucesso. Esta quarta-feira, dia 11, calhou a vez de ser Lisboa a recebê-lo, mais precisamente no Tivoli.

Quando Whiskey foi lançado em 1996, ele foi recebido de uma forma muito positiva pelo público e pela crítica. Jay-Jay Johanson era original na forma que encontrou, a partir de outros registos já editados – como é o caso de Dummy dos Portishead –, para abordar a música que queria construir. A receita era relativamente simples, pegar em alguns beats e colocá-los a tocar nas rotações erradas, reduzindo assim a sua velocidade. Com os beats a tocar em ritmo lento, o sueco cantou por cima deles com o seu timbre tão caraterístico, mas também tão sempre igual. Se quando Whiskey foi lançado ele chamava a atenção por causa da sua originalidade, vinte anos depois o efeito já não é o mesmo. O modelo já foi entretanto seguido por muitos outros, até por alguns com vozes bem mais versáteis do que a de Jay-Jay Johanson. Assim, não é de admirar que depois de uma estreia em grande, o artista nórdico tenha aos poucos caído no esquecimento. Perante essa realidade, nada melhor do que ir buscar aquilo que de mais relevante fez na sua carreira e assim dar um novo impulso à mesma. É exatamente isso que ele faz com esta tour.

Quando entrámos na sala do Tivoli e olhámos para o palco, a primeira coisa que nos chamou a atenção foi a forma despida como ele se encontrava. Tínhamos uma bateria, uns teclados, um ecrã atrás ao centro e pouco mais. O material usado nesta tour ficou sem dúvida bem à larga no espaçoso palco do Tivoli.

Pouco passava das 21h quando, ao som de “Singin’ in the Rain” vindo das colunas, se deu início ao espetáculo. Rapidamente se concluiu que se o palco era demasiado espaçoso para aquele tipo de concerto, também a plateia se revelou demasiado grande para o número de pessoas interessadas em ver e ouvir Jay-Jay Johanson em 2017. A sala encontrava-se com uma lotação próxima da metade.

Como seria de esperar, Whiskey foi a peça central de todo o espetáculo, no entanto ficou também patente que se pretendia então, ao mesmo tempo, promover a sua carreira e o seu mais recente álbum – “Bury the Hatchet”, lançado este ano – à boleia de um disco editado há vinte anos atrás e que foi também o seu maior sucesso. Em cima do palco temos um baterista, um teclista e Jay-Jay Johanson, que se mantém sempre simpático para com o público, mas também algo repetitivo na forma como interpreta os seus temas. O timbre é original, mas pouco versátil, e por isso à quarta ou quinta música já os ouvidos começam a deixar-se levar por uma certa monotonia derivada da pouco variação da voz do sueco. Por detrás dos músicos, encontrava-se então o tal ecrã, que ao longo do concerto ia recebendo diversos vídeos, grande parte deles gravados em ambientes tipicamente urbanos, que iam passando como de um filme se tratasse, sendo este exibido em simultâneo com o concerto. Não havia propriamente uma sequência lógica ou uma ligação entre eles e o que ia sendo cantado. Estranho foi o facto de os vídeos terem desaparecido do ecrã, de uma forma algo abrupta, quando faltavam ainda alguns temas para o final do espetáculo, a comprovar que o que se passava no ecrã pouco tinha a ver com o que acontecia em cima do palco.

Whiskey foi tocado exatamente da mesma forma como foi gravado em 1996, mais parecia que alguém tinha colocado o CD/LP a tocar para nós. Não houve assim qualquer tentativa de trazer as músicas que o compõem para a atualidade. Tudo ficou parado no tempo, tanto a sonoridade e o ambiente por si criado, como a ideia que fica de que a melhor forma de saborear este disco é estando sentado confortavelmente num sofá com um copo de whiskey na mão, algo que o conforto das cadeiras do Tivoli ajudaram a reforçar.

Após cerca de duas horas de concerto, somos confrontados com o tal cansaço de uma voz que se torna demasiado repetitiva, tema após tema, algo que poderia ser compensado com abordagens sonoras diferentes, o que de facto não acontece, acabando por cair tudo numa certa monotonia, de tão repetitivo se torna. No entanto, entre os presentes, grande parte estava perfeitamente em sintonia com o artista, mostrando isso mesmo durante as pausas entre as canções e no final “obrigando” Jay-Jay Johanson a um encore, que arrancou com ele sozinho em palco, passando depois a estar acompanhado só pelo teclista e por fim com a totalidade do trio de volta. No último tema da noite, chegou inclusive a tocar piano por breves instantes. Quando tudo acabou, o sueco desceu do palco e veio cumprimentar todos aqueles que se encontravam na primeira fila e que o receberam de forma calorosa e simpática.

Whiskey foi relevante no momento em que saiu, derivado do muito de original que trouxe consigo. Depois disso, em vinte anos, Jay-Jay Johanson não soube voltar a surpreender e acabou por cair numa certa repetição das mesmas fórmulas. Assim, não foi de admirar ver em 2017 um Tivoli com meia casa para o receber, mesmo que de forma entusiástica da parte de alguns.

Texto – João Catarino
Fotografia – Ana Pereira
Promotor – Lemon Ibéria