Process of Guilt, alguém nos acuda

Que a banda eborense não está interessada em fazê-lo, antes pelo contrário. Se não bastasse a virulência que o seu novo Black Earth traz à Terra, esta mesma esteve sob grave perigo na passada quarta-feira, muito devido a quatro experientes músicos que já deviam ter cabeça para saber que não se pode tocar os dois temas título dos dois últimos álbum de seguida sem fazer o planeta colapsar sobre si mesmo. Perdoamos-lhes por não estarem habituados à volatilidade do seu material mais recente; posto isto, é com regozijo (e alívio em ter sobrevivido) que dizemos que o concerto dos Process of Guilt no Musicbox foi mais uma prova de que a banda está num patamar superior, tanto em estúdio quanto ao vivo.

É caso frequente as bandas almejarem, sem sucesso, replicar o vigor ou a proficiência do seu material gravado nas performances ao vivo. Ou o conjunto não tem a experiência necessária, ou falta nervo (vulgo, tomates) ou o que procuram demonstrar em concerto perde elementos na transição. Para uma banda que lança álbuns com tamanha imensidão sónica, isso podia ser uma armadilha para os Process of Guilt, mas não. Já o haviam demonstrado com Faemin e voltam a fazê-lo aqui. Se em estúdio são gigantescos, em palco nem sequer são monstruosos, são verdadeiros adamastores.

Ver o quarteto tocar Black Earth na íntegra foi um privilégio que um grupo bem composto de masoquistas, mas que não chegou a encher a sala, teve o prazer submisso de receber. A violência com que dispensam estas canções das profundezas é amplificada, não só literalmente (duh), como também no tocante à intensidade com que se entregam. É, no melhor sentido do termo, ouvir o CD ao vivo mas em muito melhor. Ficou patente a noção de que estavam quase apenas fãs indefectíveis naquele cantinho do Cais do Sodré, e se tal não fosse o caso, então o choque que foi ouvir a puxada para o maelstrom de (No) Shelter deve ter ficado na memória.

Feral Ground, Servant e um retorno a Harvest mostraram aquilo em que os Process of Guilt são melhores: uma secção rítmica não só à prova de bala, como também parte intrínseca na circularidade quase tribalista que dispensam; riffs magnânimos, de deixar qualquer um prostrado; um rugido feral que Hugo Soares puxa das suas entranhas. Contudo, o grande momento, já referido foi o combo Faemin + Black Earth, possivelmente os dois mais devastadores temas jamais escritos pela banda, que de seguida trataram de testar as fundações da rua de Alecrim a sugar a restante energia dos presentes, forçando-os ao headbanging sem dó. A estocada final foi assinalada com Hoax, cujos tremolos ascenderam e recuaram como vagas gigantes num último repto aos presentes para se entregarem à música com total abnegação, fechando mais um concerto absolutamente memorável.

Da banda de abertura, os Thyrant não reza a história, e não se pense que este é mais um síndrome de “vou-odiar-uma-banda-pouco-conhecida-porque-é-fácil.” Na verdade, a audição prévia de What We Left Behind…, álbum de estreia destes espanhóis, até deixou boas impressões, mas, lá está, no palco foi diferente. “Por supuesto” que o conjunto de Málaga estava “encantado” por vir a Lisboa, e os primeiros dois temas até demonstraram ser dinâmicos qb, mas desde a apresentação do tema novo Black Oceans até ao fim, foi sempre a descer, transformando-se numa amálgama em que já não se sabia onde começava uma música e acabava a outra. Claro que a banda toca nas horas, claro que não cometeram nenhum erro catastrófico, mas faltou rasgo aos riffs sensaborões e estruturas repetitivas, procurando induzir hipnose, apenas provocando sono. Valeu o baixo de 5 cordas, sempre deu ouvir umas linhas bonitas.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Daniel Jesus