Process of Guilt – Black Earth

Pois é, as evidências são por demais evidentes: estamos mesmo condenados a rebentar com este planeta. Os sinais acumulam-se, basta olhar para os últimos meses e perceber que por inércia, incapacidade, puro dolo ou uma combinação dos três (Portugal mostrou essa capacidade neste Verão), se caminha para o fim e a boa vontade de nada serve. Quando se trata a Terra com tamanho desprendimento, ela retribui com o dobro da intensidade e, no dia do juízo final, não haverá escapatória. É um pouco assim que começa este Black Earth – somos atirados sem dó nem misericórdia para o cataclismo de (No) Shelter, a faixa inicial do mais recente álbum dos Process of Guilt.

O intuito dos eborenses parece ser claro: “já deviam estar habituados, agora aguentem-se à bronca” e o turbilhão começa onde Faemin, o LP anterior, parou (não esquecendo o excelente split que lançaram com os Rorcal, pelo meio), provando que nem sempre vem a bonança após a tempestade. Black Earth assume-se como uma continuação sonora e até temática, marcando um aparentemente definitivo afastar do romantismo melancólico do Death/Doom Metal à inglesa que perfumava os primeiros trabalhos e o radicar de uma aproximação mais directa e enraivecida, sob os preceitos daquilo que se convencionou chamar de “Post”, condizente com a toada apocalíptica que consome a banda. Noutras palavras, os Process of Guilt estão mais musculados, secos, mecânicos, mas não menos poderosos, alicerçados numa secção rítmica titânica.

Se não perceberam até agora, Black Earth não promete nada de bom: Feral Ground profetiza um mundo deixado à lei do mais forte – “The steps outside, they’re coming closer”, berro de Hugo Santos, é equivalido pela urgência com que os riffs vão crescendo à volta dos ritmos circulares – ao passo que Servant, que põe em evidência as linhas de baixo alcatroado de Custódio Rato, não tem pejo em reduzir o Homem a uma condição miserável, à medida que começa mais contida e depois desemboca em assomos de violência. No cerne deste negativismo, está a decisão em recorrer à segunda pessoa do singular nas letras, numa dialética de confronto com o ouvinte, preso à fraqueza da carne (“Your body’s a cage”, em (No) Shelter), destinado a sofrer (“You fall, you lose, you serve, you fail, you lose, you serve”, apregoa Servant), seja qual for a sua vontade (“Your will is not enough”, diz Black Earth) de procurar a salvação.

No entanto, sem dúvida alguma, se fosse necessário reduzir todas as características deste álbum a um tema seria a faixa homónima, que vê os Process of Guilt em modo sísmico a assinar um dos melhores e mais medonhos temas de toda a carreira. Riffs enormérrimos encadeiam-se com uma dinâmica de quem levou tempo a aprimorar a sua escrita e são acompanhados por, provavelmente, uma das entregas mais iradas que Hugo Santos já gravou. Só não dizemos A mais irada, porque Hoax, a terminar, é duma sanguinolência que aproxima a banda do tipo de intensidade que se vê no Black Metal.

Ao todo, o que temos aqui são 5 retratos desesperantes a preto e branco de um mundo talvez assim não tão distante, captados com a dose certa de clareza e ruído, um equilíbrio entre o baque de tirar o folgo e o feedback caótico. O único senão que se levanta nesta obra é a máxima do “if it ain’t broke, don’t fix it”. Para o bem e para o mal, Black Earth não se mexe muito para além do que Faemin estabeleceu, não constituindo um avanço significativo para a banda, com tudo o que isso acarreta de bom e de mau. Se os Process of Guilt simultaneamente assinam mais um álbum que os cimenta num patamar acima dos seus pares, arriscam-se também a ficar encurralados num beco criativo. Que o funesto destino da Terra está selado, não temos dúvida -a sua banda sonora será os últimos três minutos de Black Earth, a faixa – interessa é saber o que é que o dos Process of Guilt lhes reserva.

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Texto – António Moura dos Santos